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Arquivo da Categoria Minhas aventuras

sexta-feira, 14 de outubro de 2011 Copa Davis, Minhas aventuras, Tênis Brasileiro | 19:10

Paixões

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Antonio Torello era um italiano de Genova mais paulistano do que a maioria dos nascidos em São Paulo. Mais do que uma coisa ou outra era um apaixonado. Apaixonado por tênis, por motos, por gadgets, por golfe, por negócios. Mais do que por qualquer dessas coisas, era apaixonado por pessoas. E por isso era apaixonado pela vida.

Leio o parágrafo acima e a única coisa errada que encontro é o tempo do primeiro verbo.

Meu relacionamento com ele não tem mais data. O Torello sempre esteve presente. Tivemos inúmeras aventuras juntos. Negócios que rolaram, negócios que não rolaram. Almoços e jantares regados a muita conversa, muita conversa sem jantares e muitos jantares e conversas que não aconteceram e deveriam ter acontecido.

Lembro do Torello na cadeira de juiz, e eu na de técnico, no Clube Sírio, em 1978, no confronto Brasil x Argentina pela Copa Davis, assim como no confronto Brasil x Chile no mesmo local e ano. Ele tinha uma ótima foto, que eu também tenho, do fim deste confronto, onde ele está do alto da cadeira de juiz, atento, enquanto um pegador de bola celebra nossa vitoria dando um pulo como se tivesse molas nos pés.

Ele gostava da Davis. Fez questão de ser o homem da CBT na nossa histórica vitória contra o Uruguai, em Montevidéu, em 1987, quando derrotamos os adversários por 3×2. Pela primeira vez tivemos um “cartola” que era, acima de tudo, nosso companheiro.

Como gostava também de carros, lembro dele jogando tênis com o Airton Senna na quadra central do Harmonia. Lembro dele andando com aquelas motos enormes, sua grande paixão – que eu sempre brincava do porque elas tinham que ser tão grandes?

Estive também no Chile e na Argentina com ele. À Ilhabela, que ele tanto gostava, e à Praia Preta. No Harmonia e no Sauípe. Vi o filho dele, o Rodolfo, crescer, mesmo à distância. Tornou-se um homem e o Torello vivia babando ao contar as histórias e os feitos dele, assim como da filha Isabel.

O Torello vendeu bolinhas de tênis, a PZM, e raquetes de tênis – a Kneissel, que eu arrumei na Áustria, junto com o amigo Kirmayr, para ele fabricar aqui. Vendeu gadgets e brindes também e sabe Deus o que mais. Não aguentou e voltou a trabalhar com o tênis, na Koch-Tavares, onde estava há alguns anos, fazendo algo que adorava. Usando seu charme e conhecimentos para tornar negócios e sonhos realidade.

Antonio Torello se foi. Se pudesse escolher acho que teria escolhido como foi. Vivendo uma paixão. Um dia após o anuncio da transferência do Brasil Open para São Paulo subiu em cima de uma moto e, junto com o irmão e amigos, invadiu a Argentina. A chuva, uma estrada ruim, um buraco sorrateiro e em um instante o Torello se foi.  Paixões podem ser perigosas. Mas ele sempre acreditou que há que vivê-las.

Antonio Torello, terceiro à esquerda, e amigos invadindo a Argentina.

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quinta-feira, 18 de agosto de 2011 Copa Davis, História, Minhas aventuras, Tênis Brasileiro, Tênis Masculino | 12:08

Pegou?

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O Animal Nadal queimou os dedos da mão direita ao pegar em um prato quente que lhe foi servido em um restaurante em Cincinnati. Fico imaginando se o restaurante insistiu em cobrar aquele absurdo que vem virando padrão nos States, variando de 15 a 25% de serviço sobre a comida – os caras são abusados. Por conta disso, o espanhol está usando proteção nos dedos e mencionou o assunto na entrevista após bater Benneteau.

A história me lembrou de outra ainda mais curiosa e interessante.

