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Arquivo da Categoria História

quarta-feira, 7 de julho de 2010 História, Light, Minhas aventuras | 13:32

Federer, Baker e Gilberto

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Para dar o meu pitaco nas discussões dos comentários sobre música, conto duas breves historinhas.
No início de 1967, quando cheguei à universidade nos EUA, eu tinha um probleminha de comunicação agravado por não conhecer ninguém naquelas bandas. Fui parar em um dormitório, onde boa parte eram atletas, mas não todos. Infelizmente, não havia os coeds dorms na época e as meninas, pelo menos oficialmente, ficavam na porta.

Certa noite fui atraído pelo som de um saxofone, vindo do fim do corredor, onde ficavam pequenas salas de estudo. Lá, um afro-americano (na época eram chamados, e disso se orgulhavam, de Blacks e politicamente corretos era uma raça inexistente) assoprava, com muita soul, “Doralice”, música que ainda teria outras implicações em minha vida.

Sob o olhar curioso e amigável do rapaz, sentei e batendo as mãos na mesa marcando o tempo, comecei a matar as saudades de casa – era uma época onde poderia demorar uma semana para se fazer um telefonema para casa, o que fazia com que se acabasse desistindo, já que, invariavelmente, quando a telefonista retornava com a ligação eu não estava no quarto.

Ele tinha um pequeno toca-disco, onde girava o vinil do famoso disco do João Gilberto e Stan Getz, o qual deixou o americano milionário, o brasileiro famoso e, consequentemente, rico e que servia de back-up para seus solos.

Conversamos bastante – éramos dois outsiders no local – e uma amizade floresceu. O ultimo que soube dele, ainda na universidade, nos fins de semana tocava em bares da Maxwell e da State Street in Chicago. Mas naqueles dias de inverno de 66, antes de eu mudar do dormitório, minhas saudades foram amenizadas pelos sussurros de João Gilberto cantando sobre o que disse a Doralice, a banda do pato e me confortando dizendo que chega de saudades.

Quanto ao Chet Baker, que, nem sei se surpreso, descubro também estar no gosto de muitos por aqui. Com certeza já me ouviram falando na TV e escrevendo por aqui, especialmente no início da carreira, que o Federer é o Chet Baker do tênis pelo seu jeito cool de jogar e ser.

Sempre fui fã do trompetista e, também, de sua voz. Aliás, e aí peço um tanto de discrição por parte de todos, Chet sempre foi meu companheiro amoroso. Antes que algum apressadinho se aflija ou se atice, o fato é que tinha o salutar hábito de tocar Baker quando ia fazer amor. Por isso, sempre tive vários discos, fitas e CDs dele para que não faltasse trilha sonora.

O fato é que no verão europeu de 1988 fui a Amsterdã. Havia mais de uma boa razão para tal. Hospedei-me, propositalmente no Hotel L’Europe, por duas únicas noites, desci ao bar do hotel, à beira de um dos canais e pedi ao pianista tocar My Funny Valentine. Dois meses antes, Chet, que várias vezes vivera e tocara no hotel, morrera a poucos metros da minha mesa de maneira estúpida. Naquela noite sonhei com todas as minhas amantes; com as que já amara e as que viria a amar.

Hotel L”Europe em Amsterdan

 

 

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terça-feira, 6 de julho de 2010 História, Porque o Tênis., Tênis Masculino | 00:39

João Gilberto, Borg e inovações

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Venho a algum tempo pensando em oferecer um destaque a alguns comentários que meus leitores publicam no Blog. Não tinha certeza do formato, como ainda não tenho, mas penso que possa ser algo que acrescente ao Blog e, principalmente, motive meus leitores. 

Sendo assim, após repensar o assunto este fim de semana, decidi fazer uma tentativa temporária para ver como funciona. Em breve devo fazer algumas regras para ficar mais claro.

Este primeiro vai ser de surpresa, inclusive para o Comentarista. A escolha deste ficou por conta de dois quesitos que serão indispensáveis. O assunto deve ser pertinente a um post recente meu e deve também ter um padrão de qualidade. O Comentarista pode, ou não, concordar com minhas colocações, assim como eu não tenho que necessariamente concordar com a dele. Como é o caso em alguns pontos deste abaixo. Me reservo o direito de acrescentar, no final do texto, minhas colocações.

