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Arquivo da Categoria O leitor escreve

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011 Light, Minhas aventuras, O leitor escreve, Tênis Brasileiro, Tênis Masculino | 15:35

ATPanga

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Para quem está pensando em assumir menos e menos compromissos eu devo estar fazendo algo errado. Na sexta-feira, estava fora de São Paulo, tentando acertar os compromissos do fim de semana. No Domingo eu tinha um em São Paulo e outro fora. No sábado em tinha o ATPanga em São Paulo, mas estava fora da cidade. Sim, confuso, e é isso que aqui menciono.

No fim, como sempre, uma decisão se toma. No Sábado parti em direção a São Paulo. O céu estava desencorajador, a viagem é mais do que curta, mas os Ipods resolvem a questão – som de estrada nas caixas e lá vamos nós. Só uma coisa me incomodava. Para alguém do meu status e responsabilidade eu estava a ponto de dar uma bela pisada na bola. Eu ia encontrar meus caros leitores em um evento tenistico e estava sem um sequer dos meus tacos (raquetes) na mala. Sim, eu os esquecera ao sair de São Paulo e o caminho para o YCP é totalmente fora de mão. Iria, literalmente, chegar de mãos abanando.

Apesar da garoa fina e forte que caia sobre a cidade, descobri que o pessoal, todos tenistas e nenhum sofasista, se adapta. Chove? É hora do almoço! Parou, é hora de jogar.

Quando cheguei o pessoal estava terminando de pedir seus pratos. Logo inseri meu linguado na história e sentei no local indicado pela eterna e irreparável anfitriã Maysa e seu assessor O Barão.

Antes cumprimentei a todos; os que conhecia pessoalmente e os que conhecia virtualmente. Sentado no meio da longa mesa me senti, mesmo que por um átimo de segundo, como o Senhor cercado por seus apóstolos. Por favor, não há comparação e nem me atrevo a me alongar, mas, confesso, senti, em um flash, uma aureola sobre a cabeça enquanto já pensava na sobremesa – um bolo de chocolate, verdadeiro manjar dos deuses.

A Maysa foi gentil e prestativa o bastante para agendar um rodízio de assentos durante e após o almoço. As pessoas vinham e conversavam, trocávamos ideias, debatíamos de tudo e mais um pouco que fosse relevante à nossa paixão – de Federer e Nadal a leitores mais controversos. Não vou aqui reproduzir as conversas, que, confesso, foram do maior interesse tenistico, quando não filosófico – até porque se a curiosidade é grande, o Barão me garante que o próximo ATPanda não tardará.

Mesmo sem que a conversa caísse um tantinho sequer, algum tenista impaciente olhou pela janela, viu que há algum tempo a chuva não caia e logo soltou o verbo; “nós viemos aqui para jogar ou conversar?” Não me pareceu haver alguma resistência em contrariá-lo. O Giulianno, dono da direita sinistra, logo me emprestou um de seus tacos. Em breve estavam todos com suas raquetes em punho marchando em direção às quadras, que, por conta das insistentes garoas, estavam com aquela cor berrante de saibro vermelho, o que sempre é um convite – pelo menos para o tenistas – para o pecado mais contundente que o mais reduzido dos bem preenchidos biquínis.

As duplas logo se emparceiraram, sem maiores delongas com categorias ou sexos. Não se preocupem os de tênis mais ou menos modesto que análises individuais não serão feitas. O importante, como sempre o é em quadra, é que a paixão pelo tênis derruba qualquer preconceito.

Ainda fomos interrompidos, mais uma vez, pela garoa. Nos refugiamos e, até com certa pressa, voltamos à quadra, aí já com os holofotes acesos. As quadras, apesar de pesadas pelo excesso d’águas, como adoram os espanhóis, estavam ótimas. Todos aguentaram até o fim, mesmo aqueles que tinham compromissos com voos, como o elegante casal Martin H, que não só nos honrou com sua presença – eles vieram dos arredores de Porto Alegre – como nos brindaram com bonés vermelhos celebrando a suíça, ofertados pelo Consul helvético que, por acaso, é pai do rapaz. Ontem mesmo já inaugurei o tal.

Saí do YPC já noite e carregando um outro presente; um exemplar do livro de contos “Mar de Hitórias” gentilmente ofertado e dedicado pelo caro Marcos Pessoa. De lá pegamos a estrada e voltamos para o interior. No caminho eu a esposa repassamos detalhes do encontro. Entre as várias lembranças, um detalhe foi ficando claro. Não posso abrir mão de tais encontros e, prometo, da próxima vez tirar um pouco do ônus da anfitriã e do organizador e tratarei de incrementar ainda mais o nosso ATPanga.

Para completar, peço que os presentes nos brindem com suas histórias e fotos do ATPanga.

Os pangas.

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segunda-feira, 28 de novembro de 2011 Curtinhas, Light, O leitor escreve, Tênis Masculino | 20:03

Encore

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Uma leitora, Maria Helena, envia a caricatura abaixo, de um jornal canadense. Infelizmente não envia maiores informações, mas o assunto tem a ver com o Post anterior, o assunto do momento. Quem tiver mais infos a respeito nos envie.

O título é algo como: Federer mais uma dá a volta por cima.

Diz o Djoko: é pelo menos a 3a vez que cavo sua tumba

Diz o Murray: e ele nos enterra a todos.

Diz o Nadal: …….

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segunda-feira, 13 de junho de 2011 O leitor escreve, Tênis Masculino | 11:51

Leitor em Paris

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Mais uma vez um leitor, Alexandre Macedo da Penha, tem o trabalho e a cortesia de nos enviar seu relato, e fotos, sobre sua visita a um torneio – Roland Garros. Adicionando ao interesse, Alexandre nos conta como foi que adquiriu ingressos, algo que nossos leitores estão sempre perguntando.  Como é quase sempre o fato, inclusive para mim, a visita a Roland Garros é mais um caso de emoções do que qualquer outra coisa. Agradeço.                        

Impressões sobre Roland Garros 2011

Vou relatar as impressões sobre minha primeira ida ao torneio de Roland Garros, edição de 2011. São impressões puramente emocionais e leigas.

Comecei a planejar a viagem e ida ao torneio no fim do ano passado (2010) e procurei saber com algumas pessoas que já tinham ido sobre a compra de ingressos. Fiz meu cadastro no site oficial do torneio e fiquei aguardando a data inicial para comprá-los. Essa data foi no dia 23 de fevereiro. Acessei o site às 8 horas, fiquei esperando na fila de acesso por 1 hora e só consegui comprar um ingresso para o segundo dia (segunda-feira, 23/5). Quando fui tentar comprar outro ingresso para o quarto dia, não havia mais ingressos. Como não queria ir somente para um dia, contatei uma agência conhecida de São Paulo que lida somente com torneios de tênis e comprei o outro ingresso por 5 vezes o valor original do bilhete.

