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terça-feira, 9 de julho de 2013 Wimbledon | 18:30

O escocês britânico

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Wimbledon nunca mais será o mesmo. Nem Andy Murray. Durante os últimos 77 anos o torneio foi uma festa onde os organizadores – o All England Club e a Federação Inglesa – sempre fizeram questão de deixar claro nas entrelinhas, condenscendiam em permitir que os estrangeiros comparecerem e, para seu eterno desgosto e frustração, retribuíssem a suposta hospitalidade vencendo o torneio. A imprensa local deitou e rolou nas ultimas décadas em ataques de auto miseração, e tirando sarro do fato dos locais nunca estarem presentes na segunda semana do evento. Para os ingleses – não sei bem se o fato de um escocês, que no ano que vem votam em um referendo se tormam uma nação independente – é melhor ou pior. De qualquer jeito, hoje toda a Grã Bretanha celebra e apadrinha o campeão. A história do até pouco tempo conturbado tenista também será diferente. Uma antes, outra depois de Wimbledon 2013.

 

Lembro que sempre achei que era uma questão de tempo para Murray ganhar Wimbledon e outros GS. Uma pancada de sofasistas, que hoje se escondem debaixo do tapete, se indignavam, já que só enxergam o óbvio e esse óbvio se resume a dois ou três tenistas que veneram, amam ou detestam. Os que acreditavam, como muito bem bolou nosso amigo Flávio Bet@, cabiam na tal Romi Isetta.

 

Andy Murray é um tenista difícil de gostar. Seu carisma é zero. Seu tênis, brilhante, não se encaixa no padrão atual estilo de mãos pesadas ou mesmo de jogadores mais clássicos. Tenistas como Jimmy Connors e John McEnroe lhe esnobaram no início da carreira, se recusando a treiná-lo. Seu estilo é baseado no contra ataque, no preparo físico espetacular construído com muito trabalho e competência, cujo verdadeiro diferencial é a sua habilidade física, especialmente as “mãos”. Além disso é um jogador tático que pensa, as vezes demais, para jogar.

 

Desde cedo ele procurou seu caminho, independente do que os outros achassem. Abandonar a ilha do norte e procuram Barcelona foi ideia da mãe, que pensava, com um bocado de razão, que os conterrâneos não tinha na alma o necessário para serem campeões – foi pastar no saibro espanhol para aprender a lutar. Seu temperamento se adaptou ao estilo espanhol de trabalho duro. Quando chegou a hora voltou para a ilha, já com o estilo e o comprometimento definidos.

 

Uma de suas qualidades foi ter se cercado de pessoas que pudessem fazer um impacto positivo em sua carreira/vida. Fugiu do pessoal e das baboseiras da federeção inglesa, procurando ajuda em profissionais que tinham experiência de trabalho com outros esportes e do centro de excelência de esportes inglês. Ele tem um preparador físico, um fisiocultor, um fisioterapeuta que estão no time há anos. O rebatedor, um venezuelano que conheceu na academia de tênis em Barcelona. Ivan Lendl, desde o início de 2012 e uma psicóloga que Lendl, que utilisava um nos tempos de juvenil, o convenceu a contratar. O checo sabia que precisava de alguem para afinar o hardware do bipolar escocês.

 

Todos falam sobre a influência de Ivan Lendl na sua vitória. Com certeza existiu, mas, à distância, não sei se é tão grande como se preconiza. O rapaz caminhava, no seu torturante ritmo, e progredia na sua técnica há anos – só não vencia os grandes eventos. Faltava-lhe quebrar o jejum de um título de Slam, o que veio no ano passado em Nova York. Era inevitável e Lendl que também teve dificuldade semelhante, veio ajudar no processo. As diferenças táticas são poucas e as mudanças eram gritadas até pelos meus leitores mais sofasistas. Faltava alguem que o convecesse a ser mais agressivo do que era. Mas a maior diferença foi a mental, e aí é uma salada de influencias e confluências.

 

Desde o primeiro Slam veio a final na Austrália onde perdeu para Djoko, pulou fora de Paris (pra mim para se preparar para Wimbledon) e agora o maior título de sua carreira, independente do que faça pelo resto dela. O trem embalou.