Além disso, e já fica valendo, o Comentarista para se qualificar deverá colocar um email válido e, após a validação, retornar certas informações. Outras regras podem ser divulgadas e adotadas.

Espero que vocês se divirtam, se motivem e acrescentem à idéia. Vamos ver como funciona.

Enviado por Mártin Haeberlin em 05/07/2010 às 11:24h:
 
Não raras vezes, em ocasiões as mais distintas, lembro-me daquela conhecida fábula intitulada “A Roupa Nova do Rei”, escrita pelo dinamarquês Hans Christian Andersen (o mesmo do “Patinho Feio”).
Quem não conhece, sugiro procurar a versão estendida.
 
Só para chegar ao ponto em que quero chegar, aí vai uma síntese: a fábula (ou conto infantil, se preferirem) conta a história de um rei que, cioso de sua (inexistente) inteligência, é enganado por dois mercenários, os quais são abastecidos de riquezas reais para lhe confeccionar uma roupa feita com um tecido invisível aos tolos e que somente os inteligentes podiam enxergar. Enquanto os falsos tecelões fingiam tecer as vestes, o rei e seus ministros acompanhavam o processo, elogiando o lindo tecido, ainda que não o vissem, mentindo para não passar por tolos. Até que a roupa é entregue, o rei diz que achou a roupa magnífica e é feita uma procissão, onde o rei desfilaria com a sua nova e já famosa roupa entre os súditos. Eis que, em meio à procissão, uma criança grita: “O rei está nu!”. O rei, embora desconfie da veracidade da afirmação, segue em sua procissão, com medo de ver sua tolice desmascarada.

Esta fábula permite um sem-número de lições e interpretações. A que mais gosto, e talvez a mais central delas, é aquela que nos ensina a questionar as verdades que os outros nos estabelecem, e que nos permite, com isso, não apenas o desenvolvimento de um olhar crítico sobre as coisas em nossa volta, mas de um olhar pessoal, próprio, autóctone.

De fato, quantas vezes não somos levados a repetir uma verdade com a qual nem sempre estamos de acordo – se resolvêssemos refletir a respeito dela – somente pelo fato de que esta é a verdade estabelecida no tempo e no espaço, verdade esta que comumente nos é trazida pelos “especialistas” na matéria (olha aí aparecendo a tal da “microfísica do poder” a que Foucault nos atentava)?
Usando a bossa nova, citada no texto anterior do Cleto, dou-lhes um exemplo do que quero dizer.

Como já afirmei aqui, sou um apaixonado pela música brasileira, notadamente da música popular, da bossa nova e do samba.
E algo que sempre me intrigou na bossa nova é esta idolatria dos músicos e dos meios de comunicação especializados em torno de João Gilberto. Muitos músicos falaram, e ainda falam, da influência que João Gilberto lhes forneceu. Já a imprensa especializada, ao tratar de João Gilberto, tem sempre os mesmos adjetivos: “as notas são exatas”; “a perfeição levada ao extremo”; “um violão que parece uma orquestra”, etc. Sequer é necessário ler a crítica de um disco novo (se bem que todos os discos novos dele são antigos) de João Gilberto para se saber o que será escrito nos jornais sobre este disco, e que passa por algumas das frases escritas entre aspas acima.

Pois eu nunca consegui enxergar isto tudo. Porém, já que todos os especialistas na matéria confirmavam a genialidade de João Gilberto, parecia certo que o erro estava em mim. E, desditoso em minha própria ignorância, passei a procurar, e ouvir, e ouvir atentamente todas as gravações de João Gilberto, querendo descobrir o que me escapava. Onde estava aquela genialidade que eu não entendia!?
E nunca encontrei ali nada além de acordes complexos tocados demoradamente em um violão bem afinado. Para mim, João Gilberto tinha para a bossa nova a mesma significação que Golçalves de Magalhães teve para o romantismo brasileiro, isto é, ele é importante pelo pioneirismo, mas não pela qualidade de sua obra.
Mas, claro, se me perguntassem, nunca diria isto. Nunca passaria meu atestado de tolice musical aos quatro ventos.