Em 1997, no confronto de Copa Davis entre Brasil e EUA, em Ribeirão Preto, o time brasileiro estava alojado em uma tremenda casa, no alto de uma colina. Só os tenistas e a pequena equipe técnica. O pessoal de serviço da casa vinha durante o dia e saia à noite. A cozinheira, que seguia nossas indicações de cardápio, preparava e servia o jantar para cerca de 10 pessoas e depois partia e só voltava pela manhã.

Na noite anterior à estréia, como acontecia todas as noites, um pouco antes de deitar os tenistas visitavam a cozinha para fazer um lanchinho. Na manhã seguinte, Gustavo Kuerten jogaria contra Malivai Washington. O catarina foi preparar alguma coisa no forninho, usou um prato de vidro e quando foi retirar o prato deu aquela escorregada mental pegando o prato com a mão direita. O seu grito gerou o maior banzé na casa.

Eu olhava aquela bolha crescendo e pensava fo……  Logo após ligar para o médico, tratei de avaliar o tamanho do problema – foi aí que o drama deu lugar à comédia. Eu queria que Kuerten pegasse a raquete e visse se a bolha estava atrapalhando ou não. Como o local era no polegar, um pouco para cá ou para lá fazia uma enorme diferença. Mas não é que o cara não sabia como segurava a raquete??!! Eu olhava para ele e perguntava – como não sabe? Ele respondia – não sei pô, só jogando! Eu coloquei a raquete no chão, falei para ele olhar para os lados, pensar em outra coisa, abaixar, pegar a raquete e ver se incomodava. Ele fazia, virava para mim e dizia – não sei! Só jogando!

Ficamos naquele papo de louco por um tempo até que não me restou alternativa. A casona tinha, além de um belo campinho de grama, onde tirávamos um gol a gol após o almoço, uma quadra dura de tênis. Às 22:30h ligamos as luzes, pegamos um balde de bola, e as raquetes, e lá fomos nós para a quadra. Algumas bolas foram lançadas na direção do tenista que no instinto fez a sua pegada, bateu algumas direitas, esquerdas e sacou. Com um sorriso de alívio virou para nós e anunciou: não pega!!

Só como curiosidade, para quem não conhece a história do nosso tênis. O Brasil perdeu por 4×1 para os EUA de Washington, vice em Wimbledon, Courier, bi em Roland Garros e Austrália, finalista em Wimbledon e US Open, e a então dupla #1 do mundo O’Brian e Reneberg. Kuerten perdeu para Washington 3/6 7/6 7/6 6/3, Meligeni perdeu para Courier 3/6 6/1 6/4 4/6 6/4, Kuerten e Oncins bateram O’Brian/Reneberg 6/2 6/4 7/5 (uma aula de duplas!), Courier bateu Kuerten 6/3 6/2 5/7 7/6 – este TB foi longo e se fosse para o quinto seria uma beleza! A quinta partida, mais uma derrota de Meligeni, para o duplista O’Brain, ocasião também de um incidente que mostrou bem o caráter do tenista, e uma hora eu contarei, e que sacramentou o afastamento entre eu e ele.

O confronto aconteceu em Fevereiro de 1997 e colocou um fim a 10 anos de invencibilidade do time brasileiro jogando em casa, um recorde do qual me orgulho e que não será batido tão cedo. Três meses depois, Gustavo Kuerten começava sua marcha para glória em Paris.

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quarta-feira, 17 de agosto de 2011 Minhas aventuras, Tênis Brasileiro, Tênis Masculino | 15:22

Quadras de treino

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Rafael Nadal deu aquela chiadinha básica sobre as mulheres dividirem o espaço com os homens no torneio de Cincinnati, assim como outros, um padrão que vem tomando corpo.

O espanhol que é um fofo, segundo minha mulher, logo deixou claro que nada tem contra elas e nem fala em nome próprio. Como é que é?