 

Com 26 anos de idade, só seis dias o separam de Novak Djokovic, com quem deve fazer a próxima grande rivalidade do tênis, com Nadal, um ano mais velho, correndo por fora nas quadras mais ráidas e no saibro deixando os outros por fora. Federer deve jogar sua ultima cartada no U.S. Open, depois disso ficará cada vez mais difícil, mas não impossível.

 

As características que fazem com que Murray seja um produto não tão agradável mercadologicamente pela falta de sinergia com o público, são as mesmas que fazem com que seja um obstinado com sua carreira e o tênis. O seu intenso foco no trabalho é uma consequência. Como a sua maior conquista afetará a carreira, para o bem e o mal, é algo que começaremos a enxergar já a partir da temporada americana de quadras duras. Ele pode tanto se encher de confiança e auto-estima, algo que sempre lhe faltou um dedinho, e se tornar ainda mais audaz e perigoso, como, mais uma vez se atrapalhar emocionalmente. A minha aposta é pela primeira opção. E a outra consequência é que sai a Roli Isetta e entra, pelo menos, uma van.

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quinta-feira, 4 de julho de 2013 Wimbledon | 12:57

Epopéia

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Este post era para ter aparecido ontem.

Este, e todo Wimbledon, será uma epopeia na carreira de Andy Murray. Com o peso sobre os ombros, da nação que inventou o Tênis como é conhecido atualmente, o escocês, que é complexo e denso emocionalmente, não terá tarefa fácil para chegar ao título que a Grã Bretanha dele espera. Australian Open, U.S. Open e Roland Garros são todos bem vindos, mas o que importa mesmo é Wimbledon.

O peso da expectativa travou o rapaz nos dois primeiros sets contra o surpreendente Fernado Verdasco. Conseguiu encontrar dentro de si a fibra necessária para virar um jogo que nem seu publico mais acreditava. E, na hora da onça beber água, nos submundos do quinto set, jogou para ganhar melhor do que o oponente, que jogou sem pressão. A próxima rodada, na semifinal, enfrenta o fantasmaço polonês Jerzi Janowicz, talvez o mais perigoso sacador do circuito, agressivo, bom voleador, carismático e que, dependendo desta semana, pode estourar no circuito. Murray é, junto com Djoko, o melhor devolvedor do circuito e extremamente eficiente no contra ataque. O confronto de estilos é sempre espetacular e emocionante.

A surpresa maior é por conta de ver Juan Del Potro na semifinal – contra Djokovic. O argentino passou tranquilamente pelo operário Ferrer, o que não chega a ser uma surpresa, na grama. Espero que a contusão no joelho não se agrave depois de esfriar. Contra o sérvio vai precisar de tudo e mais um pouco que puder tirar da cartola. Não custa lembrar que o argentino bateu o sérvio aí nessa quadra na decisão do 3o lugar das Olimpiadas em 2012. Mas, ainda acho que Djoko é o favorito.

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quarta-feira, 15 de maio de 2013 Masters 1000, Tênis Masculino | 13:52

Assim não..

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Naves em chamas nas fronteiras de Orion, raios-c brilhando nos portais de Tannhause, são poucas as coisas que não vi, pelo menos em quadra. Mas o que o bibi Andy Murray fez hoje algo eu não tinha visto.

Já vi tenista abandonar partida por tudo quanto é razão e de tudo quanto é jeito – mas o escocês tinha que inovar!

Ele perdeu o primeiro set, para o espanhol Granollers, por 6/3. Um passeio para o espanhol. Havia muito vento em quadra, algo que irrita os tenistas – uns mais do que os outros. Imagino que Murray, conforme o dia e hora, encaixe entre os outros.

No começo do 2º set, Murray teve o serviço quebrado e chamou o fisio, indicando problemas na região lombar – um negócio que irrita e restringe barbaridades. Vai começar a catimba, pensei.

Logo o espanhol abria 4/1, 30×15, após vencer 10 pontos seguidos. Um passeio para o espanhol, enquanto o escocês continuava com aquela cara de paisagem como quem está mais pensando num belo prato do Alfredo’s do que em correr atrás das bolinhas. E aí?

Bem, daí o espanhol, com uma daquelas ideias que só espanhol tem, resolver tirar uma com a carinha linda do filhote de Dona Judy. Péssima ideia. O espanhol deu uma tremenda zigzira de revés que a bola quicou a 30 cm da rede e ainda pegou efeito lateral. O escocês saiu como uma besta do fundo, como a pensar “assim também não”. Ele chegou na bola, mas errou o golpe, mas deve ter fervido por dentro. Acredito que menos o vento batendo no seu rosto por conta da corrida e mais o orgulho ferido mexeram com seu intimo.