Da confirmação da compra dos bilhetes até a entrada no complexo de Roland Garros, tive que conter a ansiedade, principalmente nos dias próximos ao torneio. O acesso da Champs Elysees (próximo onde estava hospedado) foi feito de metrô, bem tranqüilo. Percebe-se várias pessoas que também estão indo ao torneio. Ao descer da estação e caminhar até a entrada do complexo, a emoção aumentava e a atmosfera do torneio já tomava conta da região.

 A entrada para as quadras, para minha surpresa e contrário a alguns comentários, foi tranquila e bem organizada. Ao entrar me veio à memória um fato que me ocorreu há 33 anos, qunado meu pai me levou pela primeira vez ao Maracanã para assistir uma partida do querido Vasco da Gama. Foram sensações que se misturaram, pois entrar naquele templo do futebol aos 8 anos foi uma emoção que até hoje não esqueço. Em Roland Garros, confesso que a emoção não foi a mesma, até mesmo porque ao 42 anos já não nos emocionamos tão facilmente, mas foi uma sensação diferenciada e tive a certeza de ser um privilegiado por estar naquele local.

 No princípio fiquei um pouco perdido, pois as indicações das quadras não são muito claras, e como cheguei a Paris na noite anterior, não tive como ver a programação das quadras. Também não é fácil obtê-las, aí percebi que tinha que comprar por 2 euros o jornalzinho do torneio. A partir daí, ficou muito mais fácil para me programar e assistir os jogos das quadras auxiliares e da Philippe Chatrier.

 O torneio, apesar dessas pequenas deficiências com relação a indicações das quadras, é muito bem organizado, e as pessoas que trabalham (na maioria jovens) são muito simpáticas e falam várias línguas.

 A atmosfera, tanto dentro das quadras quanto no complexo, é fantástica: são torcedores e amantes do tênis que entendem do esporte e o respeitam muito e que, mesmo torcendo por seus favoritos, sempre respeitam o jogo e os jogadores. As exceções são contidas muito rapidamente e com eficiência.

 Apesar de tudo funcionar bem, fica a sensação de que realmente o torneio tem que conseguir ampliar seu espaço físico, pois quando acaba um jogo na Philippe Chatrier, ou o jogo não é tão interessante nessa quadra, fica uma aglomeração muito grande no complexo e o acesso às quadras auxiliares fica impraticável. Mas no geral o torneio é bem organizado e não se pode reclamar de falta de conforto nos espaços oferecidos, principalmente com relação aos banheiros, restaurantes, bares e lojas.

Deixo agora algumas impressões sobre os jogos e alguns jogadores que vi, como Federer, Djokovic, Monfils, Bellucci, Berdych, Feliciano Lopes, Hanescu, os irmãos Bryan, Schiavone, Wozniacki, Murray , Gasquet (esses dois últimos treinando) e outros.

O que mais me impressionou foi Federer, que, como me diz um amigo espanhol, se parece com  Zidane jogando, dá a impressão de que está flutuando, é um deleite ver o “cara” jogar.

Djokovic, nas duas partidas que vi, estava sobrando, com uma confiança poucas vezes vista, batendo e se movimentando acima da média.

Monfils é um jogador com um físico fabuloso e com uns “tiros” de direita impressionantes, mas a cabeça não ajuda muito.

Bellucci jogava com confiança, mas às vezes parece que demora um pouco a fazer a leitura do jogo.

Mais um dos leitores que teve o trabalho e a cortesia de enviar seu relato e fotos de sua aventura em Roland Garros. Adicionando ao interesse, ele nos conta como conseguiu seus ingressos.

Mas os que me impressionaram muito foi ver os “brothers” Bryan jogando, têm muito entrosamento, movimentação e na rede intimidam os adversários.
 
 Para finalizar, quero dizer que fiz esses comentários para tentar repassar um pouco daquilo que foi a realização de um dos sonhos que tinha, ir àquele que considero o Maracanã do tênis, misturando emoções e prazer ao ver uma espetáculo que jamais esquecerei, tanto quanto aquele que presenciei no distante 1978, no Estádio Mário Filho.

 

 

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segunda-feira, 6 de junho de 2011 O leitor escreve, Tênis Masculino | 15:38

O acaso

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 Mais uma vez escolho um texto que, acredito, acrescenta. No caso, ao texto meu “Atitude”, logo abaixo. O comentário é de um de nossos velhos conhecidos e fã de carteirinha do suíço Federer – Martin H, de helvético. Divirtam-se:

Quando se diz, num sentido conotativo, que o Federer “perde para ele mesmo” em certas ocasiões – e não para o adversário – esse teu texto devia ser colocado no rodapé, para compreensão dos desinfelizes sobre o sentido da expressão “perde para ele mesmo”.

O maior exemplo disso (do “perde para ele mesmo”) está NÃO na tão comentada deixada para fora do Federer quando o Nadal sacava na vantagem contra em 2×5 do primeiro set, mas SIM no voleio errado do Federer sacando para fechar o set, no game seguinte, com breakpoint contra (um voleio muito mais fácil que todos os outros que ele fizera com precisão na partida até aquele momento).

Aquela deixada – ela entrar ou não entrar, eis a questão (do tênis) – foi obra do ACASO (assim como foi obra do acaso a bola do Nadal que resvalou na linha quando ele sacava em 0×40 logo no início do quarto set, ainda sob o impacto de ter recém perdido o set anterior, após o que o Federer parece ter desistido do jogo). Agora, esses apagões táticos do Federer, como nos momentos que se seguiram aos dois acasos (deixada para fora e bola resvalada na linha), esses revelam o que o Cleto declarou no texto: esse algo que “lhe entra na cabeça que o impede de praticar um tênis, do começo ao fim, e lhe possibilite bater tal valoroso adversário”. Chamaria isso de falta de RESILIÊNCIA diante do acaso – notadamente do acaso que lhe é circunstacialmente adverso.

Essas duas bolas do ACASO (deixada para fora no primeiro set, Nadal sacando em 2×5, desvantagem; e resvalada na linha no início do quarto set, Nadal sacando em 0×0, 0×40) foram AS DUAS BOLAS DO JOGO. Não pelo acaso em si, mas pela falta de RESILIÊNCIA do Federer depois das duas bolas, as quais tiraram por um bom tempo o seu padrão de jogo (notem que, depois da primeira bola, ele tomou sete games seguidos; depois da segunda bola, perdeu seis games dos sete jogados).

Daí fica fácil explicar minha “provocação” torcedora de dois posts atrás. Digo, em minha defesa, que ao contrário do que uma leitura apressada do meu comentário pode revelar, não falava que o título do Federer de RG09 não tinha tido “valor” por ter acontecido uma única vez. Dizia que não se saberia se era ou não obra do “acaso”. Não SÓ do acaso (5 vezes finalista do torneio desmentiriam facilmente um imprópério desses, diferente do que ocorre, por exemplo, com o Nadal no USO). Mas a conquista do Federer em RG09 foi TAMBÉM do acaso, ou, se quiserem, de acasos vários (sendo o maior deles, evidentemente, o Nadal não estar na final).