Bem, lógico, o fofo nada tem contra as mulheres, e quem tem? Ele diz que deve ser bom para o público e o torneio. Para os tenistas nem tanto. Por que? Pela “briga” pelas quadras.

Existe uma “briga” surda, mas muito viva, pelas quadras de treino entre os jogadores. Com as mulheres por perto a demanda dobra. Além disso, as mulheres têm uma, diríamos, dinâmica diferente dos homens sobre o assunto. Eles são mais respeitosos, elas, diríamos, folgadas. Lembro uma vez em Nova York durante um treino de homens, entre eles um brasileiro, uma moça do leste europeu entrou dentro da quadra e começou a pular corda quase no corredor das duplas. O tenista lhe enviou um canudo que se pega, e foi quase, matava. O que saiu de ofensas não está escrito.

Mas o que me chamou a atenção nas suas declarações foi um detalhe. Segundo regras não escritas, todos os tenistas têm o mesmo direito ao tempo de quadra. O Nadal declarou que não falava em nome próprio porque ele recebe duas horas todos os dias, sem problemas do torneio. Mas que os outros tenistas devem estar com problemas de conseguir uma horinha que seja. Espera um pouco!! Isso não é legal.

Mas a verdade é que acontece, e muito, mesmo que debaixo do pano. Lembro que, como técnico, eu sofria essa descriminação lá fora quando tentava marcar quadras para meus tenistas, e quando tentava brigar pelos mesmos privilégios aqui, os caras-de-pau americanos da ATP diziam que isso não era permitido de jeito algum – e ainda tinha diretor de torneio brazuca que, mesmo sabendo das coisas, enfiava o rabo no meio das pernas e ainda nos chamava de arrogantes pelas costas. Tá aí o Nadal oficialmente colocando os pingos nos is.

Nadal – a vida em quadras de treino.

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domingo, 14 de agosto de 2011 Light, Minhas aventuras | 21:59

A Sala

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A final de Montreal caiu na hora errada. Pelo menos para mim. Às 17h, enquanto Djokovic faturava seu nono título da temporada, sendo o quinto Mastres 1000, um novo recorde, derrotando o Peixe Americano, que também tem a melhor temporada de sua carreira, somando 53 vitórias e uma única derrota, eu tinha um date o velho Ludwig e Valentina Lisitsa, uma pianista ucraniana de primeira linha que nos brindou com o Concerto para piano #3 em Dó Maior, Op 37. A moça, uma loura alta e mãos extremamente longas, finas e delicadas,  foi tão insistentemente aplaudida que nos brindou com uma canjinha; tocou o Fur Elise mais lindo que já ouvi – seus dedos pareciam não tocar o teclado. Quase pedi para a moça ir entregar o gás lá em casa.

Após o intervalo e a descida do piano do palco nos avisaram que os allegros da 5ª Sinfonia do Ludwig seriam substituídos pela Marcha Fúnebre e o Molto Allegro da Eróica. Nenhum drama. Sai de lá flutuando.

A Sala São Paulo é um lugar maravilhoso para concertos; uma antiga estação de trem no centro da cidade, reconstruída para apresentações da Sinfônica de São Paulo. No entanto, o dia de hoje foi da Orquestra Sinfônica Brasileira do Rio de Janeiro.  A reconstrução é uma prova que há vida inteligente mesmo no governo e fica ao lado na Pinacoteca de São Paulo, outro local reconstruído é que nos oferece ótimas exposições – é um dos meus locais favoritos da cidade, apesar de ser bem fora de mão para mim.

No entanto, o local além de interessante é um dos mais curiosos do Brasil.

O que torna um local tão bem bolado e construído – a sala é de alto padrão, amplo e moderno – curioso? A sala faz parte do plano de reconstrução do centro da cidade de São Paulo, decadente a abandonado como tantos centros antigos. Mas, a dois quarteirões do local fica a Cracolândia, o local mais deprimente da cidade, um câncer que até hoje a cidade, o governo e a sociedade não conseguiram extirpar.  Enquanto alguns se deliciam com a magia dos acordes dos anjos, a 100m uma massa de farrapos se arrastam como zumbis que só ouvem os sons do inferno.