Pois é, de ponto e ponto o orgulho da Rainha Elizabeth começou a voltar ao jogo. Igualou em 4×4. Aí como ele é ele, permitiu o outro fazer 5×4 e saque. Já nem pensávamos mais em abandono. Foi lá e quebrou de volta. De repente tínhamos um tie-break.

E a briga foi feia no TB. Até porque a essa hora o espanhol já devia estar amaldiçoando o sutil sarrinho pra cima do mau humorado adversário. De repente, Murray faz uma e outra mágica e mais uns dois erros crassos do espanhol que já apresentava sinais de estresse emocional, e Murray vence o TB.

Com a vitória do 2º set e o cenário pronto para mais uma daquelas reviravoltas inesperadas, Murray então dá o toque mórbido à coisa toda. Avisa que não jogará a negra. Deu pra ele. Aquele 2º set foi só para o folgado do Granoller aprender quem é quem naquela quadra.

Ele só avisa, após o jogo, que as dores nas costas estão lhe atrapalhando desde 2011 e alguns dias são piores do que outros. Deixou no suspense se jogará ou não em Paris, o que é uma decisão bem mais abrangente do que a sua participação. Se ele avisar antes de fazerem a chave, Federer passa para cabeça #2 e não fica na chave de Djoko. Sabe quanto eu acho que o Murray está preocupado com isso??

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segunda-feira, 15 de abril de 2013 Masters 1000, Tênis Masculino | 09:06

Sócio do MCCC

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Diz a lenda que o vencedor do Aberto de Monte Carlo recebe, à parte do prêmio em Euros, um título do charmoso Monte Carlo Country Club, um dos mais fechados e desejados da Europa. Como Rafa Nadal já venceu oito títulos consecutivos, fico imaginando se ele pode distribuir seus direitos para outros membros da família, e também amigos, porque não sei se a família é tão grande.

O fato é que o espanhol segue vivendo na Ilha de Majorca e, presumo, só põe os pés no Mônaco durante o torneio – assim os títulos do MCCC não lhe trazem grande benefício. Ao contrário, por exemplo, de Novak Djokovic, que adotou residência no principado, porque a vista é legal, e treina bastante no clube, sempre como convidado, afinal é o #1 do planeta, mas sem as regalias, ou o prestigio, de um sócio, já que nunca conquistou o torneio, nem o direito ao título do clube. Isso é uma das dificuldades de ser contemporâneo do Animal.

Apesar de Nadal ser “só” cabeça-de-chave #3 do torneio e estar passando por um momento delicado na carreira, por conta de seu joelho, as bolsas de apostas devem estar bombando o nome do espanhol como favorito. Ele é o homem a ser batido. Resta saber por quem. Federer jogou a toalha e nem apareceu. Está escolhendo a dedo seus eventos e o quintal do Nadal não faz parte da lista. Djokovic, o eterno milongueiro, faz um doce danado para confirmar, ou não, sua presença e já estamos no segundo dia do torneio, por conta da torção que sofreu no primeiro set, na ultima partida da Copa Davis, quando venceu em três sets. Pelo menos já tem uma boa desculpa preparada em caso de ficar, mais uma vez, sem o título do MCCC.

Murray anda dizendo que nunca chegou tão bem preparado para o saibro como desta vez. Não sei dizer por que, já que até outro dia só estava jogando sobre quadras duras, mas será interessante ver se o escocês vai “tentar” se dar melhor nesse piso nesta temporada.

Nadal tem oito títulos consecutivos e só perdeu na sua primeira participação no evento, em 2003, na 3ª rodada, para o argentino Coria, que foi ouvido dizer em uma bar de Buenos Aires que do Nadal, em Monte Carlo, nunca perdeu.

As quadras principais do MCCC, que no torneio viram uma.

Vestiário do MCCC, banho à porta fechada.

Enquanto isso Federer treina na terra em algum lugar desconhecido. Pelas rochas, na Suíça, e em local sem o glamour de Monte Carlo. Como se ve, não é preciso muito para um bom treino, apsar que o local transmite altas vibrações.


