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terça-feira, 20 de dezembro de 2011 Light, Minhas aventuras, Tênis Brasileiro, Tênis Masculino | 00:54

Karma tenístico

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Outro dia, aproveitando uma dessas tardes maravilhosas que vem se repetindo, nestes tempos em que o verão ameaça, ainda sem sucesso, se instalar, me alojei em uma cadeira, à mesa, debaixo da jaqueira que orna e sombreia a seção de tênis do melhor clube do país – E.C. Pinheiros.

Estava a ter uma conversa um pouco mais séria do que o cenário exigia quando fui interrompido por um amigo, ansioso por me contar uma história. História que é a alma deste Post, história que o meu leitor que não seja um sofasista de almofada cheia conhece várias e que, com a mais absoluta certeza, viveu e sentiu na pele. De um jeito e do outro.

Estava o amigo a enfrentar um de seus maiores rivais – e atentem, são tenistas de categoria, 2ª classes, na pior das hipóteses, dos mais encardidos. O adversário abriu, no set decisivo, um 5×1 que, para quase todos os efeitos, davam as favas como contadas. Como todos, incluindo os amigos do sofá, sabem, o jogo só acaba quando termina. Mas 5×1 é 5×1, pelo amor dos meus filhinhos, como diria o endiabrado Silvio.

A essa altura, o amigo – deixarei os nomes de fora, até porque, como já disse, a história é universal – começou a desviar o assunto pelas mudanças táticas que executou, lembrando; nada acontece de graça. Mas as suas táticas não são o ponto da história, por conta disso privarei os leitores de uma aulinha tática. Só vale lembrar que a não mudança de uma tática claramente perdedora só é uma alternativa para os mais teimosos, burros, ou se preferirem sem imaginação; ou se seu nome for Roger Federer, que não cai em nenhuma das alternativas anteriores, seria o que me faltava, mas tem uma só sua.

Pois é. O amigo foi lá, mudou o jogo e começou a cacifar. Esqueci de dizer; era 5×1 40×0, o que não é mole não. E, no game seguinte, 2×5, 15×40. Pois é. O amigo escapou de ambas sinucas. E aos poucos, que nem a galinha enche o papo, foi vencendos os pontos, adquirindo a água benta dos tenistas, a santa confiança, e virou o jogo. Sim, 7×5.

O amigo babava enquanto nos contava seu feito nos mínimos detalhes. Dava para ver o prazer saltando de seus olhos, sorvido como saliva pré churrasco em reunião de peão. Como é linda a vitória, especialmente uma tão arduamente conquistada, uma tão improvável.

O amigo se despediu, sem muita vontade, é fato, já que a conversa lhe era prazerosa nas últimas, com um sorriso nos lábios evidenciando que o karma tenistico o acompanharia por mais alguns dias, pelo menos até que um novo infortúnio o atropelasse em quadra, como sempre, mesmo para os Djokovics, acontece.

E não é que não deu 5 minutos, nem dando tempo para eu embalar a conversa interrompida, chega o amigo protagonista, ou seria coadjuvante, da história acima.

O rapaz chegou com aquela cara de quem não sabe ao certo se cumprimenta e passa reto ou se arrisca uma estadia mais prolongada. Pois é, Kurosawa já nos mostrava que os dois lados de uma história quase sempre nos apresenta uma terceira tão ou mais interessante.

Sem nenhuma intenção masoquista, não pude deixar de mencionar o fatídico. E aí, como foi? Ele me contou o seu lado da história, onde ele era muito mais o vilão do que o amigo mútuo o herói. Não importa, até porque não é essa a questão também. Naquele dia, com o céu azul, o conforto do calor aliado às delicias da sombra de uma frondosa árvore, complementados pelo prazer de uma bebida refrescante, a minha mente tinha uma única curiosidade, que não vi porque não a satisfazer.

De sopetão, sem o menor perdão ou cerimônia, perguntei. Quando você pirou?

Sem pestanejar, até porque não se trata de safasista ou mesmo panga, ele voleou de volta – “no 5×3!!”. Alí já comecei pensar muita merda.

Pensei com meus botões – “um pouco cedo, talvez”. Mas lembrei de 40×0, do 15×40 e aquiesci com a cabeça sabendo que nesses affairs melhor se passa sem o julgamento alheio. São cruéis esses percalços mentais. Como lidar com eles? Como os cachorrões conseguem escapar delas – se é que escapam?

Já no fim de sua história, o segundo amigo menciona que um terceiro – adversário de ambos – estava sentado na cadeira do juiz, por conta de uma daquelas recorrentes e danosas contusões, nada mais podendo fazer em uma quadra. Os três saíram da quadra ao mesmo tempo e caminharam para aquela mesma jaqueira que eu então aproveitava. Chegando à mesa, já pedindo e pensando nos prazeres de uma Norteña gelada, o terceiro vira para o segundo e diz: “agora que você nunca mais meta o pau no Bellucci quando ele fizer das dele”. Quanta verdade dita em frase tão curta. E não somente por conta do nosso melhor tenista.

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