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quarta-feira, 25 de novembro de 2015 Copa Davis, História, Tênis Masculino | 10:21

Suando em Ghent

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É óbvio que os horríveis recentes acontecimentos em Paris, e suas repercussões na Bélgica, estarão nas mentes de todos os envolvidos na final da Copa Davis entre a Gra Bretanha e a Bélgica neste final de semana. Os belgas por serem os anfitriões, sabendo que as células que atacaram Paris tinham fortes conexões no país e os britânicos por estarem envolvidos na guerra com o País Islâmico.

Nos bastidores as negociações foram intensas e chegou a ser cogitado no mínimo a mudança de local. Após muita conversa e garantias dos belgas, que montarão um mega esquema de segurança o evento segue. Por alguma sorte ele nao acontece em Bruxelas e sim na charmosa e pequena cidade de Ghent.

Murray foi perguntado e nao se omitiu de responder às questões a respeito. Confessa que é algo que esteve na mente de todo o time nos últimos dias e se realmente final deveria acontecer como programado. Mas acredita que as garantias foram dadas e os britânicos encarregados do assunto, provavelmente incluso as forças de segurança do país, deram o aval e o plano seguiu. Murray, assim como outros membros chegaram a Ghent em vôo particular e tem se restringindo ao hotel e ao local do confronto.

Sao esperados 1000 torcedores britânicos para a final da Davis. E para eles Murray também tinha uma mensagem. Cumpram todas as orientações de segurança oferecidas pelos organizadores e policiais. Acrescentou que ele entenderia se alguns deles decidissem ficar em casa e acompanhar pela TV.

O evento – a Copa Davis – já é tenso per si. Por ser uma final inédita de Copa Davis, fica ainda mais tenso. Sao dois país que caíram ali, pode-se dizer correndo o risco de alguma injustiça, de para quedas. Dificilmente, nas próximas décadas, terão chance igual de vitória. Todos se sentem pressionados pela possibilidade. Os affairs extra quadra colocarao uma pitada extra na mente de todos e irá aumentar a pressão de cada tenista nas partidas.

Só de curiosidade; nos meus tempos de Copa Davis tivemos que enfrentar algumas situações de alguma maneira semelhante. Na Argentina nos anos setenta, chegamos a ser parados na rua por uma blitz do exército, quando nos trataram, pode-se dizer, nada elegantemente. Encanaram com a vasta cabeleira de Carlos Kirmayr e chegamos a ter nosso quarto do hotel invadido pela polícia a procura só eles sabem do que. Em Lima tivemos uma partida interrompida por um estrondo enorme em um prédio próximo que deixou o estádio lotado totalmente mudo – as pessoas nao se mexiam nem falavam, parecia uma missa. Durante toda nossa estadia estivemos acompanhados por soldados armados de metralhadoras – inclusive nas portas dos quartos durante a noite. Só nos locomovíamos em três carros com homens armados e nós no carro do meio – uma kombi. Isso sem mencionar agressões físicas e ameaças de morte que recebemos em outros locais. Bem, eu ainda estou aqui para contar e no final do domingo espero que tudo esteja na santa paz em Ghent e possamos curtir mais uma final desse espetacular competiçao.

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terça-feira, 24 de novembro de 2015 Aberto da Austrália, História, Masters, Novak Djokovic, Rafael Nadal, Roger Federer, Roland Garros, Tênis Masculino | 10:29

O melhor

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Nao teve choro nem vela em Londres. Novak Djokovic engoliu seus adversários como se fosse a baleia branca e nao ofereceu chances a ninguém. Alias, ainda se deu ao luxo de colocar um gostinho na boca de muita gente, ao perder, em dois sets, para Roger Federer na fase de qualificaçao. A conversa naquele dia foi se Roger havia jogado muito ou Novak jogado nada. O fato é que na hora da onça beber água o servio mostrou que atualmente ele é o cara sem muitas discussoes.

Djokovic tornou-se o primeiro tenista na história a vencer o Masters quatro vezes seguidas, um feito a se aplaudir em Londres ou qualquer outro lugar. O rapaz se concretizou como o melhor jogador do mundo e ficou a um passo de conquistar o seu Grand Slam particular ao vencer o Aberto da Austrália, Wimbledon e US Open, deixando escapar Roland Garros na ultima partida do torneio, quando era o favorito. A rapaziada deve estar aliviada que o suíço tenha conseguido a surpresa, porque nem Federer nem Rafa nem outro por aí vao conquistar os quatro maiores eventos na mesma temporada nos próximos anos. A nao ser que Novak o faça.

Outro feito importante para Novak é que nessa semana ele igualou o seu H2H com ambos rivais. Com Federer 22×22 e com Rafa 23×23. No futuro as chances sao que ele terá um H2H positivo com ambos, que sao considerados os “maiores”. E aí, como ficará essa história? Nadal nunca teve a pretensão, só mantinha seu H2H positivo contra o suíço GOAT e ficava na longe dessa conversa. Federer, mesmo sutilmente e silenciosamente, sempre encorajou. Agora vem o servio também para pousar na sua sopa. Por outro lado, aos 34 anos é um assombro tenistico e nao existe jogador que chegue aos seus pés junto ao coração dos torcedores em todo o planeta.