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segunda-feira, 1 de abril de 2013 Porque o Tênis., Tênis Masculino | 12:30

Espelho meu

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Desde jovem tenho essa coisa de torcer pelo mais fraco, algo que faz parte da natureza humana, pelo menos parte dela. Puxei dos meus pais, apesar de cada um ter contribuído de maneira distinta e opostas para a característica. É o meu lado sofasista.

Não por outra razão, abracei a causa operária na final de ontem em Miami. Afinal não existe fã do tênis, por mais duro que tenha o coração, que não reserve um cantinho para esse espanhol que nunca ganhou um GS e venceu só um Master Series (Paris 2012), e caracteriza tão bem o homem que enfrenta todas as dificuldades por um lugar ao sol.

Já tive o meu momento Romy Isetta, quando era o único por aqui que afirmava que Andy Murray ainda seria um dos melhores tenistas do mundo, enquanto hangares de sofasistas destilavam seus conhecimentos do Tênis afirmando que o rapaz jamais seria um tenista top – hoje fazem parte da síndrome de São Pedro não precisando de nenhum galo para renegar a crença – aliás, sequer mencionam o fato. O fato concreto é que o escocês é novamente o #2 do mundo, desta vez com um título de GS na bagagem.

Assim como muitos outros no passado, David Ferrer vai perder algumas noites de sono assistindo o vídeo tape mental do match point que teve contra Murray, quando decidiu, em fração de momento, que poderia ganhar um Master Series no “Olho de Gavião” – o popular desafio. Marditahora, resmunga o espanhol a cada menção do fato.

O que prova que o tal Desafio veio para ficar, já que agrega muito em termos de dramaticidade e justiça em uma partida de tênis. Dramas sempre tivemos, justiça até que faltou em inúmeras ocasiões. Imaginem o Gustavo Kuerten desafiando a torto e a direito na mesma quadra central de Miami, enquanto os americanos lhe surrupiaram várias bolas na dramática final contra Pete Sampras, quando três dos quatro sets foram decididos em TB e várias bolas foram cantadas “erradas”, sempre a favor do da casa. Por outro lado, imagino o sono dos justos do juizão de linha que NÃO cantou a bola fora, já que ela raspou a linha. O que prova também que os tenistas em ação não deveriam ter a ultima palavra sobre as mudanças nas regras do tênis, já que são contra todas elas. Lembram-se do Federer dizendo que o Desafio era um absurdo e que se recusaria a usar? Hoje usa, e erra, tanto quanto os outros.

Apesar de estar ganhando cada vez mais, não está ficando mais fácil torcer pelo Murray. Carisma zero. Fora a postura em quadra, algo que melhorou bastante, mas longe de ser a de alguém por quem se quer torcer. O cara é complicado. Ontem se arrastava em quadra e dava a impressão que iria morrer no próximo ponto, só para correr como sempre, uma característica sobre a qual Haas falou alto e grosso.

Aliás, neste Domingo, o jornal The Times tem uma matéria longa sobre o escocês, onde ele conta, entre outras confidências, sobre um momento privado na final do US Open que bateu El Djoko. Entre o 4º e o 5º set, Murray abandonou a quadra por nenhuma outra razão além de querer ter um momento particular longe dos olhos do mundo e se recompor emocionalmente. Ali, em um cubículo a poucos passos da quadra, o rapaz confessa ter tido uma séria conversa com um ser de cabelos e idéias emaranhadas que via no espelho. “Espelho, espelho meu, tem alguém mais maluco do que eu”, teria pensado, mas não confessa. O que diz ter pensado é porque chegava ali (era sua quarta final de GS e até então só vencera um set) e não ganhava o maldito título de Grand Slam? Chegara a liderar a partida por 2×0, só para deixar as minhocas invadirem sua cabeça e ver o Djoko crescer para cima dele.

“Eu andava pelo mundo com a cabeça enfiada nos ombros e olhando o chão e pensando que eu só seria um campeão se vencesse um GS”. Diz ter ficado tão negativo que tinha certeza que se voltasse à quadra da mesma maneira era derrota na certa. A solução que encontrou foi começar um dialogo com o espelho, em voz alta, algo que confessa saber que é o primeiro passo rumo ao hospício. Tudo por uma boa causa. Aos berros, começou a perguntar o que lhe faltava, como podia ter perdido uma vantagem de dois sets.

