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Arquivo da Categoria Porque o Tênis.

segunda-feira, 2 de maio de 2016 Juvenis, Masters 1000, Porque o Tênis. | 00:20

Bavárias e turcas

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Algumas coisas bem interessantes acontecem nesses semanas de torneios 250, quando boa parte dos cachorrões se escondem e descansam, já que o foco deles são os Masters 1000, os Grand Slam, e o torneios menores que tenham uma caminhão de dinheiro para pagar suas garantias que, muitas vezes, é dinheiro jogado fora – ou já esqueceram do papelão do Tsonga no Rio?

 
Mas as finais de Munique e Istambul colocaram algo a mais na mesa para o verdadeiro fã do tênis, que não precisa de estrelas, que às vezes nem brilham tanto, para apreciarem um bom jogo. E foi isso que o entendido público bavário teve. Uma final não fica muito melhor do que quando o tenista da casa faz o possível e o impossível para ganhar na frente dos seus – que saudades dos tempos de Luiz Mattar, Carlos Kirmayr, Jaime Oncins e Gustavo Kuerten.

 
O alemão Kohlschreiber, um veterano de 32 anos, dono de um tênis clássico, uma das esquerdas mais doces do circuito, bons voleios e um bom entendimento da arquitetura do jogo, conseguiu se impor, inclusive na hora da onça beber água, sobre uma das maiores promessas do tênis atual, o seu vizinho da Austria, Dominic Thiem, um verdadeiro “animal” em quadra, dono de uma força física privilegiada, pela qual trabalhou, e segue trabalhando, complementado por um dos melhores golpes do tênis – o seu forehand, que, arrisco escrever, ainda vai melhorar.

 
Quem não viu dançou, quem assistiu sabe que foi um privilégio, não só pela qualidades técnica, mas pela emoção, dramaticidade e competitividade, componentes que não podem faltar em um grande jogo – 7/6 4/6 7/6.

 
Em Istambul eu estava feliz antes mesmo do jogo, com a final do baixinho argentino Diego Schwartzman, um cara pelo qual tiro o chapéu cada vez que o vejo em quadra – um exemplo para muito juvenil por aí afora.

 

O búlgaro venceu o primeiro set no TB e tinha 5×2 no 2o set. Aí o creme desandou. Ele diz que começou a sentir caibras. Eu lembro que o talentoso rapaz tem mais a fama de não ter o controle dos nervos nos grandes momentos, do que a de não ter pernas para jogar dois sets.

 
De qualquer jeito, deixou escapar o set em outro TB. Aí a vaca cavalgou para o brejo. Ele, já claramente sem condições físicas, começou a destruir raquetes. Foram advertências, pontos etc. No 0x5 ele aproveitou para fazer o esculacho final; acabou com mais uma raquete, e quando o boa praça Lahyani ia tascar mais uma, ele foi à sua raqueteira, pegou outra e destruiu mais uma em cima de outra. Acabou o trabalho e já cumprimentou o juizão, que não ficou nem um pouco feliz, virou e foi abraçar o argentino, deixando claro que sua frustração começava e terminava com ele.

 
Durante a premiação ficou com uma cara de bezerro desmamado de dar dó. Mas, na hora de receber a premiação veio a redenção. Dimitrov pegou o microfone e ofereceu um dos mais sinceros pedidos de desculpas públicas que já ouvi: “acima de tudo eu desapontei minha família, meu time, meus fãs com esse tipo de atitude que tive em quadra. Peço desculpas”.

 
Errar, todos erramos. Reconhecer e oferecer desculpas sinceras, minutos depois, curto e grosso, sem embromação, raros fazem. Em um dia que poderia ser criticado e crucificado, da minha parte, Grigor Dimitrov saiu maior de quadra.

Veja o “show” de Dimitrov na minha página do facebook.

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terça-feira, 22 de março de 2016 História, Masters 1000, Novak Djokovic, Porque o Tênis., Rafael Nadal, Roger Federer, Tênis Feminino, Tênis Masculino | 15:10

Mordeu a língua

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O Aberto de Miami começa sob a sombra da polêmica. Mais uma vez o assunto é se mulheres devem receber o mesmo valor em prêmios que homens.

 

O principal combustível da polêmica foi do fundador e diretor do torneio de Indian Wells, o ex tenista e hippie sul africano Ray Moore. Ray foi contemporâneo de Thomas Koch e Carlos Kirmayr e saiu dos cabelos longos para, junto com Charles Passarell, tocarem um dos melhores eventos do circuito. Interessante que o evento sempre teve altas polêmicas, como as acusações de fraudes junto à prefeitura local e a das irmãs Williams, que ficaram anos sem colocar os pés por lá por conta de um incidente com o público, que foi acusado, pelas irmãs, de ser racista. Mas isso já foi e não vou me alonga a respeito.

 

O fato é que Ray fez uma declaração polemica sobre a igualdade nos prêmios entre homens e mulheres. Disse o senhor que no futuro gostaria de ter um emprego na WTA, já que esse pessoal vive na moleza e na rabeira do circuito da ATP, sem nada acrescentar. E pra completar o saque e voleio, afirmou que as tenistas deviam ajoelhar e agradecer o surgimento de Roger Federer e Rafa Nadal, que fizeram o tênis se sobressair nos últimos anos.

 

Declarações, no mínimo, discutíveis. Nenhuma mulher do mundo vai concordar, o que já coloca metade do mundo contra quem fala uma coisa dessa em público. Pior ainda se você é o diretor de um dos maiores torneios que elas jogam. Considerando que da outra metade, uma boa parte não que saber de encrenca com elas, te deixa no mato sem dog.