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terça-feira, 17 de novembro de 2015 Masters, Rafael Nadal, Tênis Masculino | 11:28

Acordando sofrendo

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Duas coisas dá para se ter certeza.

Wawrinka é um tenista com talentos e habilidades, dono de um tênis clássico, vistoso e muito eficiente. Mas é um tenista instável, já foi beeem mais, a ponto de ser donos de dois títulos em Grand Slam. Mas a perseverança e garra nao sao seus parceiros incondicionais.

A segunda coisa é que Rafael Nadal nao é aquela brastemp técnica, apesar de ter um dos melhores golpes do tênis – seu forehand. Mas tem o maior poderio mental e emocional que já vi em uma quadra de tênis e olhem que vejo quadras de tênis há décadas. Às vezes penso o que seria acordar de manha e a primeira coisa que entraria em minha mente seria o fato que naquele dia eu teria que enfrentar o Animal em uma quadra de tênis – terrível. Acho que foi assim que Wawrinka acordou ontem antes da tunda que levou. Pelo menos pareceu.

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segunda-feira, 16 de novembro de 2015 Copa Davis, História, Masters, Tênis Masculino | 12:39

Fogo Cruzado

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Nao se pode dizer que Andy Murray seja um estranho a fogo cruzado, uma das situaçoes mais desagradáveis de se viver. É só lembrar que sua vida foi e será marcada pela tragédia na sua escola em Dunblane, Escócia, quando 16 crianças foram assassinadas e ele estava a poucos passos de onde tudo ocorreu.

Desta vez a situaçao é bem mais amena, mas nao deixa de ser bicuda, considerando a carreira e o momento desta para o britanico. Ele está a um palmo de terminar a temporada como #2 do ranking. Basta o Federer nao elvar o título e ele ganhar dois jogos em Londres.

Parece mais simples do que é. Sem nenhum título nos Grand Slams, que é onde realmente importa para os cachorroes, ele está a tres vitórias na Belgica para conquistar a Copa Davis desta temporada. Algo bem factível, considerado a “força” do time belga.

Para ficar claro as prioridades, Andy, após Paris, voltou a Londres para treinar nas quadras de saibro do Queens Club. E assim foi até este fim de semana.

Hoje ele estréia contra Ferrer, um casca de ferida que viave dos vacilos alheios.

Para piorar sua sinuca de bico, ele pode garantir o #2 do ranking em frente a seu publico, algo sempre mais contundente. Mas é bom lembrar que ele nunca foi além das semis no Masters londrino.

Como a cabeça do rapaz já é complicada sem fogo cruzado, fica difícil prever o que ele fará e como será seu empenho e performance em Londres.

vale dizer que ser #2 é importante e deve valer muita grana em seus contratos – o ranking que vale para os contratos é sempre o do fim da temporada – mas nao terá o mesmo peso de um titulo de Copa Davis, algo que a Gra Bretanha nao conquista desde 1936. Ou seja, ele definitivamente colocará seu nome em ouro sendo o primeiro britanico a ganhar Wimbledon e Copa Davis desde Fred Perry quase 70 anos atrás.

Convenhamos que quanto ele melhor for em Londres pior será sua preparacao para a Belgica – tanto pelo desgaste como, mais importante, pela falta de treino no saibro, que nunca foi seu piso preferido.

Como ele irá equacionar tudo isso em sua mente determinará a qualidade de sua participacao em Londres e, bem mais importante, pelo menos pra ele e os britanicos, afetará a chance, que, pelo andar da carruagem, pode demorar outros 70 anos para surgir para a Gran Bretanha de ganhar a Copa Davis, algo que eles ganharam nove vezes até 1936.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2015 História, Masters, Tênis Masculino | 15:01

O Masters homenageia a história

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Reverenciando o passado, algo que sempre diz boas coisas sobre qualquer cultura, a ATP decidiu nomear os grupos do ATP World Tour Finals com nomes de tenistas que marcaram a história do evento. Assim, ao invés de Grupo A, no evento de simples, teremos Grupo Stan Smith, vencedor do primeiro Masters, realizado em Tókio em 1970 – desde entao havia uma tentativa de agitar o tenis masculino japonês, algo que só se tornou realidade com a chegada de Kei Nishikori, que estará presente. Na época o torneio teve somente seis jogadores, no sistema round-robin de um contra todos.

O Grupo B será o Grupo Ilie Nastase, homenageando um atleta carismático, manhoso, bad boy e com um talento da estirpe de Roger Federer. O romeno Nastase venceu o evento em 1971, 72, 73 e 75, em uma época de nomes como Stan Smith, Arthur Ashe, Jimmy Connors, Rascoe Tanner, Vitas Gerulatis e, nos primeiros anos, ainda pegando o fim das carreiras de Laver, Rosewall e Newcombe – atentem, quase todos americanos e australianos crescidos em quadras super rápidas, piso que imperava na época junto com o estilo saque/rede.