Até que numa noite de boemia, conversando com um amigo exímio violonista (desses que, por algo desconcerto do destino, veio a ser músico de barzinho recebendo couvert de bêbados, quando o seu lugar natural era o palco de um teatro estrangeiro), ele me disse, assim do nada, enquanto um parceiro dele executava uma música consagrada por João Gilberto: “Mártin, esse João Gilberto, nunca engoli o que dizem dele… esse cara é uma mentira. O que ele faz, qualquer um faz. Quero ver é repetir uma execução do Raphael Rabello).

Naquele dia, era como se este meu amigo violonista fosse aquela criança do conto, gritando para mim a verdade sobre a “roupa” de João Giberto: “O rei está nu!”.
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Aí hão de me perguntar: mas qual é a relação disso com o tênis, já que estamos em um blog do tênis? No que eu respondo: Bjorn Borg, exatamente este sueco sobre o qual o Cleto está falando no post.

Da mesma forma que me ocorria em relação a João Gilberto, nunca consegui digerir bem esta opinião, presente entre vários – se não todos – os especialistas do tênis, consagrando Borg como um dos maiores tenistas da história, opinião esta que lhe permitiu posar ao lado de Laver, Sampras e Federer no ano passado, na conquista do 15º Grand Slam por este último, em Wimbledon. Essa massiva consagração em torno do nome Bjorn Borg sempre teve grandes ressalvas de minha parte.
Mais uma vez, meu senso crítico me informava que eu é que deveria estar errado, já que ali estava a condecoração feita pelos especialistas.

Lá fui eu a procurar todos os vídeos de Borg na internet, a comprar vídeos de suas partidas, sempre no intento de desvelar minha própria ignorância e, com olhos mais treinados, ver o que eu – no alto da minha tolice – não conseguia ver. Onde estava a roupa do rei?
E, mais uma vez, não consegui enxergar a “roupa” de Borg (por favor, tomem no sentido conotativo, evitando mal-entendidos pelo fato de, atualmente, o sueco ser detentor de uma marca de cuecas).

Sem querer tirar o mérito desta “revolução” citada pelo Cleto (e da capacidade de transformar o jogo de tênis em razão da modificação de empunhadura do continental para o western e da maximização do spin em razão desta mudança), para meus neófitos olhos, Borg era um grande devolvedor de bolas com uma capacidade mental incrível.

Só que, claro, sempre me contive nas palavras e nunca imaginava publicizar essa minha ignorância, que muitos tachariam blasfêmia.
Até que apareceu uma criança para me dizer: “O rei está nu!”.

E esta criança, no caso, foi Thomas Koch, quando vi numa entrevista dele, há alguns anos, ele respondendo algo assim ao ser perguntado sobre Bjorn Borg: “Sinceramente, o tênis de Borg nunca me encheu os olhos, nunca me seduziu. Eu gosto do tênis jogado mais ofensivo, procurando encerrar os pontos, e não continuar eles. Não consigo ver nele o mesmo talento que via em um Laver, em um McEnroe e no próprio Federer atualmente.” A resposta de Thomas Koch foi como que uma libertação para mim e para minha ignorância.

E mais: produzi mentalmente uma teoria, no sentido de que aqueles que viveram a “era Borg” ficaram tão extasiados com o frenesi desta era, com a magnitude daquele sueco que “modificou” o jogo e permitiu que os tenistas virassem pop stars, que passaram a ter alguma dificuldade em julgar o tênis de Borg para além deste mérito existente no pioneirismo em si, e só.
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Do que escrevi acima, transporto uma das possíveis conclusões, que me vem facilitada por esta “desconstrução” do fenômeno Borg, qual seja a de que Rafael Nadal JÁ É (e quando digo “já é” quero dizer que não preciso esperar mais tempo para tomar esta conclusão) um tenista maior do que Bjorn Borg foi.