Decidiu que desta vez seria diferente. “Você não vai perder este jogo!” repetia. Este se tornou o mantra que deve ter levado os seguranças a se entreolharem do lado de fora. “Não vai deixar escapar!” “De tudo o que tem!” E assim, com este jactância de motivação o escocês confessa que de fato se sentiu melhor e mais confiante e voltou à quadra para fazer história.

Ontem não precisou do espelho. O espanhol deu o tiro no próprio pé. Após o tal desafio, no match point, Ferrer perdeu 10 dos 11 pontos jogados. Mas que não passe sem menção; no match point contra, Murray foi agressivo em cada bola que bateu, e foram várias, inclusive, a penúltima, quando teve a perspicácia de mudar a altura e o ritmo, “cavando” a bola curta que lhe possibilitou o ataque que limpou a linha e iludiu o operário.

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segunda-feira, 28 de janeiro de 2013 Tênis Masculino | 00:45

Uma pena

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Uma pena. Os que são meus leitores há algum tempo sabem o quando gosto de encontrar aquele um momento definidor de uma partida. Aquele instante onde o destino é traçado e os deuses, com seu fino e, por vezes perverso, senso de humor gostam de deixar sutis pistas para nos entreter ou confundir.

Alguns são reticentes com essa intuição, não iria tão longe de chamar de premonição, palavra que Hollywood popularizou, mas como dizem por aí: não creio em bruxas, mas que existem, existem. Na verdade estou divagando, porque o negócio tem pouco de esotérico e bem mais de fato e realidade; mas dá para viajar no assunto. Ou vocês nunca pararam para olhar suas vidas e encontrarem aquele momento que os definiu de uma maneira ou outra?

Talvez por conta da final do ano passado a final de hoje ficou devendo, pelo menos um pouquinho. Durante dois sets prometeu e muito. Aliás, a partida teve dois capítulos distintos. Os dois primeiros sets, ambos decididos no tie-break, o terceiro foi ainda um bom preâmbulo e os dois últimos sets um capítulo à parte.

Nos dois primeiros ficou claro o quanto esses dois têm um tênis semelhante e arsenais equilibrados, quando Mr. Murray sentiu o gosto da vantagem. O preâmbulo serviu para mostrar que, pelo menos hoje, Djoko é mais tenista do que ele, e todos os outros, – lembrando que perdeu a ultima final de GS entre ambos – e os dois últimos sets deixou claro que o Djoko quando confiante é difícil de bater e o Murray quando abaixo se abaixa mais.

O mais interessante, olhando historicamente, é quanto foi duro de aparecer uma quebra de serviço na partida. Como não são sacadores, credito um pouco à quadra mais rápida este ano, ao fato de chegarem à final extremamente focados e confiantes. Mais de duas horas e 34 games para aparecer a primeira quebra. Durante esse tempo, os dois defenderam seus serviços com galhardia. O fato vai incomodar por algum tempo o escocês. Afinal ganhou o primeiro set, teve um 0x40 a seu dispor no início do 2º set; o que deve estar lhe atrapalhando o sono.

Os break points se foram e o set ficou, novamente, para ser decidido no tie-break. Bota igualdade nisso.

Então veio a pena. Que peninha. Mas que pena. Deu pena. Foi uma pena.

Uma pena branca, será que de algum pássaro atacado por gaviões mercenários, flutuou na Rod Laver Arena, dançou sem a menor cerimônia até a frente dos olhos do escocês – considerem as chances de tal – exatamente quando ele se preparava para jogar a bolinha para sacar no 2×2 do TB no 2º set. Lembrou-me a dança do papel de Beleza Americana. Por um instante o rapaz hesitou. “Deixo cair ou tiro esse prenuncio de minha frente”. Logo ele, o mais encanado dos tenistas. Não teve duvidas, esqueceu o saque, o momento, as ausências de quebras e focou na pena. Que pena. Pegou a pena. Nem sei o que fez com a pena. Mas pagou a pena. Quando sua atenção voltou ao jogo seu destino estava traçado. Cometeu uma dupla falta, se irritou, amaldiçoou a pena e, como se sentisse obrigado a tal, perdeu o foco. Uma pena. Nunca mais o encontrou, pelo menos não na intensidade dos dois primeiros sets, quando esteve muito mais perto da vitória; na sua, na do adversário e na minha cabeça. A partir do 3º set todas essas certezas se esvaíram, aos poucos, porém com a mesma fluência, certeza e irreversibilidade da queda da pena em um cenário que Djokovic, com quatro títulos, se sente confortável e protegido pelos deuses, enquanto que Murray segue sem vencer uma final ali em três tentativas. Uma pena.