Aliás, esta é uma das grandes belezas do tênis (e, seguramente, a beleza do tênis que mais entra em sintonia com o que ocorre no “mundo da vida”, como é lucidamente explicado naquele precioso filme Match-point, do Woody Allen): o papel do acaso.

É o acaso que implica a grande dicotomia mundana, isto é, a dicotomia entre aquilo que vivemos e que nos foi traçado e aquilo que vivemos que é contingência.
Destino e contingência. Aquele limitando nosso arbítrio; esta nos pedindo por ele. Aquele nos oferecendo o talento; esta nos oferecendo a tática.
Que em Wimbledon, Federer comungue um pouco dos dois.

É o pedido desse reles “torcedor”.

 

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quarta-feira, 20 de abril de 2011 O leitor escreve, Porque o Tênis., Tênis Brasileiro | 08:44

Porto das Pedras

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Recebo uma mensagem do nosso Barão, figura indócil que não se contenta em ser mero leitor do Blog, agitando, com elegância perene, o network e a diplomacia do ambiente. Flávio B, como também é conhecido, mantêm vasta rede de contato com leitores e envia este email que lhe chegou, enviado por outro leitor. Como o assunto é relevante, interessante e pitoresco, não hesito em dividir com os meus leitores.

Aproveito e envio os meus parabéns à Prefeitura de Porto de Pedras, Alagoas, pela iniciativa que demonstra uma paixão verdadeira pelo esporte, além de uma consciência social ímpar neste país onde o falatório e as promessas vãs são padrão e as ações públicas em benefício do esporte tendem a ser relegadas a um papel secundário ou interesseiro.

Abaixo, com a palavra, Tácito Albuquerque, de Alagoas.

Não se pode querer que surjam novos “Gugas” a cada temporada, isso é impossível. Nossa base é que precisa de mais lastro. Um dos grandes pecados do Brasil é o número de quadras públicas que existem, pouquissimas.

Pra ser sincero não é por falta de condições, pois em fevereiro deste ano fui à cidade de Porto de Pedras, litoral norte de Alagoas e visitei esta cidade de apenas oito mil habitantes, pequenina. Pra se ter uma idéia, a fachada da prefeitura não tem dez metros de largura. Pois bem, eles construiram três quadras de saibro muito bem instaladas, coincidentemente na mesma rua da prefeitura, na verdade se não fosse na mesma rua, seria na outra que fica atrás, ou em algumas transversais, não tem mais opções.

Mas estão lá, construídas, com professor contratado e pago pela municipalidade dando aulas todos os dias a cento e sessenta crianças e jovens do município. Um exemplo que deveria ser copiado. Se por um acaso isso fosse comum nas cidades brasileiras, nós teríamos uma oferta muito maior de tenistas no dia a dia.

Além do que tira das ruas os jovens que não têm opções de trabalho, criando no esporte uma esperança de dias melhores, sem ter que enveredar pelo mundo das drogas. Neste dia que
fui era um domingo à tarde, não tinha nenhuma atividade nas quadras, mas das crianças que encontrei na beira mar quase todas jogavam tênis e me disseram que gostavam de
praticar esse delicioso esporte.

Inclusive a prefeitura oferece as bolas e as raquetes para os alunos, quem controla e guarda nas dependências do complexo é o professor Edinho, este forte que aparece em algumas fotos, que é o responsável por toda estrutura, um exemplo para o estado e ao país.
Segue em anexo algumas fotos do complexo de tênis construído em 09/06/2006 pelo pequenino municipio no litoral norte de Alagoas, distante 110 km de Maceió.

Sds Tacito Albuquerque

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sexta-feira, 25 de março de 2011 O leitor escreve | 22:27

Pais

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Não é a primeira vez que publico um comentário do leitor Martin H. Mas, se ele continuar me emconando com suas escritas o fato continuará a acontecer. Óbvio, seu comentário tem tudo a ver com o Post – Pega a bola, papai. Divirtam-se:

Embora não esteja frequentando o blog como gostaria, por motivos vários (os quais são conhecidos por alguns aqui, como o Flávio, como se nota mais acima), tive a estranha sensação de que havia algo para mim aqui hoje. E meu faro não me enganava, premiado que fui com o post do Cleto e, especialmente, com os comentários do Flávio e do Ferracini.
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Impossível ficar incólume a eles na direta medida em que se faz impossível ficar incólume à relação pai-e-filho que eles evocam – e evocar é mesmo a melhor palavra aqui, onde a trindade se manifesta pela experiência, não só pelo espírito.
De fato, a relação pai-e-filho, no corte transversal onde aparecemos filho, tem essas duas interessantes peculiaridades:
– primeiro, ela existe sempre, ainda que se a queira negar pelo motivo do pai (nunca do filho) espúrio;
– segundo, ainda que sejamos, um dia, pais, coadjuvaremos nosso papel de filho sempre por mais tempo do que protagonizaremos nosso papel de pai. Nosso pai, ainda quando em ausência física, martela em nossa memória e em nosso devir até na morte da nossa consciência.

Talvez Freud nos tenha atentado com peculiar clareza a isso, em sua identificação do pai à lei.
A representação de Freud, embora sublime, é, entretanto, insuficiente, pois não deixa inferir o quanto de amor há nessa lei.
E quando pensamos em lei e amor, usualmente, não conseguimos enxergar que ambas tem um mesmo e único fundamento. Na contemporaneidade dos valores adormecidos, aliás, lei e amor parecem até se auto-excluir, no lugar de se auto-conservar mutuamente.

Posso estar enganado, me corrijam se estiver, mas em um retrato caricato do pai de ontem e do pai de hoje, isso parece ganhar um exemplo que facilita a compreensão.

Na caricatura do pai de ontem, víamos a lei suplantar o amor. O trato por “Sr.”, o distanciamento, o silêncio quando a fala não era provocada, a impossibilidade de contestação, isso tudo negando o afeto entre duas figuras tão próximas quanto a do senhor e do escravo.
Não é de estranhar, em um tal paradigma, a flamante “Carta ao Meu Pai”, de Kafka, que inicia assim:
“Querido pai: perguntaste-me certa vez por que motivo eu afirmava que te temia. Como de hábito, não soube o que te responder, em parte exatamente pelo temor que me infundes, e em parte porque os pormenores que contribuem ao fundamento deste temor são em demasia para que os possa manter reunidos (…) e a magnitude do tema está além da minha memória e compreensão.”