Seguindo a recente formato das duplas serem jogadas no mesmo local e data das simples, os grupos também receberam nomes de grandes duplistas. O Grupo A será Ashe/Smith, vencedores do primeiro evento – percebam que Stan Smith fez barba e cabelo em Tokio. O Grupo B recebe uma homenagem ainda mais marcante. McEnroe/Fleming, uma dupla que, nos seus respectivos auges, pegaria os Bryans e faria-os dançar o twist de trás pra frente. Eles venceram o Masters SETE anos consecutivos – lembrando que ao mesmo tempo McEnroe venceu as simples do Masters três vezes e enquanto teve 71 títulos de duplas, brigava pelo topo do ranking em simples, onde teve 77 títulos. Uma pena que eu nao era amigo do cara na época, pois teria uma chance de faturar um título também! A melhor dupla do mundo entao era ele e mais um.

O Barclay ATP World Tour Finals, que começou como “Masters”, e teve teve diferentes nome nos últimos 45 anos, começa no Domingo. É jogado no maravilhoso “O2 Arena” em Londres e deve ser transmitido no Brasil pela SporTV.

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terça-feira, 22 de setembro de 2015 Copa Davis, Tênis Brasileiro | 16:03

Dançando nas estrelas

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Infelizmente, escrever sobre confrontos de Copa Davis do Brasil deixou de ser um prazer faz algum tempinho, com raras exceçoes. Felizmente, minha paixão pelo evento é maior do que essas contingências.

Perdemos da Croácia em casa. O consenso original era que existiam diminutas, porém existentes, chances de vitória. Com a desistência de Marin Celic, o principal tenista adversário, as probabilidades se inverteram. Mas o jogo é na quadra.

Fala-se muito sobre a escolha de Florianópolis para sede do confronto. Nao sei os meandros da escolha. Mas temos dois pontos distintos a se considerar:
1- Nosso principal tenista nao tem características físicas, mentais e emocionais para gostar de jogos debaixo de solzao, calor, cinco sets, umidade e altura do mar – seu jogo nao rende como na altitude e clima mais ameno.
2- Nao se deve esquecer que quando foi feita a escolha do local o maior adversário era Marin Cilic (vindo de temporada em quadra dura) – um grande sacador, que joga reto e que nao ficaria tao à vontade no saibro e na altura do mar.

Foi-se o tempo onde nossos tenistas chamavam para dançar tenistas de qualquer estirpe, força e qualidade para confrontos de machos, de horas e horas, debaixo de condições terríveis como sao as de um país tropical e com tradiçao no saibro. Geralmente saiamos vencedores. E se perdíamos as derrotas eram vendidas bem caras e para times claramente superiores.

Começamos bem. Achei que o técnico croata mostrou respeito, e temor, ao nao colocar o Dodig em quadra contra o Bellucci. O croata, que é infinitamente superior àquele brincalhão que enfrentou Bellucci no 1o dia, havia perdido nos dois confrontos anteriores. Com isso tiveram mesmo é que apostar nas duplas. E com isso tiveram que acreditar que Dodig e o fantasmaço Skugor bateriam a dupla Melo/Soares, o garoto Coric venceria Bellucci e possivelmente o Dodig ganharia do Feijao. A estratégia funcionou. Mas funcionou porque o time brasileiro deu milho ao bode.

A derrota do Brasil começou a se desenhar nas duplas. Os brasileiros nao foram nem sombras do que estamos acostumados a vê-los jogar na Davis. Pareciam sem confiança no próprio taco. Bruno nao vem jogando no seu melhor padrão toda a temporada. Porém, Melo está, provavelmente, no seu melhor ano. O ponto era crucial? Era! Mas dupla é um jogo extremamente volátil, onde detalhes mudam o resultado. E no sábado, além de Dodig ter sido o melhor em quadra, o fantasmao Skugor nao se acuou diante de uma dupla de muito mais experiência. Acima de tudo, faltou algo à nossa dupla.

O que posso escrever que ainda nao foi escrito, desta e das outras vezes, sobre a derrota de Thomaz Bellucci? Dentro do time, a versão oficial é que ele sentiu dores nas costas, a razão para sua desistência. Na verdade, o capitao, e seu técnico pessoal, Joao Zwetsch, foi que deu o aval para Thomaz parar. Mas convenhamos, do jeito que vinha, com o placar que estava e o que Thomaz estava apresentando…. Faltou algo a Bellucci. Algo que nao poderia faltar em Copa Davis.

Para mim, e, pelo o que ouço, para muitos, Thomaz Bellucci é um enigma. O cara tem golpes para levar receio ao coração de qualquer cachorrao. Afinal é top 20/30 – o que nao é pouca coisa. Mas os cachorroes também aprenderam que ficando no jogo sempre existe a possibilidade de em alguma hora ele miar. Tenho certeza que se a dupla tivesse vencido, e assim tivesse sido colocado em suas maos a possibilidade da vitória do confronto e nao a responsabilidade pela a derrota no mesmo, o resultado do jogo poderia ter sido diferente. Isso para nao entrar, nem pela marginal, na análise técnica e tática do que ele apresentou.