Murray e a pena.

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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013 Tênis Masculino | 14:34

Adrenalina

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É duro acordar 6h da manhã. Na época que fazia os comentários na TV acordava antes das 5h. No caminho, via aquelas pessoas no ponto do ônibus ou acelerando os passos para o trabalho e me invadia um sentimento estranho na alma assistir aquelas pessoas cumprindo suas tarefas cotidianas. Sabia que eu tinha que durar duas semanas, e ainda estava de carro, enquanto elas o fazem há anos e anos por vir, para chegar ao fim do mês e a coisa toda mal dar para pagar as contas.

Agora eu não tenho que acordar o que é diferente de acordar por opção. Ontem à noite cheguei de viagem, ficamos conversando em família até tarde, sempre um bom programa, mesmo sabendo do horário do jogo. Federer x Murray em GS é jogo imperdível e, como já escrevi antes, aproveitem porque durará pouco. Quando minha mulher começou a se mexer de manhã eu estava no meio de um sonho estranhíssimo, uma redundância, porém algo extremamente tranquilo e prazeroso, o que sempre me faz relutar em voltar a este mundo.

Os primeiros sets foram “assistidos” com um olho na TV e outro no mundo paralelo. Mais neste do que naquele. Os comentários da Patricia me traziam de volta quando necessário e um sexto sentido desenvolvido me acordava para os pontos importantes. Assisti todo o TB do 2º set, crucial, e no 3º já estava alegrinho. No quarto estava comentando mais do que o Meligeni, para alegria da Patricia.

O quarto foi o set. De tudo um pouco. Muito de bom e pouco de ruim. É uma beleza assistir tênis nessa qualidade, com intensidade de drama e comprometimento. Especialmente drama.

É raro ver os cachorões se estranhando em quadra como aconteceu hoje. Geralmente o respeito fala mais alto ou alguém acaba engolindo em seco e pronto. Hoje na hora do showdown alguém piscou e esse alguém, surpreendentemente, foi o Federer.

Como já disse eu pisquei várias vezes, mas duvido que a coisa começou antes do finzinho do 4º set, ápice do drama da partida de hoje. Começou com a juíza de linha de fundo engolindo sua própria chamada. Chamou pela metade, mas chamou. Aliás, pensando bem começou antes. Começou no Murray sacando 5×4 no 4º set, primeiro ponto. O escocês joga a bola para sacar e Federer pede para parar. Argentinada? Sei lá, podia ter algum gaiato lá atrás. Mas começou.

Voltando à juíza que cantou pela metade. O Murray reclama, o juiz de cadeira deve ter dado overuled, não sei porque os narradores continuaram falando, o Murray reclama mais e o Federer se aproxima para acompanhar. O juizão fala para o Murray que se quiser desafie, o que não faz sentido, porque se a juíza de linha cantou quem teria que desafiar era o Federer, a não ser houve mesmo o overule. O escocês desafia e descobre que pegou linha. Pouco antes, enquanto Murray estava ruminando o Federer retruca para o juiz – e se foi boa, vai repetir? Pressão. O juizão diz que foi um late call e não repetirá o ponto. Federer se afasta, sabe que a bomba vai estourar no colo do outro, como de fato estoura. Murray fica bravo, reclama, perde o game e segue reclamando no intervalo, mas não entendemos nada do que diz, pois os narradores continuam falando em cima. No final do intervalo, Federer, surpreendentemente ( e atenção) decide que também tem algo a dizer (provavelmente reclamando do Murray reclamando). Mais uma vez não ouvimos.

Game seguinte, Murray sacando em 5×6. Federer ataca vai à rede e o escocês lhe mete uma passada maravilhosa – a câmera nele. Claramente ele reage, incrédulo e irado, a algo que o suíço lhe grita. A adrenalina está no auge, o drama intenso e os fuck you voam pela Rod Laver Arena.