Na caricatura do pai de hoje, vemos o amor (um tanto desfigurado, posto que é uma amputação da culpa por ausência reiterada) suplantar a lei. A falta de respeito, a subtração da noção de hierarquia, os desmandos constantes, um mundo de púberes plenipotenciários onde o “não!” é uma palavra banida. Não é de estranhar, em um tal paradigma, o fato que li esses dias no jornal: um aluno que, após ter recebido uma nota diminuta – merecidamente diminuta – de sua professora, desandou a lhe agredir, ordenando que ela aumentasse a nota, o que ela, se o fizer, terá de fazer depois de sua internação no hospital.

Não consigo perceber um momento histórico em que lei e amor estiveram, na média das situações cotidianas, ambas presentes nas relações entre pai e filho.
Eu disse, atenção!, que não consigo perceber um MOMENTO histórico em que isto tenha ocorrido na MÉDIA das situações cotidianas.
Consegui perceber, outrossim, se não à macheia como deveria ocorrer, ao menos em exemplos diversos, relações entre pai e filho carregados dessas duas importantes e indissolúveis características. E mais, tenho a imensa sorte de viver – e estar vivendo espero que por muito tempo – uma delas.
Os exemplos dessa minha relação com o meu pai e que mostram mais a grandeza dele do que a minha (parte das quais o Flávio pode testemunhar em Gramado), eu os guardo para mim, seja pela intimidade, seja por possivelmente sequer serem de interesse geral.
Mas lembro, aqui, de um episódio da história da nossa música que, se não ocorreu entre um pai e um filho, demonstra bem como, para mim, deve ser pautada uma relação entre um pai e um filho.
Foi entre Tom Jobim e Roberto Menescal.

Tom, segundo o próprio Menescal relata em um documentário, nunca disse a Menescal que este havia tocado uma nota errada. Sequer alguma vez sugeriu a sua substituição. Ao repassar a música, porém, tocava-a de um modo diferente, como quem errasse, e dizia a Menescal: “É assim… não?” E Menescal, vendo a nota nova que Tom fizera, entendia que não era “assim” que ele havia feito, mas que aquele “assim” do Tom era muito melhor que o “assim” dele.

Feliz do pai que, tal qual vimos na vocação paterno-pedagógica do Tom Jobim, consegue infundar em seu filho a lei, como deve fazer, e que, além disso, consegue operar isso com amor.
Está aí uma virtude para poucos e bons pais: mostrar os caminhos a seu filho – sublinhando, ainda que tacitamente, que há os certos e os errados –, mas que, dentre os certos, ele próprio deve escolher.
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E aqui termino esse texto que me tira um pouco das tarefas diárias, mas que serve, dentre outras coisas, para encher meus olhos de uma renovada admiração por meu pai e pelo pai que almejo ser.
Termino olhando a foto do Federer pai, e pensando no quanto ela é pitoresca, simbólica e representativa da figura de um pai.
Sim, porque depois de mostrar para o filho a porta da lei e os caminhos que ele pode seguir (no que, pela biografia do Federer filho, acredito que o Federer pai foi bem sucedido), aparece uma segunda função do pai: juntar os cacos quebrados quando a escolha por um ou outro caminho do filho foi errada.
Ou as bolinhas amarelas, se preferirem.

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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010 Light, O leitor escreve | 18:49

ATPanga

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A pedidos, mais um Post do Leitor. Desta vez, do Barão, o nosso porta voz e diplomata, que foi, junto com a Maysa, o responsável pelo II ATPanga nas quadras à margem da represa. Os detalhes, eu deixo por conta do nosso amigo Flávio.
 
 
“O ser humano parece ter uma necessidade eterna de perguntar porquês, de procurar co-relações, buscar heróis ou encontrar coincidências e, ao que parece, dificilmente algo disso irá mudar durante o resto de sua existência nesse planeta. Dessa forma, deixa-se de lado qualquer tentativa de se analisar as coisas pelo ponto de vista que deveria ser sempre o primeiro, ou seja, que essas coisas podem ocorrer de forma natural e sem nenhuma necessidade extra de alinhamento dos planetas, forças desconhecidas ou pontos de vista diferenciados para se explicá-las, se é que precisam de alguma explicação.
Às vezes, sentado em algum canto com o olhar distante, meio que do nada relembro cada encontro que tivemos desde aquele maravilhoso e encantado 14/11/2009. Ainda me recordo claramente da imagem do Cleto chegando às quadras e perguntando quem foi que teve a idéia de marcar o início do encontro para as nove da matina de sábado. Estava na quadra logo a frente da arquibancada, jogando um set com o Marquinhos Pereira, enquanto a Maysa e outros abriram os braços para receber o “Patrão”. Só não me lembro se ele me ouviu, ao levantar o braço e “confessar” o crime.
A mesma pergunta que deve ter vindo à nossa mente com certeza estava na dele: no que vai dar isso aqui? Nós, participantes constantes do blog como comentaristas, ele, renomado esportista e jornalista, pessoa conhecida na mídia e que se dispôs a encontrar ao vivo e nas quadras gente que fazia parte do seu dia a dia de blog. Ainda lembro, na hora do almoço, quando ele falou a todos sobre sua expectativa e que, ao final de tudo, desarmou seu espírito e deixou o barco correr, desse no que desse, naturalmente.

Pouco mais de um ano após aquele encontro, tivemos agora em dezembro uma espécie de reedição, a qual carinhosamente batizamos de ATPanga Finals, em homenagem a nossa classe de tenistas amadores e eternamente apaixonados por esse esporte. Aos encontros menores, sobrou o título de ATPanguinhas, vários ao longo do ano aqui em Sampa, às margens da represa Guarapiranga, no oásis que é o Yatch Clube Paulista. Infelizemente, não pudemos contar nesse último com a presença do Cleto e de muitos amigos que não tiveram como viabilizar suas vindas. Mas haverá outros encontros, sem dúvida alguma.

Apesar de não gostar muito dessa estória de enxergar “coincidências cristalinas” onde talvez só haja o desenrolar normal da vida, alguns fatos até dão vontade de se procurar o “lado místico” da coisa. Em todos os encontros, que são realizados num local de quadras descobertas, sempre fez tempo bom, para não dizer ótimo, mesmo em épocas de chuva. Todo novo participante que chegava a cada encontro se entrosava com uma rapidez fantástica com os demais. Nunca houve uma rusga sequer, é o tempo todo de bate-papo, jogos, brincadeiras, tirações de sarro e o momento sagrado à mesa, onde as conversas ficam mais confortáveis e interessantes.

Mas, como eu não sou da turma que procura cartomantes e ciganas, prefiro creditar o bom astral ao fato de todos ali “comungarem a favor”, o que sempre traz coisa boa de volta.