 

Por conta de tudo isso, Moore ouviu tudo que nao queria ouvir em vida nos últimos dias. Só estaria pior se fosse acusado de pedofilo. O final da história é que teve que “pedir” para sair e deixar o cargo, com o imediato aplauso de Larry Ellison, dono do torneio, e da Oracle, que se desmanchou em desculpas e elogios as conquistas e o tênis das mulheres.

 

Nao sei o que deu na cabeça de Mr. Moore para se sair com essas declarações. Ele tem alguma razao? Tem. Só que suas declarações foram venenosas e arrogantes.

 

Assumindo seu raciocínio, não é só as mulheres que deveriam se ajoelhar para Federer e Nadal. Os homens também. O circuito masculino também viver do Fedal durante anos e eles estao deixando uma marca que marcou o Tênis.

 

As mulheres nao conseguiram apresentar nada, nem de longe, igual. Se lembrarem, até Serena se assentar e abraçar a carreira, apareceu cada #1 de chorar na WTA.

 

Mas há maneiras e maneiras de colocar um argumento. Moore, considerando sua posição, tinha mesmo que tomar o caminho da roça e sumir depois dessa.

 

O mais interessante disso tudo é o seguinte. Quase no mesmo dia, o campeao de Indian Wells e o #1 do mundo Novak Djokovic, defendeu que os homens deveriam sim ganhar mais do que as mulheres, baseado em quem atrai mais público e atenção, o que, segundo ele, as estatísticas mostram. O mesmo argumento, com mais diplomacia, o que também já atraiu o veneno feminino.

 

Como o assunto é algo que frequenta o Politicamente Correto, algo que os americanos adoram e respeitam, pode-se esperar que a polêmica continue em Miami.

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terça-feira, 19 de janeiro de 2016 Aberto da Austrália, Porque o Tênis., Rafael Nadal, Tênis Masculino | 19:19

Findáveis mágicas

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Porque El Rafa nao ganha mais os jogos que antes ganhava? A derrota, na 1a rodada, para Verdasco não podia ser mais exemplar. Em 2009, os dois se enfrentaram na semifinal do AO, em uma das mais partidas mais emocionantes que já assisti, com vitória do Animal, na bacia das almas, no 5o set. Para Rafa, foi mais uma de suas infindáveis mágicas vitórias – em seguida bateu Federer na final, em outra partidaça de 5 sets, levando o suíço às lágrimas. Quanto a Verdasco, tenho certeza que o cara nunca mais dormiu em paz – até esta madrugada.

Desta vez a história foi diferente. Na hora da onça beber água quem cresceu foi Verdasco e nao Nadal. E essa é a grande questão. Porque Rafa nao ganha mais essas partidas?

Desaprender não é o caso. Contusões também não acredito. O cara sempre jogou com dores e agora não está pior do que muitas vezes já esteve. Os outros melhoraram? Alguns sim, outros não, mas ninguém, a não ser Djokovic, o bastante para ser essa a diferença.

Ainda no 1o set, minha mulher, que é fã do rapaz, amuou e profetizou – ele vai perder. Não pus fé. Não vai não, eu disse. Bem, em breve ela deve começar escrever no Blog.

A derrota foi mais uma daquelas que, apesar de mais de 4hs de jogo, muita correria, pontos incríveis e golpes fantásticos teve um ponto onde tudo foi decidido. São aqueles pontos que quem conhece sabe, na hora, vai marcar na carne e tirar o sono de alguém. Quinto set, Nadal já liderando 2×0, e ainda com um break point no saque do Verdasco. Esse fica insano e começa a cuspir aces – três nos quatro pontos seguintes. Busca o game e mantêm o seu jogando como um possesso. Nao, desta vez não, pensou, não vou perder outra vez desse cara no 5o set na Austrália. No way, Jose. E assim foi.

E porque Rafa agora perde, não só seis games seguidos no 5o set, como esses jogos? Porque ele perde esses pontos, esses games? Antes, esses eram sua marca registrada. Na hora da decisão ele sempre encontrava a solução, sempre conseguia levantar o padrão, bombar a Confiatrix como nenhum outro. No more, Rafito.

Tenho em casa um livro do Gustavo Kuerten, assinado e com dedicatória. Nesta, ele fala sobre algo que eu disse a ele, quando ainda começando sua carreira profissional, que foi catar lá em sua memória, sobre o bem mais precioso que o tenista tem – sua confiança. Como uma flor, deve ser regada todo dia, cuida-la e, assim mesmo, se corre o risco de perde-la. Ele diz que sempre regou sua flor. Em algum lugar, em alguma quebrada da vida, numa esquina das dificuldades, Rafael Nadal se descuidou da sua. Ela ainda é viçosa, linda e exuberante como poucas no esporte, mas não é mais aquela que nos fascinava por sua exclusividade, raridade, algo nunca dantes vista por este que lhes escreve. Nesta vida nada é permanente, nem a confiança do cara mais forte mentalmente que já tive o prazer de assistir.

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domingo, 13 de dezembro de 2015 Aberto da Austrália, Copa Davis, História, Olimpíadas, Porque o Tênis., Roland Garros, Tênis Brasileiro, Tênis Feminino, Tênis Masculino, US Open, Wimbledon | 22:03

O Tênis brasileiro no Jornal Nacional

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Semana agitada no tênis brasileiro, especialmente fora dos torneios. Em uma semana o Jornal Nacional apresentou duas matérias sobre o tênis no Brasil, ambas bem positivas e sem ter Gustavo Kuerten como tema.

A primeira falou sobre o sucesso de Marcelo Melo, que fechou a temporada como o primeiro da ranking mundial, um feito extremamente positivo para nosso tênis. Marcelo soube aproveitar o declínio natural dos irmaos Brian, que dominaram o circuito nos últimos anos, mas nao venceram nenhum GS na temporada, para se instalar no topo do ranking. Para isso, teve que se preparar ainda melhor do que nas outras temporadas, negociar bem com seu parceiro titular, que teve um ano bem ruim nas simples, o que deve ter lhe causado algum estresse, manter a qualidade quando longe do mesmo e aproveitar as oportunidades que soube criar. Sim, porque uma coisa é criar as oportunidades, outra é ter a confiança e o gabarito de cacifa-las na hora da onça beber água que é quando os games, os sets, as partidas, os títulos e uma temporada sao definidas. Ter esse sucesso reconhecido em rede nacional para todos o Brasil ver deve ter sido bem gratificante para o Girafa.