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Minhas aventuras | 16:14

Dia dos Pais

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Dia dos pais. Alguns leitores lembram a data, importante tanto em uma ponta como a outra. Lembro do meu, responsável, entre outras coisas, pela minha paixão pelo tênis.

Edson começou a aprender tênis com quase trinta anos e chegou à 1ª classe, que é muito mais do que a maioria pode dizer. Adorava o tênis e ensinou seu filho mais velho e suas quatro filhas jogarem tênis, assim como disseminou a paixão pelo tênis em muitas outras pessoas que passaram por seu caminho. Para quem não sabe, três das meninas foram campeãs brasileiras, duas campeãs sul-americanas e uma delas a melhor do Brasil aos 16 anos e aos 17 finalista do Orange Bowl, o então Mundial Juvenil.

Ele nos ensinava na primeira hora da manhã – estávamos no Clube às 6h – para depois irmos à escola e ele ao trabalho. Nos fins de semana, quando não havia torneio, tínhamos treinos. Era um tanto rígido nos seus ensinamentos, talvez somente porque na época eu ainda não entendia bem o jeito das coisas. Muitas vezes me via no lugar de alguns dos rebeldes que treinei. Pior, às vezes me vejo nele de então.

Após se aposentar meu pai foi exercer a paixão, trabalhando na primeira academia que montei no meio dos anos setenta. Era a diversão dele e tornou-se a diversão de muitos. Ele fazia com total dedicação e imensurável paixão, a única maneira de se fazer algo bem feito e cativar os outros.

Assim foi até o fim de seus dias. Foi-se ele, ficou a paixão, especialmente na vida deste que vos escreve. De certa maneira, a minha missão é continuar a dele.

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quarta-feira, 15 de junho de 2011 Minhas aventuras, Tênis Brasileiro, Tênis Feminino, Tênis Masculino | 12:39

Cidadão Jornalista

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Parece que foi ontem, quando recebi um telefonema do Jose Trajano convidando para dar uma mão com o tênis, na sua então mais recente aventura jornalística, a formação de uma TV fechada exclusiva de esportes.

Nós já tínhamos tido a oportunidade de conviver quando eu o convidara para editar uma revista exclusiva de tênis – a “Tenis Esporte” – no início dos anos oitenta. Ele então realizou a revista de tênis mais diferente e audaz que o mercado brasileiro já conheceu. Ficou dois anos criando matérias únicas e criativas, assim como capas com manchetes do tipo “Golpe de Direita”, com primeiras e segundas intenções, utilizando alguns dos melhores profissionais do mercado que adoravam estar sob sua regência.

O seu convite, uma década depois, me colocou de vez na TV fechada, já que anteriormente eu já dera meus pitacos em partidas de tênis, e até futebol americano, em TVs abertas.

A história do esporte na TV fechada começa e passa pela participação desse mercurial jornalista, que pode ser um jornalista afável e interessante trocando idéias na mesa de um boteco, assim como espalhando vendavais pelas redações.

Trajano formou a ESPN-BRASIL com o pioneirismo dos visionários e a tradição de uma sala de trabalho de um grande jornal, adaptada para a realidade, eternamente mutante, da TV. Lembro que as primeiras salas da ESPN eram de um acanhamento de dar dó, o que nunca acanhou o espírito e a determinação de seu diretor de jornalismo.
 
Tive a sorte e a honra de fazer parte da história dessa aventura através dos anos. Cheguei a ter a incumbência de produzir o “Jornal do Tênis” em seus primeiros sete anos, antes de ser retirado do ar anos atrás. Nesse caminho, em algumas raras vezes nossas personalidades conflitaram, mas foram bem maiores o número de oportunidades oferecidas, e sustentadas, sob diferentes circunstâncias, como os homens de personalidade e caráter fazem.