Neste final de ano, tivemos a chance de conhecer pessoalmente amigos que antes eram apenas virtuais, como Ferracini, Eduardo J. (acho que somente eu já o tinha encontrado), Eder e Renato Z., fora o retorno do Giuliano (só tinha vindo no primeiro) e a presença das figurinhas carimbadas de todo encontro que ocorre lá: Maysa, Flávio B., Jeff Guimarães, Marquinhos Pereira e a aniversariante Adriana A. e seu amado namorido Silvio. Sentimos a ausência de outros que já estiveram conosco e não tiveram como voltar em dezembro, caso do carioca Alexandre Rodrigues (que vem de ônibus do Rio, passa o dia conosco e volta de ônibus para lá), do Felipe B., Martin A. e André Becker, se não cometi a falha de esquecer algum nome.

Não sei ao certo se o pessoal está aprendendo através do convívio no blog e das transmissões de televisão, mas ficou clara a evolução da maioria em relação ao ano passado, não só técnica como fisicamente:

Adriana A. deixou de ser aprendiz de feiticeira e já está cozinhando algumas de suas próprias receitas em seu caldeirão de tenista. E, para quem assiste a WTA, uma agradável surpresa: está indo à rede!

Maysa melhorou o serviço ao longo do ano e mostrou que a evolução de terceira para segunda classe não foi adquirida na garganta e sim nas quadras, além de continuar a guerreira de sempre, inconformada com qualquer ponto perdido, embora nesse encontro estivesse em briga eterna com o último encordoamento de suas raquetes.

Jeff diminuiu bastante o número de erros bobos, mas ainda peca pela irregularidade que transforma games ganhos em perdidos. Seu serviço também melhorou bastante.

Marquinhos e Edu Jotinha fizeram um set disputadíssimo e bateram na bolinha com gosto, muito gosto. Edu continua spinnafrando todas suas bolas e Marquinhos indo em todas, por mais perdidas que elas possam parecer, fora o serviço que progrediu consideravelmente.

Tive pouca chance de ver o jogo do Eder, mas ele mesmo já disse pelo blog que prentende investir em melhorias no seu jogo para 2011.

Ferracini foi um show à parte, nunca tinha enfrentado um jogador “carregado” de experiência, com aquele jogo que sai fácil de tanta quilometragem acumulada. Tem o famoso revés de slice raso e angulado, inferno para grande parte dos tenistas, principalmente os que só gostam de dar pancada, além de ser uma figura carismática e ótimo contador de causos.

Giuliano mostrou que a sua direita sinistra é real e vale o quanto pesa. Anda muito a bolinha que sai dali! Apesar do jeitão mais introvertido, meio timidão, está sempre no meio de todos e não faz pose por ter um nível técnico mais elevado que os demais, além de jogar seu tênis sem desdenhar nem encher a paciência de ninguém com reclamações típicas de alguns estrelinhas.

Por fim, nosso simpatíssimo Renato Zorro, um verdadeiro gentleman em quadra e fora dela. E como joga fácil o rapaz! Assistir a um jogo do Renato faz a gente pensar por que tem tanta gente se matando quando o tênis é um esporte tão fácil de praticar … rsss. Esse é outro que deixou o crachá de primeira classe no vestiário e se vestiu de povo, como todo mundo ali, apoiando parceiros e se divertindo com todos.

Falar do almoço ali é chover no molhado (aliás, choveu somente na hora do almoço, para refrescar um pouco). A qualidade da comida daquele restaurante, com a vista da represa e a companhia de tantos amigos torna qualquer dia em visita ao Paraíso. Porém, o que mais chama a atenção é aquele clima que lembra os antigos almoços em família, todo mundo ao redor da mesa e muitas horas de conversas e gargalhadas. Imagino o que não vai ser um almoço desses se um dia Dona Ruth nos der o prazer de sua presença! Aliás, não só ela como muitos outros amigos que há tempos estão se programando e uma hora se juntarão conosco. Só por curiosidade, a lista de emails “cadastrados” do pessoal do blog já tem cerca de 60 nomes!

O ano está acabando e outro dia a Maysa me ligou, pedindo para já ir pensando no próximo encontro, ano que vem. Teremos AO, RG, Wimbledon e US, ATP Finals e outros eventos no circuito profissional. E nós, povo do blog, teremos ATPanguinhas, ATPangas e ATPanga Finals. Tudo isso por um simples motivo: o tênis não pode parar …”

Adriana, Dom Ferris, Barão, Renato Z, Marcos P.

À direita, a hostess perfeita, a pérola do Blog, a “viada” do Pinheiros – Maysa.

 

 

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terça-feira, 21 de dezembro de 2010 O leitor escreve, Tênis Masculino | 13:14

Rivalidade e festa

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Com a festa dos dois confrontos em pró de suas respectivas Fundações, Federer e Nadal encerram a temporada com chave de ouro e concretizando, por mais ambíguo que possa ser para alguns de seus fãs, tanto sua interessantíssima rivalidade, como sua sugestiva e bem vinda amizade, dentro e fora das quadras, um fator tão importante  no ambiente do esporte como o confronto técnico.

Para celebrar essa rivalidade, publico abaixo, como já aconteceu em outras ocasiões, um texto que o faz com muito mais propriedade. Divirtam-se com as palavras de Mártin Haeberlin 

“Amigos do blog:há algum tempo (lá no início do ano), escrevi um texto sobre Federer e Nadal, e sobre essa “diferença complementar” entre eles.
Cheguei a enviar o texto para o Barão (e para o próprio Cleto), mas a ideia era o colocar aqui no blog após um grande duelo entre os dois.
Durante o ano, rebarbei e ornei um pouco mais o texto, inclusive acrescentando a contribuição de alguns blogueiros que trataram do tema durante o ano.
Ocorre que 2010 passou e esse grande embate não ocorreu, seja porque os tenistas sequer se enfrentaram em um torneio do Grand Slam, seja porque os dois parcos encontros ocorridos entre os dois, esse ano, foram “mornos”, ao menos no meu modo de ver.
Já que textos não lidos são textos que não existem, aproveito a ocasião das duas exibições que os dois tenistas farão a partir de hoje (e que serão transmitidas pela ESPN com comentários do patrão) para dividir o texto com vocês.
Fica claro, pelas referências em notas nele contidas, que o texto não deixa de ser uma homenagem ao patrão e a esse espaço criado e mantido por ele, com o qual já aprendi muito, aprendo muito e espero aprender ainda mais no ano vindouro.
Obrigado a vocês pelo convívio virtual de quase todos os dias,”
Mártin
.
Federer, Nadal e a existência de Deus.

Eu sou daqueles que, hegelianamente, creem que os opostos podem, mediatizando-se em teses e antíteses, ir se complementando dialeticamente até uma síntese maior, suprema, nominável como Infinito. Esse é o caminho, único e indelével, quando se pretende provar a existência de Deus.

Como os exemplos da Filosofia para esta doutrina de Hegel, quando há, não são fáceis, tomo um exemplo do esporte, com Roger Federer e Rafael Nadal.

Federer é um tenista suíço, destro, estilo clássico (tênis-arte) e backhand com uma mão.