A segunda, isso sem minha memória nao está a falhar, foi sobre a inauguração do Centro Olímpico de Tênis no Rio de Janeiro, novamente por uma luz positiva. Especialmente quando colocaram lá o caco de que a CBT herdará o complexo, após as Olimpíadas, uma das principais reivindicações da entidade e que faz todo o sentido. Aliás, deveriam, nao só colocar nas maos da entidade, que é quem tem o know-how para tal, como também desponibilizar uma verba para fazer o Centro – que deve, entre outras coisas abrigar o principal centro de treinamento do país – funcionar em seu dia a dia. Com um complexo igual ao de poucos eventos no planeta, a CBT terá a tarefa de nao só formar tenistas, como encontrar o melhor uso para tal local de outras formas, inclusive abrigar torneios, a Fed Cup e Copa Davis. O que me deixou um tanto encanado foi ter lido hoje que a CBT está negociando para se desfazer de seu torneio da WTA – nao sei a razao para tal passo.

O curioso na entrevista do JN, veio por conta da nossa tenista #1, Teliana Pereira, lamentar que o piso duro, o do Centro Olímpico, nao é o que mais lhe convém – ela quase que só joga no saibro. Até aí ela defendia o seu estilo e suas limitações. O que me trouxe um sorriso ao rosto foi a sua afirmação que o piso duro seria positivo aos duplistas Melo e Soares, que nao escolhem piso e, quase caí para trás, à Thomas Bellucci. Que torneios do Belo a nossa melhor tenista tem acompanhado?

Nao pode deixar de ser mencionado, e aplaudido, a decisão de escolherem o nome de Maria Esther Bueno para a Quadra Central do complexo. Afinal a tenista tem vários títulos de Grand Slam a mais do que Gustavo Kuerten ou qualquer outro brasileiro. Mas a minha cabecinha ficou pensando: porque nao fizeram como os americanos, que deram o nome de Billie Jean King ao complexo onde é jogado o Aberto dos EUA e à Quadra Central o de Arthur Ashe? Por aqui poderiam entao dar à Central o nome de Gustavo Kuerten, também um grande ídolo nacional. Ou será que pensam em fazer o inverso dos americanos em algum momento futuro? Vale lembrar que na Austrália nao deram o nome de um tenista ao complexo, e sim às duas quadras principais – Rod Laver e Margareth Court – em Roland Garros deram o nome de um aviador ao complexo e o de um cartola à Quadra Central e em Wimbledon eles nem pensam em uma ou outra idéia – e sendo como sao, dariam a Fred Perry antes de dar a Murray.

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domingo, 29 de novembro de 2015 Copa Davis, História, Olimpíadas, Porque o Tênis., Tênis Masculino, Wimbledon | 22:48

Sir Murray

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E a profecia se realizou. Anos atrás eu escrevia no Blog que Andy Murray era um dos maiores talentos do circuito e que um dia suas habilidades iram se materializar. Lembro que uma legião escrevia que eu nao sabia do que estava falando e outras barbaridades – eram épocas que o tênis estava dominado pelo FeDal e o blog um tanto mais infestado de sofasistas delirantes do que eu gostaria. Os que acreditavam em Murray eram tao poucos que cabiam em uma Romi Isetta, segundo o Barao, um dos nossos fiéis leitores. Ça va!

Sendo quem é – Murray adora fazer o fácil, pelo menos para ele, ficar difícil, o escocês tem tido uma carreira aquém da que poderia ter. Falta aquela serenidade que o grande tenista tem face as agruras do circuito e do jogo de tênis em si. Mas, devidamente motivado o rapaz é um perigo e tem tenis para bater qualquer um . O duro nao é convencer a todos nós, seus fas, nem mesmo os incrédulos, de suas capacidades. O duro é ele mesmo se convencer.

Imagino, porque adivinho nao sou, que após os britânicos bateram os americanos na 1a rodada, com uma surpreendente participação do fantasmao James Ward, que na ocasião bateu o Isner na quadra dura coberta, Andy deu uma bela olhada na chave e viu ali a chance de uma vida. Considerou a inspiração de Ward e a ascendência de seu irmão nas duplas. Mesmo assim, a conta só fechava mesmo se ele ganhasse todos os jogos. Para isso se tornar realidade teria que deixar a viadagem de lado, as reclamações nos vestiários e concentrar em uma única coisa: ganhar jogos. E assim foi.

Fez algumas mágicas pelo caminho, especialmente nas duplas, com o irmão que nao é nenhuma brastemp, mas se vira, mas na final esteve bem pesadinho – O Bruno Soares vai suar na sua nova parceria! Nas simples, pelos resultados e pelo o que vi neste fim semana, impecável

No seu caminho ao título, algo que os britânicos nao saboreavam a 79 anos, Andy perdeu somente dois sets nas simples e venceu 24. E teve pela frente adversários como Tsonga, Simon, Isner, Tomic e o viajante Kokinnakis. Traçou todos com facilidade. E aos sábados tinha que carregar o irmão. Algumas dessas vitória pode-se chamar de heróicas, como sobre os australianos Hewitt e Groth, no 5o set, Mahut e Tsonga em 4 sets. Interessante que Andy nao jogou contra os irmaos Bryan, após Ward sacramentar os 2×0 no 1o dia. Os irmaos fecharam a temporada invictos, assim como Andy nas simples.