A Copa Davis é a única competição coletiva no tênis masculino profissional e, mais importante, defendendo o país – e esse é seu grande carisma. Para tal è preciso um time. Às vezes um excelente jogador, mais um companheiro nas duplas, funciona. Às vezes dois bons tenistas levam a coisa pra frente. Às vezes uma boa dupla inspira um dos dois bons tenistas a se tornar excelente pelo menos nesse fim de semana. Mas, acima disso tudo, é necessário um clima no coraçao e mentes de todos os envolvidos onde a vitória é única opção e a derrota nao seja uma alternativa. É preciso saber que se joga por algo maior do que razoes e motivações pessoais.

É preciso ir além. É preciso romper os limites que nos fazem reles mortais e falíveis e explorar o universo que pode nos nos tornar poderosos e invencíveis. É indispensável a inspiraçao coletiva para que suplantemos o que somos individualmente por conta de nossas restrições pessoais, técnicas, emocionais, físicas, verdadeiras e falsas. É preciso querer dançar nas estrelas.

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terça-feira, 15 de setembro de 2015 Curtinhas, História, Novak Djokovic, Porque o Tênis., Roger Federer, Tênis Feminino, Tênis Masculino, US Open | 15:47

O US OPEN em três atos

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ATO 1 – A final masculina e seus contrastantes protagonistas

Assisti na internet uma entrevista de Boris Becker, que sempre foi um falastrão e ao mesmo tempo dono de enorme carisma, afirmando que se fosse na sua época enfiaria um saque “medalha” em Roger Federer, se o Boniton insistisse, após aviso, em receber o saque de perto da linha do serviço. Como seu pupilo nao tem esse perfil, nem o saque para tal, confidenciou ao rapaz o valor do saque no corpo quando o oponente começa a se adiantar e presionar.

A tática funcionou bem e segurou a onda do Topetudo, que assim mesmo insistiu em faze-lo. Eu, como nao tenho nada com isso e gosto mesmo é de Tênis e nao necessariamente de um tenista, vibrei e adorei as invasões suíças. E o cara está ficando melhor no golpe e mais carudo a respeito. No começo, semanas atrás, invadia uns três a quatro passos e respondia um pouco mais de slice. Contra Djoko era quase em cima da linha (acho que estava enviando alguma mensagem ao Kaiser Becker) e reto com uma pitada de spin – lindo de ver. Tao lindo quanto foi ver o servio encaixar lobs milimetricamente perfeitos como contra ataque.

Normalmente alguém é mais prejudicado do que outro quando uma partida é postergada várias vezes por conta do clima. Na final de domingo, o prejudicado foi Federer; e nao por conta do “aluguel” no vestiário. A diferença esteve no jogo ser realizado à noite e nao debaixo do sol. No calor, o jogo, por conta das bolas e do piso, fica mais rápido, o que ajudaria o suíço, que precisava de qualquer ajuda para vencer. Sabendo disso, o Boniton acabou enfiando um pouco os pés pelas maos na sua ânsia de chegar à rede, fator primordial na sua estratégia, correta diga-se. O problema é que faz tempo que Roger nao joga dessa forma, pelo menos no quesito quantidade, e acabou nao sendo determinante nos seus ataques junto à rede como gostaria e esperaria ser. Sem contar que, por ser uma final, ele nao conseguiu manter a mesma confiança e tranquilidade das rodadas anteriores.

A vaquinha suíça começou seu trajeto ao brejo quando o rapaz perdeu o primeiro set – ali notifiquei minha mulher, e meus seguidores no Twitter, que a sorte estava lançada. Roger precisava do 1o set. Tanto para mexer na admirável confiança do Djoko, como para poupar seu longevo corpo de quatro ou cinco sets.

Mas se Roger nao cacifou como gostaria, o crédito deve ir mesmo para Novak Djokovic, que jogou como um campeão. Soube executar seu plano de jogo e seus golpes com excepcional qualidade. Soube administra seu emocional, mesmo com a esmagadora torcida contra, o talento do adversário que é imenso e a eventual perda do segundo set. Nada disso o abalou a ponta de tirar o seu foco. Ao contrário, como um campeão, aprendeu a usar as dificuldades e contrariedades para ampliar sua motivação e aprofundar seu foco. E sempre que foi necessário, nos momentos chaves que definem uma partida, soube usar e abusar da Confiatrix, o elixir máximo dos campeões.

 

ATO 2 – O nao controle das massas. 

Às vezes chega a dar pena de Novak Djokovic – se é que se pode ter pena de alguém que é o melhor do mundo no seu esporte e ganha milhões por temporada por conta. Mas o rapaz gosta tanto de ser gostado que causa certo constrangimento em observar, repetidamente, que o publico mundo afora simplesmente nao o ama como se ama o melhor em qualquer esporte. Nao é o caso de ser odiado, como acontece com alguns malas ou maus caráter que permeiam o esporte em geral. Longe disso. O caso é que o público simplesmente nao compra seu peixe. É certo que ele mudou bastante, daquele que, no princípio da carreira, gostava de fazer graça às custas de colegas, de sair da quadra quando começava a perder jogos alegando dores e milonguices outras. Temos que reconhecer; mudou, mas parece que o público em geral ainda nao se deu conta. Uma pena, poque ele está cada vez melhor – dentro e fora das quadras.