Ontem a ESPN-BRASIL celebrou seu 16º aniversário no Brasil, sempre liderada por Jose Trajano, independente de quem tenham sido, momentaneamente, os acionistas da TV. Um tempo longo para se sustentar qualquer parceria de trabalho e um tempo curto para escrever uma história de tamanho sucesso, com todos os percalços que o mercado impõe.

 Aproveitou-se também para celebrar o título de “Cidadão Paulistano”, entregue ontem pela Câmera Municipal de São Paulo e patrocinada pelo querido amigo e vereador Marco Aurélio Cunha, a esse carioca da gema que trocou de cidade há muito tempo, mas faz questão de manter, e divulgar aos quatro cantos, sua paixão pelo futebol e pelo America, clube da Tijuca e seu eterno elo com o Rio de Janeiro, enquanto leva seu trabalho a todo o Brasil.

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domingo, 20 de março de 2011 Light, Minhas aventuras, Tênis Masculino | 16:48

Djoko, panquecas e coca light.

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Lá pelo fim do primeiro set da final de hoje, pegarei um taxi em direção ao Aeroporto de Guarulhos com o destino a Miami. É, vou para o Aberto de Miami, cujo departamento de imprensa me enviou uma carta ontem me lembrando que o nome correto do torneio é Sony Ericsson Open. Bem, pelo menos perdi o hábito de chamar de “Lipton”, mas vamos com calma.

Não sei quando comentarei a aguardada final. Pode até ser que de para escrever lá no aeroporto – vai saber. Com esse negócio de Wi-Fi quase tudo é possível. Só sei que amanhã comerei panquecas com morango e creme de chantili de breakfast.

Na hora do almoço, minha mulher lembrou que daqui para frente, pelo menos por um tempo, Nadal e Federer podem se encontrar ainda nas semifinais, acabando com aquelas bizarras cenas de dono de evento se contorcendo nas arquibancadas torcendo pelos dois para assegurar “A Final”. O Djoko está mexendo com o sofrimento de muitos.

Como lembrou um amigo esta manhã, após o meu tênis, a curva do Djoko é ascendente enquanto do Federer é descendente. C’ést la vie. Além disso, a partir de agora, Federer teria que tirar de sua cartola um pouco daquela garra que existe no fim do arco-íris e que, me parece, Nadal e Djoko dividiram o pote.

Mais grave ainda, pelo menos para o meu lado, hoje, também logo após o tênis, D. Ruth afirmou que não vem assistindo os jogos de Roger para não se aborrecer, só para em seguida fazer uma abalizada avaliação da partida de ontem que, por sinal, não a deixou nada contente, especialmente no set final que, segundo ela, Federer “entregou”.

Mas o drama veio em seguida, quando minha mulher confessou, na frente da sogra, que é nadalista de carteirinha, respeitando muito mais quem luta para conseguir seus objetivos, do que quem é abençoado com um talento ímpar e vive jogando o cabelinho pro lado na hora da onça beber água. Ainda bem que as duas se amam, mas nessa hora eu levantei para ir buscar uma Coca Light.

Será que a Coca Light de lá tem o mesmo gosto da de cá?

Aguardem.

Miami, panquecas e tênis.

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domingo, 20 de fevereiro de 2011 Minhas aventuras | 20:06

Amigo

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Quem sentou no meio fio com seu melhor amigo, conversando sobre os mistérios do universo, após tentar, mais cedo na noite, desvendar os segredos das mulheres ao som de Ray Conniff, suspeitando que o mais certo fosse que nunca teríamos respostas definitivas para nenhuma das perguntas? Talvez atualmente não seja uma boa idéia sentar na calçada da esquina de uma das ruas mais movimentadas da maior metrópole da América do Sul no meio da madrugada, mas ainda me parece uma melhor idéia do que não se ter com quem dividir dúvidas e certezas.