Vencer a Copa Davis praticamente sozinho é tarefas para poucos. Alguns conseguiam faze-lo em um ou outro confronto. É algo que sobrou para Gustavo Kuerten muitas vezes, já que nunca teve um singlista a sua altura. Pelo menos nas duplas, ele tinha Jaime Oncins, que na maioria das vezes era quem carregava tecnicamente a dupla, com Gustavo contribuindo com seu fortíssimo emocional, bons saques, boas devoluções e sua confiança, o que já é de ótimo tamanho.

Hoje Murray cravou seu nome na história do esporte britânico. O cara agora venceu o torneio de Wimbledon, a medalha de ouro olímpica, conquistada em Londres e a Copa Davis. Se nao é já deveria ser Sir. Se deram o nome do morrinho de grama para o Henman (Hill), aquele estádio sem nome no All England ficaria melhor com seu nome.

Infelizmente nao vi outras partidas dos britânicos na temporada – adoraria ter visto a dupla contra os australianos. Tudo entre australianos e britânicos é pessoal. Groth é um tremendo sacador e bom voleador e Hewitt um ótimo duplista (excelentes devoluçoes e bons voleios). Além de que era a derradeira chance de Hewitt vencer a Davis. 6/4 no 5o set também em Glasgow.

Talvez Andy se de ao trabalho de rever algumas de suas partidas na Copa Davis. Poderia se inspirar em seu um tenista melhor, algo que necessariamente passaria por ser uma pessoa melhor resolvida, mais focada em suas qualidades do que em seus possíveis erros, algo a que todos tenistas estão expostos. No fim do dia, o grande tenista é um grande administrado de dificuldades e crises, que aparecem a cada game e devem ser lidadas e solucionadas da melhor e menos dolorida maneira, algo que o rapaz tem dificuldades em fazer. Murray tem todas as ferramentas para ser o melhor, basta entrar na viagem certa, algo que Djoko, Nadale Federer sao mestres. A temporada da Davis mostrou que tal tarefa está à seu alcance, mesmo mentalmente, seu calcanhar de aquiles. Ele queria muito vencer Wimbledon, as Olimpíadas e a Copa Davis, de longe os mais importantes títulos que um tenista britânico pode almejar. Agora tem que decidir se quer algo mais. Especialmente ser Grande.

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terça-feira, 15 de setembro de 2015 Curtinhas, História, Novak Djokovic, Porque o Tênis., Roger Federer, Tênis Feminino, Tênis Masculino, US Open | 15:47

O US OPEN em três atos

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ATO 1 – A final masculina e seus contrastantes protagonistas

Assisti na internet uma entrevista de Boris Becker, que sempre foi um falastrão e ao mesmo tempo dono de enorme carisma, afirmando que se fosse na sua época enfiaria um saque “medalha” em Roger Federer, se o Boniton insistisse, após aviso, em receber o saque de perto da linha do serviço. Como seu pupilo nao tem esse perfil, nem o saque para tal, confidenciou ao rapaz o valor do saque no corpo quando o oponente começa a se adiantar e presionar.

A tática funcionou bem e segurou a onda do Topetudo, que assim mesmo insistiu em faze-lo. Eu, como nao tenho nada com isso e gosto mesmo é de Tênis e nao necessariamente de um tenista, vibrei e adorei as invasões suíças. E o cara está ficando melhor no golpe e mais carudo a respeito. No começo, semanas atrás, invadia uns três a quatro passos e respondia um pouco mais de slice. Contra Djoko era quase em cima da linha (acho que estava enviando alguma mensagem ao Kaiser Becker) e reto com uma pitada de spin – lindo de ver. Tao lindo quanto foi ver o servio encaixar lobs milimetricamente perfeitos como contra ataque.

Normalmente alguém é mais prejudicado do que outro quando uma partida é postergada várias vezes por conta do clima. Na final de domingo, o prejudicado foi Federer; e nao por conta do “aluguel” no vestiário. A diferença esteve no jogo ser realizado à noite e nao debaixo do sol. No calor, o jogo, por conta das bolas e do piso, fica mais rápido, o que ajudaria o suíço, que precisava de qualquer ajuda para vencer. Sabendo disso, o Boniton acabou enfiando um pouco os pés pelas maos na sua ânsia de chegar à rede, fator primordial na sua estratégia, correta diga-se. O problema é que faz tempo que Roger nao joga dessa forma, pelo menos no quesito quantidade, e acabou nao sendo determinante nos seus ataques junto à rede como gostaria e esperaria ser. Sem contar que, por ser uma final, ele nao conseguiu manter a mesma confiança e tranquilidade das rodadas anteriores.

A vaquinha suíça começou seu trajeto ao brejo quando o rapaz perdeu o primeiro set – ali notifiquei minha mulher, e meus seguidores no Twitter, que a sorte estava lançada. Roger precisava do 1o set. Tanto para mexer na admirável confiança do Djoko, como para poupar seu longevo corpo de quatro ou cinco sets.

Mas se Roger nao cacifou como gostaria, o crédito deve ir mesmo para Novak Djokovic, que jogou como um campeão. Soube executar seu plano de jogo e seus golpes com excepcional qualidade. Soube administra seu emocional, mesmo com a esmagadora torcida contra, o talento do adversário que é imenso e a eventual perda do segundo set. Nada disso o abalou a ponta de tirar o seu foco. Ao contrário, como um campeão, aprendeu a usar as dificuldades e contrariedades para ampliar sua motivação e aprofundar seu foco. E sempre que foi necessário, nos momentos chaves que definem uma partida, soube usar e abusar da Confiatrix, o elixir máximo dos campeões.

 

ATO 2 – O nao controle das massas. 