Que o publico torceria pelo Federer todos sabíamos. Nao importa quem estivesse do outro lado da rede as arquibancadas sao de Roger. Rafa Nadal teve que suar muita camisa para ter alguma torcida ao enfrentar Roger – sem mencionar que passou anos anotando o nome do suíço na sua caderneta. Mas O Cara tem o Tênis mais bonito do circuito e ponto final – algo fácil de ser reconhecido – ainda mais por qualquer um que tenha empunhado uma raquete, a maioria em qualquer final de torneios de tênis.

Talvez Djoko pudesse ter outra estratégia para seu marketing pessoal, algo com o qual se esforça mais do que o Topetudo. Ao invés de tentar ser tao Politicamente Correto – tenho uma séria aversão a isso e a esses – Djoko beirou o ridículo ao ficar se desculpando em quadra por ter derrotado o favorito do público. Disse que seguirá tentando ganhar coraçoes e mentes do público. Talvez devesse ter uma conversinha com Roberta Vinci sobre os benefícios da transparência e da sinceridade.

 

ATO 3 – O bálsamo da humanidade e do humor.

E qual foi o melhor jogo do US Open 2015? À parte daqueles que nao assisti, e daqueles que nunca sairão da mente e o coração dos envolvidos, como a vitória de Fognini sobre Nadal, e a própria final masculina, principalmente pela qualidade técnica apresentada, “A Partida” do torneio tem que ser a vitória da italiana Roberta Vinci sobre Serena Williams, por tudo que envolveu e aconteceu em quadra.

Serena estava a duas partidas de gravar seu nome no panteão das inesquecíveis, algo que já conquistou por conta de seus 21 títulos de Grand Slams em simples. No entanto, o fato de conquistar o chamado “Grand Slam” – vencer os quatro GS no mesmo ano-calendário – aos 32 anos, algo já conseguido anteriormente por tenistas menos abrasivas do que ela, como Maureen Conolly, Margareth Court e Steffi Graf, faria muito bem à sua história. Até porque é considerada por muitos como a “melhor da história”, algo que nao abraço com a mesma desenvoltura. Todos os campeões, quando comparados com outros, devem ser olhados pela ótica das circunstâncias e das épocas. Serena bateria todas as campeãs do passado, se estas viessem para o presente com o exato mesmo tenis de entao. Mas é mais justo considerarmos as circunstâncias e a época. Além disso, um campeão se justifica por muito mais do que como batia na bolinha. Devem marcar suas épocas por suas posturas, dentro e fora das quadras, como lidaram com adversárias e adversidade, e como administraram todas as facetas de suas carreiras.

Talvez, por saber tudo isso, Serena foi transpirando a pressão que sentia, especialmente desde o jogo com sua irma, Venus, quando quase chorou em quadra mais de uma vez denunciando a perda do controle das emoçoes. Na semifinal nao conseguiu administrar a situação, o que lhe custou caro. E, para seu azar e desespero, enfrentou uma tenista única: Roberta Vinci. A italiana, uma veterana, é a mais “italiana” das tenistas italianas. Enquanto Serena babava de um lado da quadra, indo à loucura de até dirigir, mais uma vez, impropérios à oponente, esta nao só manteve a tranquilidade, como foi vários passos adiante. Aproveitou a “força” das arquibancadas e a tentativa de intimidação e o desespero da adversária para alimentar sua confiança e sua determinação em vencer. E conseguiu isso com uma categoria e alegria que Serena, que se recusou a confessar a pressão que sentiu, nem saberia como buscar.

O discurso de Roberta após a vitória entrará para os anais da história e foi “o momento” do torneio. Deveria é ser mostrado para todas as tenistas, especialmente as jovens, que ainda tem chances de serem “salvas”. A italiana jogou o “Politicamente Correto”, o “Discurso Marketeiro” no lixo e deixou o coração falar sem restrições e censuras. Como tem um bom coração, foi uma maravilha – quem nao ouviu procure na internet que vale a pena.

O jogo foi, mais do que nada, repleto de emoções, como deve ser um espetáculo esportivo. O final do 3o set foi para se ver de pé, andando de uma lado para o outro, como faria o Tio Patinhas se vivesse sob a tutela da presidenta Dilma. Se cobrassem dobrado aquela partida ainda seria barato. Nem Hitchcock escreveria um roteiro daqueles, especialmente pelo epilogo.

A final, contra outra italiana, Flavia Penetta, acabou sendo um desapontamento, considerando a semifinal. O gás de Roberta acabara no dia anterior e no TB do 1o set. Mas valeu por ter oferecido algo que nem o mais macarronico dos italianos teria a coragem de sonhar; duas italianas na final do US Open, disputada em quadras duras (na Itália praticamente só se joga sobre o saibro). A cereja do bolo foi Flavia, dona de um par de pernas e golpes de altíssima qualidade, mas nao da mesmo descontração de sua companheira, conseguir seu único Grand Slam no apagar das luzes de sua carreira e anunciar o fim desta.