Por vezes, é preciso colocar de lado os números e pensar a partir de dados subjetivos. Foi fazendo assim que não precisei esperar os títulos de Grand Slam para apontar, já no final de 2006 e início de 2007, Roger Federer como o maior tenista de todos os tempos.
Hoje, me proponho o mesmo exercício, de esquecer o número de títulos, e não vejo temeridade alguma em colocar Rafael Nadal como maior que Bjorn Borg, já que, não obstante a paridade na força mental de ambos, o espanhol, ao contrário do sueco, conseguiu e vem conseguindo expandir todos os seus limites, melhorando cada fundamento de seu jogo até chegar a um tênis que, se não é exuberante, já vê no retrovisor aquele viés unicamente defensivo e contra-atacador (dos idos de 2005 e 2006) e encontrou um equilíbrio interessante entre a sua exímia capacidade defensiva e sua nova aptidão para agredir e matar os pontos com o forehand.

Essa conquista – de ultrapassar Borg – não é pouca coisa, e tem, na minha concepção, um quê emblemático: coloca o nome de Nadal na galeria dos grandes campeões apenas a um degrau abaixo da santíssima trindade do tênis, composta por Federer, Laver e Sampras (nesta ordem, no meu modesto ver).

Sob esse mesmo prisma de reflexão, isto é, colocando os números de lado e pensando a partir de dados subjetivos, não consigo ver, ainda, Rafael Nadal subindo este último degrau com o passar dos anos.
Mas, como o frenesi causado pelo espanhol – positiva e negativamente – é similar ao causado por Borg, talvez isto seja algo que eu deva repensar daqui a uns vinte anos. Uma revolução, afinal, só é revolução depois que saímos dela. E o Tribunal da História, no caso do tênis, fica logo ali.

 

Comentários do “patrão” Paulo Cleto:

Alguns leitores já se adiantaram em algumas boas colocações sobre os temas João Gilberto e Borg. Deixo o João para vocês.

Borg revolucionou o tênis em mais de uma forma, não só mediaticamente como menciona o Comentarista. Os tempos eram propícios, o tênis deslanchava no gosto do público, especialmente nos EUA, e a figura de Borg era extremamente carismática.

Mas o sueco revolucionou bem mais. Não só com sua magnífica esquerda com as duas mãos, que se não era novidade era extremamente rara e não ortodoxa, solidificando-se como um padrão que hoje é massivo.

Além disso, trouxe ao tênis o então chamado tênis-força, especialmente por conta do uso do extremo top-spin – graças a uma pegada radical e também totalmente não ortodoxa – da ancoragem no jogo de fundo de quadra, inclusive sobre a grama, algo inédito que mudou a arquitetura das estratégias do tênis, também inaugurando um padrão. A fugida da esquerda, para o ataque de direita também era algo que fazia.

O tênis de Rafael Nadal é de uma linhagem direta do tênis revolucionado por Borg. Talvez até por isso ele foi um dos primeiros a alertar que Nadal iria vencer também em Wimbledon. Do que se vê atualmente, Nadal nada acrescentou em termos técnicos – quem enxerga essa “novidade” é míope historicamente no tênis.

Borg também revolucionou em termos físicos, estando em um nível bem acima de todos seus adversários e predecessores – quem não se lembra do Nuno Cobra medindo seu batimento cardíaco e percentagem de gordura, caindo de costas com o resultado, antes de treinar Airton Senna? Seu preparo e sua velocidade – nas intermináveis trocas de bola seus adversários sempre se atrasavam antes dele – tornaram possíveis seus títulos tanto em Roland Garros como na grama de Londres. E foi exatamente nesse quesito que Nadal faria sua maior contribuíção à atual Revolução.

Além disso, Borg trouxe um clima e uma postura em quadra que estava longe dos padrões de então e cuja postura dos dois melhores tenistas da atualidade lembram bastante. Era extremamente contido e educado, não abrindo a boca em quadra para nada. Quando reclamou de juízes foi com os olhos e não com a boca. Seu apelido de Ice-Borg espelhava essa postura, que era um dos seus maiores charmes.