Às vezes chega a dar pena de Novak Djokovic – se é que se pode ter pena de alguém que é o melhor do mundo no seu esporte e ganha milhões por temporada por conta. Mas o rapaz gosta tanto de ser gostado que causa certo constrangimento em observar, repetidamente, que o publico mundo afora simplesmente nao o ama como se ama o melhor em qualquer esporte. Nao é o caso de ser odiado, como acontece com alguns malas ou maus caráter que permeiam o esporte em geral. Longe disso. O caso é que o público simplesmente nao compra seu peixe. É certo que ele mudou bastante, daquele que, no princípio da carreira, gostava de fazer graça às custas de colegas, de sair da quadra quando começava a perder jogos alegando dores e milonguices outras. Temos que reconhecer; mudou, mas parece que o público em geral ainda nao se deu conta. Uma pena, poque ele está cada vez melhor – dentro e fora das quadras.

Que o publico torceria pelo Federer todos sabíamos. Nao importa quem estivesse do outro lado da rede as arquibancadas sao de Roger. Rafa Nadal teve que suar muita camisa para ter alguma torcida ao enfrentar Roger – sem mencionar que passou anos anotando o nome do suíço na sua caderneta. Mas O Cara tem o Tênis mais bonito do circuito e ponto final – algo fácil de ser reconhecido – ainda mais por qualquer um que tenha empunhado uma raquete, a maioria em qualquer final de torneios de tênis.

Talvez Djoko pudesse ter outra estratégia para seu marketing pessoal, algo com o qual se esforça mais do que o Topetudo. Ao invés de tentar ser tao Politicamente Correto – tenho uma séria aversão a isso e a esses – Djoko beirou o ridículo ao ficar se desculpando em quadra por ter derrotado o favorito do público. Disse que seguirá tentando ganhar coraçoes e mentes do público. Talvez devesse ter uma conversinha com Roberta Vinci sobre os benefícios da transparência e da sinceridade.

 

ATO 3 – O bálsamo da humanidade e do humor.

E qual foi o melhor jogo do US Open 2015? À parte daqueles que nao assisti, e daqueles que nunca sairão da mente e o coração dos envolvidos, como a vitória de Fognini sobre Nadal, e a própria final masculina, principalmente pela qualidade técnica apresentada, “A Partida” do torneio tem que ser a vitória da italiana Roberta Vinci sobre Serena Williams, por tudo que envolveu e aconteceu em quadra.

Serena estava a duas partidas de gravar seu nome no panteão das inesquecíveis, algo que já conquistou por conta de seus 21 títulos de Grand Slams em simples. No entanto, o fato de conquistar o chamado “Grand Slam” – vencer os quatro GS no mesmo ano-calendário – aos 32 anos, algo já conseguido anteriormente por tenistas menos abrasivas do que ela, como Maureen Conolly, Margareth Court e Steffi Graf, faria muito bem à sua história. Até porque é considerada por muitos como a “melhor da história”, algo que nao abraço com a mesma desenvoltura. Todos os campeões, quando comparados com outros, devem ser olhados pela ótica das circunstâncias e das épocas. Serena bateria todas as campeãs do passado, se estas viessem para o presente com o exato mesmo tenis de entao. Mas é mais justo considerarmos as circunstâncias e a época. Além disso, um campeão se justifica por muito mais do que como batia na bolinha. Devem marcar suas épocas por suas posturas, dentro e fora das quadras, como lidaram com adversárias e adversidade, e como administraram todas as facetas de suas carreiras.

Talvez, por saber tudo isso, Serena foi transpirando a pressão que sentia, especialmente desde o jogo com sua irma, Venus, quando quase chorou em quadra mais de uma vez denunciando a perda do controle das emoçoes. Na semifinal nao conseguiu administrar a situação, o que lhe custou caro. E, para seu azar e desespero, enfrentou uma tenista única: Roberta Vinci. A italiana, uma veterana, é a mais “italiana” das tenistas italianas. Enquanto Serena babava de um lado da quadra, indo à loucura de até dirigir, mais uma vez, impropérios à oponente, esta nao só manteve a tranquilidade, como foi vários passos adiante. Aproveitou a “força” das arquibancadas e a tentativa de intimidação e o desespero da adversária para alimentar sua confiança e sua determinação em vencer. E conseguiu isso com uma categoria e alegria que Serena, que se recusou a confessar a pressão que sentiu, nem saberia como buscar.

O discurso de Roberta após a vitória entrará para os anais da história e foi “o momento” do torneio. Deveria é ser mostrado para todas as tenistas, especialmente as jovens, que ainda tem chances de serem “salvas”. A italiana jogou o “Politicamente Correto”, o “Discurso Marketeiro” no lixo e deixou o coração falar sem restrições e censuras. Como tem um bom coração, foi uma maravilha – quem nao ouviu procure na internet que vale a pena.

O jogo foi, mais do que nada, repleto de emoções, como deve ser um espetáculo esportivo. O final do 3o set foi para se ver de pé, andando de uma lado para o outro, como faria o Tio Patinhas se vivesse sob a tutela da presidenta Dilma. Se cobrassem dobrado aquela partida ainda seria barato. Nem Hitchcock escreveria um roteiro daqueles, especialmente pelo epilogo.

A final, contra outra italiana, Flavia Penetta, acabou sendo um desapontamento, considerando a semifinal. O gás de Roberta acabara no dia anterior e no TB do 1o set. Mas valeu por ter oferecido algo que nem o mais macarronico dos italianos teria a coragem de sonhar; duas italianas na final do US Open, disputada em quadras duras (na Itália praticamente só se joga sobre o saibro). A cereja do bolo foi Flavia, dona de um par de pernas e golpes de altíssima qualidade, mas nao da mesmo descontração de sua companheira, conseguir seu único Grand Slam no apagar das luzes de sua carreira e anunciar o fim desta.