Nadal é um tenista espanhol, canhoto, estilo contemporâneo (tênis-força) e backhand de duas.

Federer é genótipo de um casamento entre Rod Laver e Martina Navratilova. Nadal é fenótipo de um casamento entre Björn Borg e Steffi Graf.

Federer veste camisa polo branca, short-com-cinto e flutua na grama. Nadal usa manga cavada multicolorida, calça capri e surfa no saibro. Federer tem um quê de retrô chic; Nadal, de underground pop.

Federer é saque; Nadal, devolução.

Federer joga sustenido. Nadal joga bemol.

Federer é eastern. Nadal western. Federer é norte; Nadal, sul.

Federer pratica, com excelência e maestria, cada golpe da cartilha do tênis, acrescentando alguns no livrinho. Nadal tem e escreve o seu próprio livrinho.

Federer é voleio na cruzada. Nadal é passada na paralela.

Federer é follow-through. Nadal é topspin.

O jogo do Federer é lastrado no game point. Do Nadal, no break point.

A raquete do Federer vai ao encontro da bola. A do Nadal, de encontro a ela.

O Federer tem toque e “légèreté”, é um maestro com sua batuta. Nadal tem TOC e “Brutalität”. É um virtuose, de bazuca.

Federer movimenta-se em balé clássico. Nadal, em dança flamenca.

Federer faz bolas impossíveis e inacreditáveis, cometendo uns crimes contra as leis da Física. O Nadal busca essas bolas, cometendo delinquências.

Nadal, em quadra, sofre de taquicardia e, se for preciso, sua sangue. Já o Federer é bradicárdico, tem sangue azul e não transpira.

Federer tem um jogo lírico, de espírito fleumático. Nadal tem um jogo épico, apoteótico.

O Federer joga intuitivamente. Nadal, por instinto. Quando o Federer sofistica, Nadal simplifica.

Federer é front: vai para a disputa verticalmente, explorando o território inimigo. Mas, se é para matar, mata o oponente com injeção letal ou câmara de gás. A arma do Federer é o florete holográfico usado pela Maria Esther Bueno na final de Wimbledon de 1964.

Nadal é trincheira: vai para a guerra horizontalmente, esperando o inimigo. Mas mata como os assírios, de todos os modos (desde que com intensidade). A arma do Nadal é o sabre usado naquela final de Wimbledon, e emprestado pela mão de Margaret Smith.1

Federer é civilização grega e Nadal é Império Romano. Mas, se ambos fossem gregos, Federer seria ateniense e Nadal espartano.

Nadal joga usando a tática para superar a técnica. Federer joga usando a técnica para superar a tática. O tênis do Nadal é eficiente. O do Federer é eficaz.

Nadal é Maradona jogando copa. Federer é Pelé, em campeonato de pontos corridos. Se bem que, na posição em campo, é Federer que estaria mais para um meia de criação, que – movimentado-se pouco – recebe e distribui as bolas, enquanto o Nadal estaria mais para um volante de marcação, que – transpirando muito – consegue roubar as bolas desses meias, e de outros também.

Federer comove-se ressoando um “Allez!” e é campeão reclinando-se aos joelhos. Nadal vibra retumbando “Vamos!” e é campeão jogando-se, de corpo inteiro, ao chão.

Federer, creio, bebemora com Dom Pérignon, borgonha ou chopp escuro na temperatura ambiente, e comemora degustando um prato da culinária francesa, com o olhar no além. O prato, petit; o olhar, blasé. Para sobremesa, fondue de chocolate… suíço.

Nadal, imagino, brinda com Freixenet Reserva Real, bordeaux ou cerveja estupidamente gelada. A comemoração é com um prato de comida italiana, com o olhar no prato. O olhar de “mangia che te fa benne”; o prato, primo, secondo, terzo, quarto. Para sobremesa, pudim de leite muito condensado.

Federer é alimento natural. Nadal, transgênico.

Federer integra chapa da situação e, se tiver que fazer revolução, é uma Revolução Inglesa. Nadal faz partido de oposição, e está sempre pronto para uma Revolução Russa. Nadal tem um “ar” de comunista cubano, mas, no fundo, é monarquista; Federer, de liberal americano, mas parece um republicano.

Os amigos de Federer formam um petit comité cosmopolita. Os do Nadal, um ghetto catalão.

Na Suíça, Federer tem um flat art déco na reservada Oberwil, e o Nadal tem um jeito expansivo de Zurique.

Na Espanha, Nadal tem um palacio minimalista na reservada Manacor, e o Federer tem um jeito expansivo de Madrid.

Federer passa as férias na serra, com a família. Nadal na praia, com a Shakira.

Nas horas vagas, Federer joga polo. Nadal, pratica tourada.

Nas cartas, Nadal é valete de espadas. Federer, rei de copas.

Federer tem a sofisticação de carro inglês, mas dirige um Mercedes-Benz. Nadal tem resistência de carro alemão, mas dirige um Aston Martin.

Para ver as horas, o Federer, embora combine mais com um Patek Phillipe de bolso, usa um Rolex de pulso. Já o Nadal, embora rime mais com relógio digital, usa um Richard Mille.

Assiste-se aos jogos do Federer ouvindo uma orquestra de câmara executando “Air aus der Orchestersuite nr. 3”. Aos do Nadal, ouvindo uma filarmônica tocando “La Tempesta di Mare”. Para os jogos de um contra o outro, é de bom alvitre sobreporem-se as peças.

Num solo, Federer requer piano allegretto grazioso; Nadal, violino allegro appassionato.

Na Filosofia, Federer é Aristóteles na Antiguidade Clássica, Tomás de Aquino na Idade Média, Kant na Modernidade e Heidegger na Idade Contemporânea. Nadal é Sócrates, Agostinho, Hume e Debray.

O filme do Federer é livro de Shakespeare, adaptado por Machado de Assis, dirigido por Bergman, tem fotografia de Michelangelo e trilha sonora de Bach. O do Nadal é livro do Cervantes, com adaptação de Lewis Carrol, é dirigido por Tarantino, tem fotografia de Dalí e música de Vivaldi.

O personagem do Federer é o James Bond, interpretado pelo Sean Connery. O Nadal é interpretado por Stalonne, inspirado num misto de Rambo e Rocky Balboa. Mas, se fosse um musical, como ensinou certa vez um mestre do tênis, Federer estaria para Fred Astaire enquanto o Nadal para Gene Kelly.2

Nas belas artes, enquanto artistas, Federer é um pintor e Nadal um escultor; enquanto obra, Federer é o Davi de Michelangelo e Nadal o Davi de Bernini.3

Na música, Federer é jazz, bossa nova, Beatles e Eric Clapton. Nadal é rock’n’roll, samba-enredo, Rolling Stones e Jimi Hendrix. Na clássica parceria de “Perhaps Love”, Federer é John Denver e Nadal é Placido Domingo.4

Ambos, como disse o mais famoso dos dramaturgos, são feitos da mesma matéria que são feitos os sonhos5, como todos nós; mas eles são iluminados, como poucos.