Lembrando o filosofo francês Giles Deleuze, existem dois tipos de campeões: os criadores e os não criadores. Deleuze, um fã do tênis, colocava Borg entre os primeiros, óbvio.

Borg e sua revolucionária esquerda em “open stance”.
 
Borg – até de joelhos ele jogou.
  
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domingo, 4 de julho de 2010 História, Tênis Masculino | 21:05

Revolução.

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Quando estava na universidade, ouvia aquilo que foi o início da bossa-nova por aqui e o rock’roll dos anos sessenta por lá, ambos dos quais sou fã até hoje, e me perguntava para onde iria a música. O que mais poderia ser criado? Os últimos quarenta anos vêem me mostrando.

Nos anos setenta, quando meu relacionamento com o tênis tomou outro, e mais definitivo, rumo, assistia os confrontos entre Borg, Connors, Vilas que, após os últimos suspiros de Laver, Rosewall e outros, foram criadores de um novo tênis, e me perguntava para onde mais poderia ir o esporte branco.

Para quem não viveu aquela época e não acompanhou os “grandes” de então, o estilo dos primeiros eram tão distinto dos segundos, e por isso tão revolucionário, que ficava difícil imaginar um futuro novamente distinto.

A época de McEnroe, Edberg, Becker, Lendl, Agassi e Sampras mostrou-se notável, mas não tão revolucionária. Tivemos também uma fase que para os brasileiros foi marcante – a de Gustavo Kuerten e seus adversários, como Kafelnikov, Bruguera, Hewitt, Safin, Rafter que trouxeram algumas novidades para o tênis moderno sem, no entanto, revolucioná-lo.

O tênis sempre teve grandes rivalidades – Laver e Rosewall, Connors e Borg, Borg e Vilas, McEnroe e Borg, McEnroe e Lendl, Lendl e Wilander, Becker e Edberg, Becker e Sampras, Sampras e Agassi, Kuerten e Kafelnikov, para lembrar as mais recentes – e cada uma delas foi a fonte de marcantes melhoras técnicas em nosso esporte. Não se trata de nenhum segredo que uma grande rivalidade em quadra, assim como uma forte competição no mundo empresarial, só traz benefícios ao esporte e ao mercado.

A nova revolução veio com a chegada e a presença, mesmo com uma diferença de cinco anos entre eles, de Roger Federer e Rafael Nadal. Nunca o tênis esteve tão perfeito e harmônico nos mais abrangentes detalhes dos quesitos atléticos e técnicos, como no existente reinado desses dois campeões.

Não vou me alongar sobre as distinções entre esses dois magníficos tenistas, algo bem conhecido pelos fãs do tênis atual. Além disso, esse aspecto da saudável e bem vinda competição entre eles tem, infelizmente, a nociva capacidade de florescer o que há de pior nos chamados “fanáticos”, uma raça que, para a decepção desses, está longe de fazer a minha cabeça.

Ao invés das diferenças entre ambos – tanto em seus respectivos estilos, técnica e personalidades, o que, para os de visão mais estreita, facilita essa, de curiosa polarização entre seus respectivos fãs – prefiro, hoje, ressaltar detalhes que os une.

Primeiro, e acima de tudo, o respeito que um tem pelo outro, o que per si é uma bem vinda revolução no tênis, e uma sempre presente resposta aos ignorantes e pára-quedistas que insistem em polarizar ambos, algo que talvez explique a eterna necessidade de conflito por boa parte da raça humana. Sei que é assim, só não me peçam para compactuar.

Além disso, e o mais interessante, por ser o mais difícil, a capacidade de jogarem bem em diversos pisos e a, não menos importante, de se sobreporem sobre seus mais brilhantes adversários com incrível regularidade, a ponto de muitos, erroneamente, acreditarem que os adversários de hoje são mais frágeis do que os de então.

É verdade que o establishment do tênis vem conspirando para que a primeira parte do acima seja viável. Ninguém mais aguentava as lentíssimas quadras de Roma, nem as exageradamente rápidas quadras indoors e as impossíveis quadras de grama. Fora as disparidades das “bolas cola” Tretorn, as chumbadas Pirelli ou, no outro lado do espectro, as voadoras bolas “coquinho” americanas.