Assistir as duas amigas conversarem, sentadinhas esperando a premiaçao, nao teve preço. Nunca aconteceu antes e, apesar de duvidar que acontecerá novamente, é o que espero ver no futuro. Como escreveu no Twitter o meu amigo jornalista Sergio Xavier: “E o que essas italininhas, Pennetta e Vinci, fizeram pelo tênis em dois dias? Injetaram humanidade, humildade, emoção e, de quebra, humor”. Em tempos onde o Marketing Pessoal é considerado artigo da mais alta importância para atletas nao é pouco como é um alívio.

 

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segunda-feira, 29 de junho de 2015 Curtinhas, Porque o Tênis., Tênis Feminino, Tênis Masculino, Wimbledon | 14:39

Os sem ingressos

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Começa Wimbledon e com ele a famosa fila para os “sem ingresso”. Os organizadores nao fazem nenhuma questao em serem democráticos na oferta dos ingressos. Disponibilizam a maior parte para poucos, segundos critérios nunca divulgados. Os que nao conseguem comprar tem q se sujeitar a ficar em filas intermináveis dia e noite. Durante o dia o pessoal fica em terreno disponibilizado pela prefeitura, onde levantam acampamento, socializam, colocam a leitura em dia, brincam, lêem, cantam, comem e esperam.

Durante a noite a festa rola solta no acampamento dos “sem ingressos”. Tocam musica, dançam, bebem e outras cositas más que a noite propicia. Alguns continuam em colocar a leitura em dia e acordam cedo para curtir o sol, pleno nesta época, mas raro no geral, e esperar que suas senhas sejam chamadas e curtir o seu dia em Wimbledon – que com a espera é sempre mais de um.

Para fotos, curiosidades e detalhes entrem na “Tenisnet-Blog do Paulo Cleto” no Facebook.

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sábado, 30 de maio de 2015 Porque o Tênis., Roland Garros, Sem categoria | 10:54

O manézinho de Paris

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Gustavo Kuerten está em Paris, para variar, sempre voltamos aonde nos tratam bem, para celebrar, oficialmente, os 15 anos de quando se tornou o primeiro do ranking mundial. No fundo criou uma boa oportunidade de lançar seu livro no mercado francês. E nenhum lugar melhor para fazê-lo do que em Roland Garros. E como se deve aproveitar as oportunidades, Gustavo vai entregar o prêmio para o campeão do torneio, enquanto Martina Navratilova entregará às mulheres finalistas.

Ontem à noite a FFT fez uma pequena e concorrida recepção à Guga no Le Club, um local onde o presidente da FFT recebe seus convidados. Teve imprensa brasileira, tenistas e ex tenistas, dirigentes, tudo em pequena e escolhida dose. Teve até quatro rapazes de branco cantando uns gostosos sambinhas. E alguns exemplares do livro do tenista colocados sobre as mesas.

Assim que entrou Gustavo, em ótimos espíritos, parou para conversar. Tivemos alguns minutos a sós antes de ele se entregar aos abraços de todos que o aguardavam. a conversa, depois de algumas amenidades e bobagens, caiu sobre o assunto do porquê da empatia entre ele e o público francês. O assunto surgiu após falarmos sobre a incrível vitória de Monfils sobre Cuevas, quando este teve 4-1 no quinto set e o francês, incentivado fortemente pela torcida, virou o jogo.

Gustavo estava um tanto filosofo a respeito. Disse que não tinha uma razão definitiva sobre o assunto, apesar de que tinha certeza que ela existia. Conjeturou hipóteses, sem se comprometer com uma. O que tinha claro é que chegou a um ponto da história que sabia que essa empatia lhe dava forças em quadra e isso fazia uma diferenç. Sem dizer que fazia isso consciente, disse que sabia que algumas coisas que fazia estreitava essa relação, o que acabou sendo crucial em sua carreira e história pessoal, algo que sua presença em Paris confirma.

perguntei se ele tinha em mente quando foi que sentiu que “ganhou” o público de vez. Ele hesitou e disse não ter certeza, abrindo a porta para minha sugestão. Para mim, e muitos, ele ganhou o coração dos franceses quando, como uma jovem zebra, com uniforme que mais parecia uma bandeira, e que lhe foi “sugerido” pela organização que o trocasse para a final, o que foi ignorado, ele, ao ser chamado para receber seu prêmio, das mãos de Björn Borg e Guilhermos Villas, ele subiu alguns degraus do podium, onde era esperado, e fez a famosa flexão com a cabeça e torso, como os súditos faziam aos reis. Ali os franceses descobriram que aquele campeão trazia para a quadra, ao mesmo tempo, uma ferrenha determinação de vencer, aliada a uma humilde simpatia, características um tanto raras dentro das quadras de tênis. Sua ações em Roland Garros só foram, com o tempo, confirmando ambas, até então talvez contrastantes, e a partir de Kuerten uma tradição. Os dividendos de tal relação pingam até hoje e, com certeza, por tempos que virã.

 

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domingo, 12 de abril de 2015 Porque o Tênis., Tênis Masculino | 15:42

O que mudar no saibro

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O amigo e colega Jose Nilton Dalcin, que há anos comanda o Tenisbrasil, site mais antigo e de maior sucesso do tênis brasileiro, me passa a tarefa de lhe enviar uma pauta sobre as adaptações que um tenista profissional deve fazer para realizar com sucesso a transição das quadras duras para o saibro. O tema tem a ver com o momento, já que começa a temporada européia, que é quando todos os tenistas, nao só mais os amantes da terra vermelha, que tiveram um gostinho no circuito da América do Sul, tem que abraçar o saibro como única alternativa.

Primeiro é bom dizer que tenista é um dos animais mais conservadores do planeta e odeia mudanças e adaptações. Adaptar, pra eles, é pirar. Dito isso, alguns nao mudam nem que a vaca tussa, e nao é vaca do PT, que se apertar muda. Alguns nao mudam nao é porque nao querem e sim porque nao tem para o que e como mudar – faltam opçoes técnicas para apresentar algo diferente. E, se mudarem, a emenda pode ser pior do que o soneto, o que nos leva de volta à primeira observação.