Parafraseando um dos grandes cronistas do esporte6, Federer e Nadal trocando bolas numa quadra de tênis fazem prova irrefutável da existência de Deus.

E a providência divina é tanta que com eles até Hegel é compreendido.

1 A metáfora do florete (rapier) e do sabre (broadsword) é uma referência a um artigo de jornal da época, citado por Henry Wancke, em “Smith v Bueno (1964)”. Fonte:

2 Analogia feita por Paulo Cleto, em “Super-homens”. Fonte:

3 A primeira analogia foi feita por Alessandro Matteoni, no texto “O pintor e o escultor”. A segunda foi feita por Pedro Berutti, em adendo àquele texto. Fonte:

4 Analogia feita por Glads em comentário ao texto “Porta-bandeira”, de Paulo Cleto. Fonte:

5 William Shakespeare, em “The Tempest”, Ato 4, cena 1.

6 Referência à encontradiça frase “A tabelinha de Pelé e Tostão confirma a existência de Deus.”, de Armando Nogueira, originalmente parafraseada, para o tênis, por Olavo Brito em comentário ao texto “O Poeta”, de Paulo Cleto. Fonte:

http://www.wimbledon.org/en_GB/about/history/1964.html.http://paulocleto.ig.com.br//2009/02/04/super-homens/.http://paulocleto.ig.com.br//2010/09/14/o-pintor-e-o-escultor/. http://paulocleto.ig.com.br//2010/08/18/porta-bandeira/?allcomments#comments.http://paulocleto.ig.com.br//2010/03/29/o-poeta/?allcomments#comments.

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terça-feira, 2 de novembro de 2010 Juvenis, O leitor escreve, Tênis Brasileiro, Tênis Masculino | 15:57

A Suécia é aqui?

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Talvez tenha sido o angst causado pela faca. Mas acabei por esquecer uma ferramenta que eu mesmo inventei e que, no caso, cai como uma luva, até porque o cara já começa a exportar a idéia.

Por isso, publico abaixo o comentário do “Matts – The Producer”, que parece querer voltar a sua forma original e mais brilhante, ao colocar uma faceta inédita da questão levantada pelo “sucesso” do carioca/sueco Cristhian Lindell na Copa Petrobras de São Paulo. Já coloquei, bem “em passant”, o meu pensamento a respeito, que reproduzo após o texto do leitor.

E-Cletico e demais Blo-Cléticos,
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Gostaria de levantar aqui um fato para ser pensado e discutido, sem paixões ou preconceitos, apenas pensando-se no que é melhor para o jogador e para o país.
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O lance é que ultimamente, o até então “desconhecido” da mídia Cristhian Lindell, virou objeto de desejo da CBT, e obviamente da mídia brasileira, já que o carioca joga pela Suécia, alegando ele, uma melhor estrutura e apoio que lá recebe (ou recebeu até o momento).
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Mas vamos aos fatos, e de antemão, já adianto que não conheço nem de perto, nem de longe e muito menos de ouvir falar, como é a rotina de treinamento dele, tanto lá como cá, já que ele treina grande parte do ano com o Aciolly no Rio de Janeiro.
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Com a semi em São Paulo, Lindell deu um salto de quase 90 posições e passou a ocupar hoje o 365º lugar no ranking.
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Pois eis que com isso ele JÁ, repito, JÁ é o atual 4º melhor tenista ranqueado da Suécia.
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Ranking – Nome – Pontos – Torneios Jogados
5 – Soderling, Robin (SWE) 4.780 – 24
283 – Prpic, Filip (SWE) 156 – 20
349 – Ryderstedt, Michael (SWE) 120 – 21
365 – Lindell, Christian (SWE) 111 – 23
395 – Eleskovic, Ervin (SWE) 99 – 19
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Ora bolas, com este ranking, ele seria apenas o 10º tenista do Brasil no momento:
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Ranking – Nome – Pontos – Torneios Jogados

28 Bellucci, Thomaz (BRA) 1.355 – 26
78 Mello, Ricardo (BRA) 642- 21
101 Souza, Joao (BRA) 549 – 26
123 Daniel, Marcos (BRA) 457 – 24
148 Alves, Thiago (BRA) 369 – 25
165 Dutra Da Silva, Rogerio (BRA) 322 – 23
187 Silva, Julio (BRA) 278 – 26
221 Hocevar, Ricardo (BRA) 223 – 29
228 Zampieri, Caio (BRA) 218 – 26
368 Ribeiro Neto, Eladio (BRA) 110 – 17
388 Silva, Daniel (BRA) 103 – 19
394 Guidolin, Rodrigo (BRA) 100 – 18
398 Miele, Andre (BRA) 98 – 26
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Se olharmos bem, tirando o Robin Soderling, o 2º melhor ranqueado deles é apenas o Nº 283 do mundo.
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Enquanto o Brasil tem 2 no Top 100 e 9 no Top 200.
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Então ficam as questões:
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1- Quem está formando mais e melhores tenistas atualmente, o Brasil ou a Suécia?
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2- E mesmo estando o Lindell jogando pela Suécia, quem é o maior responsável pelo seu desenvolvimento até o momento, seu técnico brasileiro ou o sueco?
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Alguém pode até alegar que a Suécia já teve este ou aquele jogador, mas nós também já tivemos o Guga, e ponto final.
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A mim, a distância, me parece mais o seguinte: é mais fácil o Lindell, dada a fraca concorrência lá, se tornar rapidamente o 2º melhor sueco do ranking, e assim, ao lado do Soderling, virarem o centro das atenções e detentores de todo o apoio de sua Federação, do que aqui no Brasil, onde sequer já tem o prestígio do Thiago Fernandes, então Nº 555 do mundo.
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É como o jogador de futebol que se naturaliza português ou espanhol para ter chance de jogar uma copa do mundo, pois aqui sequer era chamado pra seleção.
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Pode ou não pode ser?

E a situação Sueca piora muito no Ranking Juvenil:
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Top 100 Juvenil – Suécia

75 BLOMGREN, Tobias SWE 346,5
94 LINDMARK, Stefan SWE 312,5
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Top 100 Juvenil – Brasil

3 Tiago Fernandes BRA 837,5
49 Guilherme Clezar BRA 417,5
84 Vitor Galvão BRA 318,75
87 Augusto Laranja BRA 315
97 Karue Sell BRA 303,75
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É lógico que não dá para se fazer um exercício de futurologia, onde o Lindell vai chegar como profissional. E é lógico também que mais vale um cara Top 1 como o Guga, Federer, Nadal, etc, do que 20 Top 200, mas o fato é que me parece que a Suécia “depende” hoje e para seu futuro muito mais do Lindell, do que o Brasil.
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A não ser que ele vire Top 1, aí vamos chorar…

 

Comentário do Blogueiro.