Quem teve a oportunidade de jogar uma quarta-de-final de um Campeonato Brasileiro, enfiar o adutor na catraca da rede em uma troca de lado, vencer a partida assim mesmo, só para voltar ao hotel e ter a perna tratada com toalhas quentes por horas pelo seu melhor amigo, também colega de quarto e, por feliz coincidência, o adversário do dia seguinte, jogo o qual foi obrigado a abandonar, por conta de que ainda faltavam alguns anos para se descobrir que nesses casos o gelo funciona melhor do que o calor?

Quem, durante anos, teve seu melhor amigo como companheiro de equipe, nas quadras de tênis, nos campos de futebol, nas quadras handebol, jogando duplas, formando zagas, vencendo tudo que pela frente apareceu, e aceitando-o como capitão, até porque o técnico sabia que ele seria o único aceito sem maiores problemas, por ser o único que eu aceitava ser melhor do que eu em tantas coisas?

Quem teve um amigo e colega de classe que lhe passava cola naqueles dias em que você achou melhor ficar lendo um livro de Conan Doyle noite adentro do que o de matemática; e quando o professor de educação física, pentelho, os colocou para lutar boxe na aula de ginástica, só para ver como os dois amigos inseparáveis reagiam, após dois assaltos só fazendo sombra, sob os aplausos e apupos dos colegas e as ameaças do professor, acertou, sem querer, um punch que trincou uma costela do amigo/oponente e, por conta do fato, se recusou a pegar em luvas novamente?

Quem teve um amigo com o qual podia sentar por horas conversando, sem se importar com as outras pessoas, mesmo porque ambos falavam de uma maneira que ninguém entendia nada mesmo, e que, no fundo, sabiam que podiam se comunicar mesmo sem as palavras, que é o que grandes amigos fazem?

Quem teve um amigo que saia da universidade para ir a sua casa ouvir Blues, quando preferia MPB, até porque o outro estava entre a vida e a morte, sem poder sair da cama, e ainda sem respostas para inúmeras perguntas.

Quem não poderia preencher inúmeros parágrafos com histórias e mais histórias sobre aquele seu amigo de infância, que dividiu os melhores, e os piores, momentos até o momento que o destino os levou a caminhos diferentes e nem por isso suas almas se separaram?

Tenho certeza de que, pelo menos no que diz respeito o último parágrafo todos os felizardos deste e outros Blogs podem levantar a mão. Quanto aos outros causos, deixo aqui minha lembrança de uma amizade que não se encerra com a morte de um deles, até porque o outro está aqui para lembrá-la.

O amigo Marco Antonio Souza Ferreira; terceiro da direita para a esquerda.

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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011 Minhas aventuras | 12:34

As mudanças no Blog

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A grande notícia do dia, pelo menos para o Blog, é a volta do “Ler Todas” e a possibilidade de ler os “Comentários” do mais recente ao mais antigo – mesmo que o número anexo não seja o “correto” – que foi o grande pleito dos leitores após as recentes mudanças. O detalhe numeral deve ser acertado com o tempo. Tudo isso, com o novo design padrão do Portal IG.

Credito as mudanças à participação dos leitores, que se não precisam se sentir como egípcios podem ao menos se sentir ouvidos de todos os envolvidos.

Mudanças sempre houve e sempre virão. Algumas encantam de cara, outras necessitam de ajustes para realizar suas tarefas.

De qualquer maneira é necessário entender que a vontade de acertar e encantar os leitores do meu Blog e do nosso Portal sempre esteve acima de qualquer outro critério ou prioridade.

Mais uma vez é hora de vocês se manifestarem.

ALEGRIA!

 

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011 Light, Minhas aventuras, Tênis Masculino | 13:00

Talvez

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Desde ontem, quando li a notícia da morte de Maria Schneider na internet, um surpreendente e quase inexplicável sentimento de tristeza me abateu. Surpreendente porque a moça nunca me inspirou nenhum tipo de sentimento como atriz ou mulher. Talvez puro preconceito.
 