Nao custa desviar um tiquinho do assunto e dizer que uma das razoes da derrocada do tênis norte-americano é que nas ultimas décadas uniformizaram bastante as condiçoes do circuito, alterando a velocidade das quadras duras, eliminando os carpetes e uniformizando as bolas. Hoje é pequena a diferença entre os dois pisos e, em consequencia, a obrigaçao da tal “adaptaçao”. Antes os americanos tinha o circuito deles, que era a maioria, com as quadras duras e as quadras indoors com carpete, enquanto os europeus e latinos tinham só a janela de três a quatro meses do saibro europeu. Agora é a época da homogeneidade.

Pelo estilo, pela “escola”, pela cultura, pela cabeça, alguns estao mais aptos para um ou outro piso. Exemplo? Os espanhóis e latinos gostam da terra e os americanos gostam da quadra dura. O que tem a ver com os primeiros três quesitos. Americano cresce valorizando o serviço forte e decisivo. Espanhol cresce valorizando a alta porcentagem de 1o serviço em jogo. Espanhol gosta de ficar dois ou mais passos atrás da linha de fundo, correndo como cachorros mordidos, deixando que a bola à eles cheguem, já sem o peso, investindo em criar alternativas táticas, usando a arquitetura da quadra, para forçar erros dos oponentes, que acontecem por instabilidade técnica dos golpes, preparo físico abaixo do par, velocidade lateral menor e golpes com menor alavancagem de pulso, incapazes de gerar o necessário top spin, que é o que acrescenta segurança e profundidade aos golpes.

Do outro lado, os americanos, ou qualquer tenista que tenha golpes mais retos e gostem de jogar mais próximos da linha de fundo, para poderem “tomar” a quadra, mandarem no ponto e assim abreviarem a disputa. Esse pessoal nao gosta de esperar a bola – vai pra cima dela, batendo mais bolas na ascendente, cortando o tempo de reaçao do oponente.

Dizer que é o saibro nao basta. É importante considerar outras variáveis, como a altitude da cidade. E bem diferente jogar em Madrid e em Barcelona. Avaliar as condições do piso, se lento ou rápido, pesado (úmido) ou escorregadio (seco) – e os franceses sao os que mais mexem nessa opção – se a bola é rápida ou lenta, se está sol ou nao, sendo que o sol deixa o jogo mais rápido. Essas variáveis sao vitais na estratégia da adaptação.

Para quem pode adequar, ou customizar, a preparação física, na quadra dura a ênfase pode ser na velocidade, nos passos curtos de ajustes e um tenis mais anaeróbico. Na terra, o investimento seria na durabilidade e no aeróbico, para durar nos pontos mais longos, no escorregar, na qual os americanos, por exemplo, sao quase ignorantes.

Como na dura a idéia é abreviar e no saibro é alongar os pontos, o pessoal com instinto mais matador, que se dá melhor nas duras, é obrigado a abraçar um espirito mais paciente, com uma mescla mais intensa de ataque e contra ataques, uma perspicácia maior para a transiçao do defesa para o ataque, e vice versa, uma atenção e concentração maior, para bem avaliar as mudanças dentro do ponto e ficar vivo até a hora do bote final que, ao contrário das duras, acontece em um crescendo de golpes, alternâncias e colocações.

A esta altura alguém já está perguntando: se é assim como o Paulo Cleto escreve, porque um cara como o Murray, que adooora correr como uma gazela no cio na floresta de Nottingham, um animal tático de primeira linha, nao se dá bem na terra? Simples! Nao basta correr, tem que ter os golpes apropriados – o principal sendo aquele top spin que mencionei acima. Tem que saber, e poder, expulsar o adversário de dentro da quadra (vejam o El Gancho do Nadal). Tenistas como o Murray, o Hewitt sao contra atacadores que vivem da força alheia, nao conseguindo gerar tanta velocidade e spin nos golpes, especialmente na direita. Mesmo um tarado como o Berdich, que tem a mao pesada e consegue fazer a bola andar barbaridades, sofre na terra, porque nao tem o corpo correr por muito tempo, só joga reto, que nao tira o adversário da quadra e, pra machucar, corra mais risco a cada golpe, quando aparecem os erros precoces. Ele, como alguns outros, só gosta de joga em cima da linha, utilizando praticamente nada do movimento de “sanfona”, de defesa para ataque e vice-versa.

Com isso, saliento outra mudança tática para o Zé Nilton. Uma coisa que o tenista tem que fazer, mais do que na dura, é fugir com maior frequencia da esquerda e atacar com sua direita. Na terra, esquerda nao ganha jogo (ela evita que você seja derrotado); é preciso, na maioria das vezes, do forehand para dar uma bola vencedora no barrão. E mesmo aí tem um probleminha. Alguns tem o golpe tao reto que se ficam ali dentro da quadra, tentando pegar a bola na subida, podem dançar. Porque, ao contrário da quadra dura, que tem o quique uniforme, no saibro podem ter os morrinhos artilheiros e desvios alhures. Mais atrás da linha, onde fica a espanholada, dá tempo de ajustar e evitar o erro – alí na frente é preciso muita mao para o ajuste e mesmo assim nao sai mais aquele torpedo definitivo. Até por isso, uma outra diferença – uma quadra de saibro de primeiríssima é muito diferente de uma de primeira.