Assistir as duas amigas conversarem, sentadinhas esperando a premiaçao, nao teve preço. Nunca aconteceu antes e, apesar de duvidar que acontecerá novamente, é o que espero ver no futuro. Como escreveu no Twitter o meu amigo jornalista Sergio Xavier: “E o que essas italininhas, Pennetta e Vinci, fizeram pelo tênis em dois dias? Injetaram humanidade, humildade, emoção e, de quebra, humor”. Em tempos onde o Marketing Pessoal é considerado artigo da mais alta importância para atletas nao é pouco como é um alívio.

 

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segunda-feira, 24 de agosto de 2015 Roger Federer, Tênis Masculino, US Open | 18:12

Saiu da caixa

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O tênis mudou muito e ninguém percebeu. Ou perceberam e o fato é que mudou em tantas maneiras que algumas seguiram desapercebidas. Hoje temos dois balzaquianos arrasando no circuito, independente de Serena e Roger serem ou nao os líderes do ranking. Ambos sao os tenistas com mais títulos, entre mulheres e homens, e ambos farão uma firme marca na história. E digo isso nao pelo fato de ainda jogarem competitivamente aos 34 anos (Serena completa em Setembro). Uma década atrás, nessa idade tenistas estavam em casa pensando qual seria sua próxima atividade ou profissão. Agora ambos estão jogando o melhor tenis de suas vidas, independente de nao estarem em seus respetivos auges físicos.

Uma das razoes para tal feito, a mais óbvia, é que os tenistas cuidam de seus corpos com muito mais know-how e a mais tempo do que antes. Imaginem se Gustavo Kuerten tivesse tido esse tipo de know-how a sua disposição quando iniciou sua carreira profissional. Além disso, Serena e Federer foram os tenistas mais dominantes de suas épocas. As consequências disso é que jogaram mais jogos importantes, adquiriram mais experiência em momentos determinantes, testaram seus golpes em situações de estresse mental/emocional e foram descobrindo com mais alcance o que funciona ou nao. Isso os fez melhores, compensando o que foram perdendo de vigor. Como fazem parte da primeira geração que investiu dessa maneira diferenciada no preparo físico, estão conseguindo alongar suas carreiras com extrema qualidade, usufruindo das descritas vantagens dessa longevidade.

Ambos tiveram picos e vales em suas carreiras, mais ou menos severos – Serena sendo bem mais radical nisso. Roger foi bem mais uniforme, o que acrescenta a sua grandeza. Seus maiores problemas foram uma certa acomodação técnica por ter siso considerado, prematuramente, como o GOAT, e Rafael Nadal. E ultimamente Novak Djokovic. Mas, para mim, seu maior adversário sempre foi os limites que se impôs.

Rafa Nadal deixou de ser sua pedra no sapato por razoes recentes bem conhecidas e as quais lamentamos muito. Sobre Novak, que vem jogando um tênis soberbo dentro de seus horizontes, os quais nao cansa de explorar, temos a surpreendente “aula” de ontem em Cincinnati. Sobre Serena já escrevi em outras ocasiões e escrevei mais no futuro.

Hoje o assunto é o notável torneio que Roger jogou em Ohio e a acachapante vitória na final.

Federer venceu Cincinnati sem perder um game de serviço. Uma conquista dessas em um evento desse nível e com os Oponentes do quilate disponíveis é algo para a história. Nao só pela extrema qualidade técnica necessária para tal feito, como pela exigência mental/emocional de se fechar a porta na cara de cada adversário a cada game de serviço.

Sim, me chamou a atenção Roger Federer conseguir manter a concentração a cada jogo, cada dia, cada game. Especialmente ele, que sempre teve a tendência a entregar uma ou duas rapaduras nos momentos de conforto. O cara jogou com o Tezao daqueles que chegam ao circuito e a confiança daqueles que estão se despedindo; um equilíbrio tanto raro como fenomenal e mortal.

Mas, o que mais me encantou, foi que, finalmente, aos 34 anos, o suíço saiu da caixa – o que, convenhamos, deve ser difícil para um helvético, mesmo Roger Federer.

Nunca o vi jogar assim. E sempre “cobrei” isso dele. Por que ele nao trazia para os jogos exatamente aquilo de mais surpreendente o seu talento pode oferecer? Um tênis incalculado, inaudito, imprevisível, impremeditado. Porque somente os gênios sao capazes de manter a qualidade, enquanto incorporam os adjetivos do instinto, algo que foge da equação da repetição, da lógica, do acervo construído dos reles mortais. No entanto, desconsiderando lampejos esporádicos e insuficientes, Roger se recusava a adotar uma estratégia onde os ingredientes excepcionais de seu repertório nao ficassem ocultos. Parecia ter pudor em apresentar o que pudesse ser visto como um avilte ao adversário; como se muito do normalmente fazia nao o fosse.