Federer vence o TB e jogo vai para o quinto. E aí veio o mais estranho que, suspeito, tenha algo a ver com o antes narrado. No intervalo Federer escolheu sair da quadra, o que, ajudou Murray a se recompor – será que o suíço penso nisso? No 1º game, Andy no saque, e ainda viajando, literalmente escapa de ser quebrado e ver o jogo ir para a cal, sabendo que no fundo continua sendo Andy Murray. E aí então a grande surpresa.

Federer vai para o saque e joga um game horrível, após tanta luta no quaro, sendo quebrado e dando a confiança para o outro sacar como um leão e abrir um 3×0 que provou ser irrecuperável. Antes, um detalhe. No 2º game, quando o suíço foi quebrado, um ponto marcante. Federer na rede e dá uma bolinha curta e convidativa. Murray vem na corrida e a bate de cima da linha de saque. Não escolhe ir na paralela ou na cruzada; vai mesmo no corpo no adversário – se pega nocauteia. O assunto ficara feio e pessoal. A partir desse momento Roger Federer murcha não jogou mais nada.

Nas entrevistas, quando perguntados, os dois desconversaram, dizendo que essas coisas acontecem, que o momento era tenso, coisas foram ditas e esquecidas após o jogo. Tenho sérias duvidas se Murray ficaria calado se tivesse perdido. Se por alguns momentos os rapazes perderam a elegância em quadra, fora dela souberam esgrimar os jornalistas e deixar a ênfase na excelência do tênis apresentado. Isso, é óbvio, vai sem dizer, mas, como em uma partida dessas é um ou dois detalhes que fazem a balança pender para um lado, aqui foi a versão oculta do drama hoje.

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domingo, 11 de novembro de 2012 Masters, Tênis Masculino | 20:20

Não é…

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Roger Federer não é Del Potro. Nem o Delpo é o Federer. Hoje, os dois se colocaram exatamente na mesma situação – 1 set acima e break logo no início do 2º set. Enquanto o argentino deixou a partida lhe escapar pelos dedos, Federer, que é um perigo, quando confiante e atento, aproveitou-se de ambas virtudes para acabar com as possíveis idéias de recuperação do hoje escocês Murray. O que também levanta a possibilidade de se dizer que Murray não é um Djokovic, nem o Djoko é o Murray. O escocês encolheu sob pressão, ao contrário do que fez mais cedo o sérvio. O resultado de tudo isso? Os dois melhores jogadores do torneio foram à final, que será disputada às 18h desta 2ª feira. 2ª feira?? É! Por que? Sei lá. Porque é na Inglaterra e lá eles não fazem jogos aos Domingos, às vezes, mas fazem finais no Domingo – porque são ingleses.

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quarta-feira, 17 de outubro de 2012 O leitor escreve, Tênis Masculino | 17:28

Photoshop

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O Comentário do leitor Marcão encaixa perfeitamente como adendo ao Post anterior, além de escrito de forma interessante – leiam abaixo:

Tenho para mim que 2012 ficará marcado como o ano da consolidação de Andy Murray no circuito. Até então, sofasistas e entendidos eram unânimes em nele reconhecer um tenista talentoso, mas ainda instável emocionalmente. A vitória nos Jogos Olímpicos, ganhando em sets diretos de Roger Federer e, sobretudo, o primeiro Grand Slam sobre Djokovic, num jogo em que poucos apostariam em vitória após o sérvio levar o jogo para o quinto set, serviram para apagar o falso estigma de amarelão que alguns secadores de plantão insistiam em lhe atribuir (como se perder três finais de Slam para o maior tenista de todos os tempos fosse sintoma de frouxidão).

No entanto, é preciso adentrar pelo lirismo para melhor compreender o universo particular de Andy Murray. Não se pode perder de vista (e nesse ponto sou obsessivo) que Andy Murray é um sobrevivente. Para alguns isso pode parecer um singelo detalhe. Enganam-se. Um sobrevivente enxerga a vida com os olhos da efemeridade, da nostalgia, da transitoriedade. Para o sobrevivente cada novo dia é uma bênção, uma glória, uma dádiva. Que importa o resultado de uma partida de tênis? Para qualquer um, ganhar uma medalha de ouro olímpica seria motivo de inaudita euforia. Mas não para Andy Murray. Venceu e foi tuitar. Qualquer um que vencesse o primeiro Slam após quatro tentativas frustradas daria cambalhotas na quadra, cobriria de bitocas adversário, juiz de cadeira e o escambau, mas não Andy Murray. Venceu e as primeiras palavras que lhe vieram foram sobre o sumiço do relógio. Para Andy Murray, o resultado de um jogo de tênis, melhor se grotesco, pior se sublime, é encarado com a mesma naturalidade com que Edward Hopper imortalizava o cotidiano.