 Talvez tenha sido o filme – O último tango em Paris – e tudo que ele representou na época, que hoje parece ser em outra dimensão. Naqueles duros anos de chumbo, o meu diretor favorito era o Bertolucci e o filme O Conformista, mais por razões estéticas do que qualquer outra. Só isso criaria certa expectativa quanto ao filme.

No entanto, o filme causou um rebuliço inimaginável para os jovens adultos da atualidade. Foi proibido em boa parte do mundo e só foi mostrado após inúmeras batalhas legais, inclusive por aqui, onde, no Rio Grande do Sul, organizavam excursões para irem a Montevidéu assistir o filme. Era uma época onde a penetração anal nunca poderia ser imaginável como algo que cairia na banalidade em inúmeros canais pornôs de TV e uma internet que é, entre outras coisas, uma teia inimaginável de sexo e pornografia.

Talvez meus sentimentos tenham mais a ver com a época e a idade do que com o filme em si. Afinal, aos 30 anos consideraramo-nos no auge em mais de uma maneira. Uma época super produtiva e de incansável procura, o que faz a vida ser mais aventurosa e perigosa no sentindo interessante. Ainda hoje carrego a certeza que viver os anos 60 e 70 foi uma benção. Talvez viver os meus 20 e 30 anos tenham sido a benção. Talvez a morte de Schneider tenha me atingido mais por conta desta minha irrecuperável perda.

Boa parte do filme foi rodada no 16º arrodissement de Paris, um dos mais luxuosos da cidade. Mesmo assim, Bertollucci não mostra essa riqueza, e sim uma leve decadência. Até hoje, no meu caminho para Roland Garros, quando atravesso o Sena, na peculiar ponte Bir-Hakein, uma de minhas favoritas, não tem uma vez que não lembre uma cena ali filmada, o que também ajudou a instalar o filme em uma gaveta especial de minha memória afetiva.

O filme ficou famoso, de maneira infame, pela famosa cena da manteiga, uma maneira um tanto sórdida de utilizar um dos expoentes representativos da cuisine française. No entanto, por detrás dos encontros eróticos no apartamento da Rue L’Alboni, existe um outro filme que fala da inocência da época, nos papéis de Maria e seu avoado e cineasta noivo, e do desespero do homem que perdeu sua mulher e parceira. Talvez a clássica cena de Marlon Brando falando debruçado sobre o corpo de sua mulher seja ainda melhor compreendida por quem viveu drama semelhante.

Maria amaldiçoou o filme pelo resto de seus dias – dizia que as pessoas a olhavam com ironia e o rabo dos olhos. Chamou o diretor de cafetão e canalha e não tinha palavras muito elogiosas para Brando, que acusava de combinar com o diretor sobre a cena da manteiga sem falar nada a ela. Fato é que o filme a deixou famosa e ela, como outras, não soube administrar a fama e desperdiçou muito de sua vida com as drogas. Se amaldiçoou o filme, o jornalista português Jose P. Coutinho escreveu o texto abaixo abençoando sua alma.

“Existe uma explicação suplementar para a democracia ter derrotado o stalinismo em Portugal. E aqui Maria Schneider tem palavra importante. Durante quatro décadas, os portugueses viveram com a censura sobre os ossos. Com a revolução, Maria Schneider aterrava em Portugal. Com a manteiga. E Marlon Brando disposto a usá-la. As filas para o cinema eram quilométricas. Em 1974, os portugueses não estavam interessados em trocar uma ditadura por outra. Não trocariam a Coimbra de Salazar pela Moscou de Cunhal, sobretudo quando havia Schneider por perto. Alguém deveria contar esta história a uma mulher injustamente amargurada.”
 
E, para não dizer que não falei das flores, o quase xará de Bertolucci começa hoje, nas quartas de finais, uma importante fase de sua carreira, ao defender um de seus títulos de 2010 contra a paparrento italiano Fabio Fognini. Talvez ele conheça o Bertolucci, duvido que conheça a Maria.
  
Pont Bir Hakein
Bertolucci, Brando e Maria
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