Quem viu a final, ou mesmo os outros jogos de Cincinnati, sabe do que falo. Quem nao viu perdeu o Cara respondendo serviço do #1 do mundo quase na linha do saque, chip and charge como há muito nao se vê, esquerdas de bate pronto, de slices, com top ou chapadas, voleios esticado no máximo da tensao corporal e acertando, direitas de ataque que viravam deixadinhas com uma sutil munhecada, forehands a la squash, serviços à punhalada e outras cositas más. O Homem saiu da caixa. Agora quero ver quem o coloca lá de novo antes do final do US Open. Acho que só ele mesmo.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2015 Novak Djokovic, Tênis Brasileiro, Tênis Feminino, Tênis Masculino | 20:47

Sétimo céu

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Certa vez, na quadra central do US Open, John McEnroe mandou um cara que estava nas primeiras filas da arquibancada apagar o charuto que infestava suas narinas enquanto ele corria atrás das bolinhas. Na época ainda tinha uns caras de pau que ficavam pitando praticamente dentro da quadra. A semana passada – seria isso um sinal dos tempos? – Novak Djokovic reclamou para o juiz que estava ficando enjoado com o cheiro de maconha vindo das arquibancadas. Na entrevista pós jogo afirmou, de bom humor, que o mesmo já tinha ocorrido na partida anterior. Ele até que levou numa boa, dizendo que alguém estava se divertindo bastante “no sétimo céu” em suas partidas.

A maconha nao é legal no Canadá, mas foi descriminalizada. Com receita médica na mao o da paz pode puxar seu fuminho sem ter que ir parar na carceragem. Se pego com quantias pequenas de maconha e sem a receita médica a pessoa nao vai presa – no máximo tem sua diversão confiscada ou se o policial estiver de mau humor escreve uma multa. Pelo o que sei nao existem cannabis cafés em Montreal, apesar de encontrados em Toronto. E nao tenho a menor idéia se é permitido ou nao o fulano acender um baseado em local publico – inclusive na arquibancada de um torneio de tênis.

Na final o estádio estava lotado e nao percebi nenhuma fumaça estranha, risadas fora de hora ou reclamações do servio. Se ele tem alguma coisa a reclamar da final é o quanto o seu oponente jogou de tênis. Fazia tempo que nao via Andy Murray tao a fins de ganhar. E mais tempo ainda que nao o via tao agressivo – tanto com a esquerda como com a direita. Isso para nao falar das idas à rede.

O interessante foi que a tática do britânico foi atacar o revés do servio – justamente onde se fala que é cutucar a onça com vara curta. Pois ele cansou de ir lá. Tanto com sua direita na diagonal, como com seu revés cruzado – nunca o vi pegar tanto a bola na subida e soltar o braço. Parecia macho, che!

Murray foi o alfa dog do começo ao fim. Ele determinou o ritmo da partida, ele decidiu se ganhava ou perdia. Djoko parecia nao estar preparado para o que veio do outro lado da rede. Mesmo viajando no 2o set e vacilando na hora de ganhar no 3o o escocês levou. Levou porque jogou mais. Levou porque desta vez quis mais e tem ferramentas para tal.

Dois anos atrás assisti Bia Maia perder no torneio juvenil de Roland Garros para a suíça Belinda Bencic. Na ocasião escrevi a respeito aqui. A partida foi bem equilibrada e a suíça levou porque quis mais e teve mais “cabeça” e coração. Porque golpes nao tinha nao.

Bia está de #167 no ranking, enquanto Belinda, 18 anos, está como #12 do planeta. Bia vem sofrendo com diferentes e graves contusões e mudanças de plano. Semana passada recebi um email notificando que assinou com a IMG, a maior empresa do mundo de gerência de carreira – o que será muito bom para sua saúde financeira quando começar a ganhar. Por outro lado, o email avisava que estava afastada dos torneios, por contusão, a mesma que a tirou do Panamericano e que nao trabalha mais com o técnico Marcos “Bocao” Barbosa, com quem treinava desde 2014, após 4 anos com Larri Passos e ser formada no E.C. Pinheiros. O email nao informava com quem ela irá treinar agora. Bencic ganhou o Aberto do Canadá em Toronto, onde bateu Bouchard, Wozniacki, Lisicki, Ivanovic, Serena e Halep. Tá fácil?

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segunda-feira, 3 de agosto de 2015 Tênis Brasileiro, Tênis Feminino | 13:24

O canal de Teliana

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Para quem nao vem escrevendo muito, nada como uma boa motivação. E no fim de semana vieram duas. Uma, que repercute aqui e mundo afora; as pazes de Rafa Nadal e os títulos, algo que o espanhol e seus fås queriam muito. Especialmente acontecendo sobre um tenista que já estava abrindo uma caderneta com o nome de Rafa, a ponto de durante uma virada de lado, o italiano Fognini ficar de pé, mandar o espanhol ficar quieto e parar de “encher o saco”! Bem..