Não é de hoje que existe uma tendência “cachorro vira-lata” de achar que tudo que é de fora é melhor. Especialmente quanto a técnicos. Lembro que no início dos anos oitenta tive uma discussão nessa mesma linha com um presidente da CBT que achava que a resposta para os males do tênis brasileiro seriam técnicos estrangeiros – sendo que ele também era estrangeiro. Nossas relações ficaram extremamente estremecidas quando eu insisti no contraponto que a origem de nossos problemas seriam os dirigentes, e que devíamos primeiro importar bons dirigentes, o qual talvez tenha ficado implícito que não o incluí, e depois, talvez, bons técnicos.
 

 

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terça-feira, 14 de setembro de 2010 O leitor escreve, Tênis Masculino | 01:23

O pintor e o escultor

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Fizeram por merecer. Nadal em quadra e Matts no computador. O espanhol mostrando que é bom em qualquer lugar, piso e circunstância. Matts mostrando que tambem pode deixar os excessos de lado e ainda nos emocionar. Está aí o texto dele celebrando a vitória de seu ídolo, que tem em seu maior rival o seu parâmetro e a medida de sua própria grandeza.

“Nas primeiras vezes que vi Roger Federer jogar, me perguntei como aquilo que ele fazia era possível. E nas primeiras vezes que vi Rafael Nadal jogar, tive a certeza que aquilo que ele fazia era impossível.
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Na minha infância, várias vezes, minha saudosa avó, devota de São Francisco de Assis, sussurrava em meu ouvido: comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível.
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E decidi-me, então, pelo desafio, pela superação, pelo paradoxo da impossibilidade possível.
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E hoje, o mundo do tênis já pode se dizer pleno.
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Os dois tenistas que dominam esse apaixonante esporte nos últimos 6 anos têm estilos opostos. Roger Federer, 5 anos mais velho, se destaca pela plasticidade de seu jogo. Nunca ninguém jogou tênis com tanta perfeição quanto ele. Sua raquete parece um prolongamento de seu corpo, tal qual um pincel o é de seu pintor, pintando jogadas que mais parecem obras de arte. Seu rosto nunca está transtornado durante o jogo, e sempre sereno, uma foto sua durante um golpe não figuraria destoante se postada no Louvre, ao lado da Monalisa de Da Vinci.
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Mas, quis o destino, que um garoto de apenas 17 anos atravessasse seu caminho rumo à unanimidade. Rafael Nadal, desde quando ganhou o primeiro jogo entre eles, no Master de Miami em 2004, disse não ao seu reinado absoluto, e tenta construir o seu. Ao todo são 21 confrontos, com 14 vitórias de Nadal e 7 vitórias de Federer.
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Ciente de suas limitações técnicas, mas dotado de uma força física e mental impressionante, Rafael Nadal extrapolou os limites que o bom senso lhe dizia que poderia chegar, e tornou-se o grande rival do pintor. Sua raquete parece a ferramenta de um escultor, arrancando lascas da pedra bruta, mas tornando-a, ao final, uma obra de arte. Não há uma foto sua serena. Todos os músculos de seus rosto e corpo estão contraídos durante um golpe, e uma foto sua deste momento não figuraria destoante se postada na Galleria dell’Accademia de Florença, ao lado do David de Michelangelo.
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Roger Federer é o detentor do recorde de títulos de Grand Slam, com 16 conquistas, incluindo 6 Wimbledon, 5 US Open, 4 Australian Open e 1 Roland Garros. Juntou-se as seleto grupo de apenas 6 tenistas, em toda a história do tênis, a ter ganho todos os Slams – Fred Perry, Don Budge, Rod Laver, Roy Emerson e Andre Agassi, justamente ao vencer em Roland Garros em 2009, onde Nadal reina.
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Rafael Nadal detinha até hoje 8 títulos de Grand Slam, com 5 Roland Garros, 2 Wimbledon e 1 Australian Open. Tentava entrar para a história e juntar-se aos 7 imortais, apenas 1 ano depois de Roger Federer. E conseguiu com a conquista do seu 9º título de GS, o US Open 2010, onde Federer reinou.
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E Rafael Nadal agora faz parte de mais um seletíssimo grupo, que por enquanto tem apenas André Agassi e ele, os únicos a ganharem os 4 Slams e uma medalha de simples de ouro olímpica. E o que parecia impossível, mais uma vez aconteceu.
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E num jogo deles é como se ao final tivéssemos pronta uma pintura ou uma escultura. Mas da Vinci também esculpia e Michelangelo também pintava.
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Haverá nexo, se no futuro do tênis, um vindouro tenista vir a juntar as qualidades de ambos, o côncavo e o convexo?”


Achei que o comentário abaixo, do Pedro Berutti, completa bem o comentário abaixo:

Excelente escolha para o post.

Matts, parabéns. Pouco escrevo aqui, mas muito leio. E, com isso, aprendo.
Diria que seu texto está 99% perfeito. Mas, humildemente, gostaria de acrescentar o que aos meus olhos loucos falta à sua obra de arte.

Gosto de comparar os dois extraordinários tenistas da atualidade com dois magníficos escultores da antiguidade. Não da Clássica, decerto, mas que dela são devedores.
Federer e Nadal se destacam por exceder os limites pensados por nós, mortais.
Dois gênios da arte – em estilos completamente distintos – deram vida ao mesmo objeto: Davi.
O primeiro, citado pelo Matlyn, é o Davi de Michelangelo, que evoca serenidade, harmonia, sobriedade, equilíbrio e, por que não, contenção dos sentimentos. Tal qual Federer empunha sua raquete de modo sublime, este Davi ergue sua pedra contra o gigante Golias.

O contrário ao estilo renascentista de Michelangelo – que também, muitas vezes, era um maneirista – é o barroco, que prioriza não mais a razão, e sim a emoção, o movimento e a tensão do momento. E foi assim que Bernini deu vida ao seu arrebatador Davi. Sua imagem parece ser o espelho de Rafa Nadal. Todo o esforço violento que ele faz, mordendo os lábios, transmite a ideia de que uma força sobrenatural está sendo libertada, provocando a sensação de quem está diante da estátua de que é necessário se esquivar do arremesso. E assim Nadal é em quadra: uma explosão a cada tiro que sai de sua raquete, a estraçalhar o inimigo de batalha.

“Todos os músculos de seus rosto e corpo estão contraídos durante um golpe”. Sua frase, Matts, é simplesmente a descrição do Davi de Bernini, do fantástico Rafa Nadal.

Links para ver as obras de arte:

Um fraterno abraço. Até mesmo porque, tal qual você, sou fã do Nadal!

Michelangelo e o cool David acima e Bernini e o intenso “Nadal” abaixo.

 

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