Amigos, quando houve o massacre, Andy Murray tinha apenas oito anos de idade, e traz esta idade até os dias de hoje. Tudo o que há de adulto em Andy Murray é photoshop. A definitiva verdade é que um menino de oito anos ficou congelado em suas entranhas desde aquele fatídico 13 de março de 1996.

Por isso, acredito que mesmo com a idade cronológica de vinte e cinco anos, Andy Murray ainda é um tenista em formação. Isso mesmo, Andy Murray ainda está moldando seu tênis. Sinto que há nele tanto a se explorar nos aspectos técnico, tático e mental que uma séria dúvida me sobrevem quanto ao resultado final desta transformação. Pode ser que o recente auxílio com psicólogo, o trabalho com Lendl, as recentes consagrações, acabem por desaguar num exemplar único de tenista, que seja o amálgama das qualidades positivas dos seus atuais adversários, mas pode ser também que se impinjam em Andy Murray a neura da competividade, a ambição desenfreada pela vitória, que findariam por lhe retirar o que ele tem de mais peculiar, a naturalidade com que encara o jogo, pueril brincadeira à semelhança da vida.

O que sinceramente espero é que a consolidação de Andy Murray se dê suavemente, sem que se lhe subtraiam os contornos e a essência do humano, que ele resista à tentação de tornar-se um autômato, que continue xingando e quebrando raquetes, que continue empinando pipas, que permaneça transformando as quadras de tênis em palco de experimentação. Se isso acontecer, não tenho dúvidas que teremos o privilégio de testemunhar algo de grandioso em 2013.

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Juvenis, Tênis Masculino | 00:30

O outro lado da moeda

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Toda moeda tem suas duas faces. Outro dia escrevi como Tio Nadal declarou em São Paulo que não tem o menor interesse, e crença, no trabalho de um psicólogo esportivo, pensamento até compreensível pelo pupilo que tem – parece que o cara veio ao mundo com o pacote emocional completo.

Na semana passada, Andy Murray, o tenista mais bipolar do circuito, declarou que desde o início do ano vem trabalhando com um psicólogo.

Murray já havia tentado trabalhar com um psicólogo no passado, mas o relacionamento não funcionou. Posso imaginar. Um cara complicado como o escocês deve ter ido para as seções e travado geral. Como desse jeito não funciona, desistiu.

Em janeiro, Ivan Lendl, técnico, de Murray, despejou a pergunta para cima do pupilo. “Você está aberto para tentar conversar com um psicólogo?”. Murray concordou. “É sempre bom tentar coisas novas e ver como funcionam”. “Na vez anterior, boa parte da conversa era sobre tênis – não funcionou”. “Desta vez conversamos bastante sobre minha vida longe das quadras. Há muito mais coisas acontecendo na minha vida além do tênis”.

Na época de juvenil, na Tchecoslováquia, Lendl via com frequência um psicólogo esportivo. Uma imposição da federação, que lhe pagava todas as despesas. Lembro que em uma conversa com ele, lá pelos seus 19 anos, ele explicava que cada tantas semanas ele tinha que abandonar o circuito, voltar para casa e passar por uma reciclagem com o psicólogo. Mesmo depois de sair de sob as asas da federação Lendl continuou trabalhando com psicólogos. Ou seja, foi educado nessa cultura, acredita nela, descobriu logo o pupilo que tem e sabia que algo nessa linha era necessário. Felizmente o pupilo respeita a história do coach, o que viu facilitou a decisão e lhe fez olhar o trabalho com olhos distintos, e bem mais amigáveis, do que da primeira vez.

Hoje é visível a mudança de postura do tenista em quadra. Pode não ser a melhor delas – afinal não é algo que mude da noite para o dia. Mas se as coisas continuarem a progredir como se antecipa é um caminho em uma direção que só trará benefícios ao talentoso, porém um tanto quanto tenebroso tenista, que, quiçá, aos poucos terá tudo para se tornar o #1 do mundo.

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