Para nós brasileiros, a nota mais importante da semana no tênis veio pelas raquetes da pernambucana Teliana Pereira que fez uma das coisas que mais admiro e respeito no Tênis – vencer em casa. Foi o segundo título de sua carreira. Me fez lembrar um filme, nåo tåo recente, do Kevin Costner, “Campo dos Sonhos”, onde a frase chave é “se você construir, eles virão”, frase que virou icônica para vários usos. Bem, a CBT fez um evento no nível WTA em quadras de saibro e a Teliana ganhou.

Imagino que quando a CBT pensou em organizar tal evento a idéia era dar uma alavancada no carente tênis feminino. Talvez ainda com um pouquinho do gosto de “nós fazemos e elas faturam”, onde nossas meninas eram as coadjuvantes com sonhos de um dia serem protagonistas. Bem, o cenário mudou, o sonho se tornou realidade a a estrela da festa é uma brasileira com alma sertaneja, temperada no sudeste por um chefe francês e que hoje tem em suas entranhas, como é necessário para uma campeã de tênis, uma bagagem internacional. Com cada um dos itens tendo sua devida e insubstituível importância.

Nao deixa de ser interessante o fato de que Teliana ganhou em casa em uma quadra de saibro. Nao acompanhei de perto para lhes dizerem porque o evento saiu de quadras duras para o saibro este ano e, dizem, irá de volta para as duras. Bem provável por demanda da WTA, que quer impõe que o piso encaixe no calendário. Eu diria que com esse novo, e importante, fato, a vitória de Teliana, a CBT poderia considerar abrir negociações com a WTA. Evento no Brasil é para brasileiros aproveitarem e, havendo um mínimo de chance, ganharem. Infelizmente durante nossa história somente Gustavo Kuerten, Luiz Mattar e Jaime Oncins e agora Teliana tiveram o que é necessário mental e emocionalmente para tal conquista, porque se fosse só pela técnica outros tiveram pelo menos essa capacidade. Óbvio que estou me referindo a torneios do circuito top, como os da WTA e da ATP, porque nos Challengers tivemos outros que souberam aproveitar as chances.

Teliana está, mais uma vez, de parabéns. É uma atleta a se respeitar. Seu arsenal técnico é limitado, seu background familiar longe dos privilégios – o que para mim se torna uma vantagem no longo prazo. Se o tênis feminino tem um futuro no Brasil, nao me canso de dizer isso, ele está nas periferias e nas zonas mais carentes do país, um perfil do qual Teliana é uma digna representante. O tênis competitivo internacional é um esporte danado de difícil e que exige muito do emocional da mulher – podemos dizer que para nossas meninas é massacrante. Por isso, o respeito pelo o que Teliana vem conquistando.

Uma maneira de observar seu valor é notar que somente aos 27 anos Teliana desabrocha internacionalmente. Antes estava lutando com seus inúmeros handicaps, derrubando os muros em seu caminho, desenvolvendo sua arte, polindo seu diamante tenistico. Tudo isso, sem as facilidades do talento natural e da habilidade que facilitam os primeiros passos, sem as benesses que uma família de posses pode oferecer, longe da vidinha do shopping center.

Teliana aprendeu cedo e em casa que o tênis era uma porta para tirar alguém de uma situação de pobreza e oferecer possibilidades de uma vida melhor. Para isso teve, inicialmente, a mao do pai, um lavrador que saiu do agreste a procura de um emprego no Paraná. Quando sentiu firmeza e construiu uma casa com suas maos trouxe a família. Eram 8 irmaos, uma barra que mae teve que segurar lá fronteira de Pernambuco e Alagoas.

O pai foi fazer manutenção das quadras em uma academia e a mae a faxina. Teliana foi pegar bolas, assim como seus irmaos; Junior, ainda um bom tenista e Renato, seu técnico atual. Como muitas vezes acontece, os pegadores se interessaram pelo jogo da raquete pelas maos do professor da academia, o francês Didier Rayon, a quem Teliana agradeceu em quadra após o título.

Teliana se tornou a melhor juvenil do país, assim como Junior. Mas ainda teve que comer muito pão amassado pelo diabo pelo caminho. Inclusive uma contusão no joelho, que por falta de melhor orientação e dinheiro para se cuidar, atrasou sua carreira em quase dois anos. Mas seguiu em frente. Com certeza, como toda história de sucesso, existem muitas histórias tristes, surpreendentes, alegres e fascinantes, conhecidas e aquelas que nunca serão contadas.

A mais importante agora é essa que a moça do agreste, que poderia estar com uma enxada na maos e uns oito filhos debaixo da saia, todos com escarsas chances de vingar, está escrevendo uma nova história com uma raquete nas maos. É fácil dizer que o tênis é que propiciou isso. Mais acurado dizer que foi a ferramenta. O que tornou isso uma realidade foi a determinação, filha da força de espirito, produto de alguém que um dia teve muito pouco, quase nada, além da energia sagrada que vem da família, uma chance na vida e um coraçao guerreiro. É isso. O Tênis, nao o shopping center, fica com o crédito de ser o canal pelo qual Teliana pode mostrar seu valor.

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