Treinei um tenista no circuito profissional que no 2o serviço na terra, usava o spin, alto e longo. Ele mirava na linha do saque, investindo em um desvio da bola, por menor que fosse, na linha ou na junçao da linha com a terra, para forçar um erro, nem que fosse uma devoluçao defeituosa, para partir do ataque. Um grande tenista nao tem medo de dupla falta. Dupla falta na rede é coisa de quem encurta o braço; a longa é de quem quer ganhar jogo – especialmente se você nao estiver no “clube dos com mais de 1.90m”, quando sacar é mais simples. Na quadra dura, um daqueles fantasmoes dá um sacao e faz 15×0. Mesmo os nao tao fantasmas sabem que se encaixarem um bom primeiro saque a porcentagem de vencerem o ponto é alta (de 80% pra mais). No saibro essa porcentagem é menor, o saque menos decisivo e por isso a mudança do saque reto para o com spin, para investir na expulsao do oponente de dentro da quadra e evitar os ataques de resposta de serviço. Além disso, na dura se saca bastante o 1o serviço fechado (no meio), na terra se saca mais aberto, em especial no lado da vantagem, para se abrir a quadra e iniciar a correria.

O que nos leva a outra adaptaçao. A da resposta de saque. Se na quadra dura dá pra vir para cima da linha e bloquear, no saibro é melhor ficar mais atrás, deixar a bola perder a força e alongar a devoluçao. É só lembrar do Gustavo Kuerten, em uma situaçao que deixava seus fas intrigados, já que achavam que ele deveria ficar mais à frente o saque.

O que me leva a conclusao final: a maior adaptaçao que o tenista deve fazer é a mental. Se o cara vai para a Europa sem saber como e sem adaptar com o que vem pela frente vai dançar ( o inverso também é um fato). Mais do que nunca os tenistas estão preparados para chegar a tudo quanto é bola e mandar mais uma de volta; e com potência, colocaçao, variaçao, buscando neutralizar um ataque. A cada vez que alguém é obrigado a executar um golpe a mais, aumenta a probabilidade do erro, que é a estratégia final no saibro. No início da temporada de saibro é necessário o tenista rever sua tática e, especialmente, sua mentalidade, aceitando que vai passar mais tempo em quadra, abraçando o sofrimento, se propondo a correr como um desgraçado para fazer um mero 15.

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sexta-feira, 14 de novembro de 2014 Masters, Porque o Tênis., Roger Federer, Tênis Masculino | 12:35

Fio da navalha

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Até o 6/0 3/0 assisti o jogo entre o Boniton e o BIpolar com a devida distância que um joguinho sem vergonha determina. Afinal, o interessante de uma partida de tênis é a competiçao, o mano a mano, a luta de indivíduo em se sobrepor ao seu oponente. Se é para assistir um treininho inócuo entre dois cachorroes, prefiro acompanhar um pega para capar entre dois pangoes.

Por conta da semi palhaçada que o MalaMurray apresentava para seu público concentrei em minhas trivialidades no computador; o e-mail pedindo uma grana para atender os ionomanis estava mais interessante – será que em um eventual confronto com as forças bolivarianas da Venezuela eles seriam nossa primeira fronteira ou nao passariam de uma Linha Maginot, ou pior, tentariam formar um estado independente e fazer uma parceria com o Eike para a exploraçao de petróleo na Amazonia? Se isso é o que passava por minha cabeça, imaginem o quanto estava interessante a partida.

Mas no 3×0 mudou o clima. Foi o primeiro game que Murray realmente tentou defender seu saque. Provavelmente porque foi só ali que o incapaz percebeu que poderia tomar um duplo 6/0 e voltar de bicicleta para a mansao que deve dividir com a mae e a namorada. Brincalhao. Tentou, mas nao conseguiu. O Bonitao estava esperto no placar.

No 4×0 Federer passou por cima e abriu 6/0 5/0. Um burburinho silenciou o O2. O game da 0/5, no serviço do Murray, foi o único sinal de vida do escocês britânico. O game chegou a ficar 0x30 quando uma espessa nuvem de incredulidade encheu o estádio – e eu só tentando imaginar as manchetes dos impiedosos jornais britânicos no dia seguinte. Acho que foi exatamente isso que chacoalhou o animo do brincalhao-mór. Ele sacou bem, ainda defendeu o mais vergonhoso dos MP de sua carreira e acabou escapando, com um saque vencedor de um vexame inominável. Uma farsa que quase se tornou histórica.

Está todo mundo fallando que o Federer jogou barbaridades, gênio etc. Sim ele jogou muuito. Mas isso vai saltar aos olhos toda vez que ele pegar um cachorrao sem a menor vontade do outro lado da rede – vai passar o rodo. Só a briga do adversário que impede que um tenista, especialmente do calibre do suíço, deite e role.

No aperto de maos os dois trocaram algumas palavras acompanhadas de sorrisos marotos. Do tipo – “pô velho, você estava afins de me humilhar!!! Pois é, malandro, fica espero e paga um fishandchips do bom porque eu manerei no final”. O Federer brigou para meter um duplo 6/0, mas teve a cara de pau de dizer que se sentiu constrangido. Sei…

Aliás, o torneio até agora foi um fiasco. Nos primeiros quatro dias, todos os jogos decididos em dois sets – sem brigas ou emoçoes. Precisou entrar o operário Ferrer, que estava de stand-by, para mostrar como se vende uma derrota caro e com vergonha na cara.

Historicamente os tenistas nunca souberam lidar com esse formato de grupos! Este sempre ficou aquém das expectativas e sempre foi um desapontamento, tal qual esta semana – mostrando, mais uma vez, ser necessário uma mudança. Suponho que as semis sejam mais interessantes, até porque se assemelham aos torneios que eles estao acostumados. Tenista gosta de bafo no cangote, andar na lâmina da navalha, de pressao. Esse negócio de perder uma partida e ainda vencer o torneio nao entra na cabeça, ou no emocional deles. A nao ser de um Gustavo Kuerten, que renasceu das cinzas para vencer e se tornar o numero 1 em 2000. Aí nao tem como nao gostar.

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