Hoje os pisos, e bolas, são mais democráticos e uniformes do que duas décadas atrás e as radicalizações, tanto de um extremo como do outro, foram extintas. Isso formou uma geração capaz de jogar bem em qualquer piso, mesmo abrindo mão de um estilo – o saque/voleio – que sempre fez parte da cultura do tênis.

Não importa o quanto é mais democrático, continua sendo um feito vencer nos extremos. Se o saibro é um dos extremos atuais, também não é mais aquele “barrão” que um dia foi. Se a grama é o outro exagero, não é aquele piso rápido e intratável, que um dia levava tenistas à frustração, – especialmente em uma quinzena seca como esta, onde o jogo de fundo fica mais possível. Aliás, do jeito que as coisas caminharam, o piso asfáltico e rápido do U.S. Open é mais radical, em termos de velocidade e convivência do fundo da quadra, do que a grama (e a terra) de Wimbledon.

Independente da tal democratização, o feito de Federer em 2009 e o incrível duplo feito de Rafa Nadal, em 2008 e 2010, de vencer no saibro de Roland Garros e, duas semanas depois, vencer na grama de Wimbledon, os colocam em uma categoria de raros tenistas. Se a façanha de Federer é algo para nos deixar boquiabertos, o que dizer de Nadal a repetir em um espaço de três anos?

Rafael Nadal tem 24 anos, o que pode se argumentar ser o ápice do atleta, mas não o ápice do tenista. O espanhol vem mostrando melhoras em diversos detalhes de seu tênis, sem abrir mão de suas duas maiores armas – o magnífico poderio físico e o pródigo poder mental. Onde pode chegar com seus progressos é algo que, atualmente, só se pode especular, o que não é de meu gosto.

Venho colocando Nadal no mesmo pedestal de Borg no quesito mental, que considero o diferencial no tênis. É bom lembrar que o sueco realizou o feito acima em três oportunidades – 1978, 79 e 80. Tanto um como o outro conseguiu se impor graças, mais do que qualquer outra qualidade, a uma força interior única. E, muito interessante, nenhum dos dois era daqueles de “babar” em quadra, com exposições ostensivas de “força” na tentativa de intimidar adversários. Pelo contrário. Ambos têm a característica de deixar com que a raquete fale por eles.

Em Wimbledon, Nadal chegou ao seu oitavo título nos Grand Slams. Aos 24 anos pode sonhar e almejar recordes até pouco tempo inalcançáveis. Como sempre, como fã do tênis que sou, vou curtir cada passo de seu progresso. Imagino que, com a conquista de Roland Garros e Wimbledon praticamente no mesmo fôlego, ele vá para sua ilha e comece a planejar o seu novo feito – vencer o U.S. Open, o único Grand Slam que ainda lhe escapa. Aliás, o mesmo que para sempre escapou a Borg.

Nadal – forças e técnica formidáveis.

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domingo, 27 de junho de 2010 História, Tênis Masculino | 11:50

Domingo do Meio

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Como hoje não tem tênis em Wimbledon e vários dos leitores desconhecem a existência do “Domingo do Meio”, uma instituição tenistica existente somente em Wimbledon, publico abaixo trechos de duas de minhas colunas antigas, em época em que eu frequentava o evento, que joga alguma luz sobre o fato. A primeira foi escrita em 2001. A segunda foi escrita em 2004 e conta a exceção à regra.

 

Em Wimbledon existe uma evidente separação entre a primeira e a segunda semana do torneio. Para deixá-la mais óbvia, o Domingo é um dia sem jogos. Nenhuma razão é oferecida, alem daquela dada pela organização do torneio, com ligeira impaciência, que sempre foi assim e assim sempre será . O Domingo é o dia em que os perdedores almoçam em casa e os sobreviventes treinam sonhando até onde vão chegar.

Na cabeça dos jogadores é bem claro o conceito de chegar, ou não, à segunda semana. Estar nela já é uma conquista em si. Essa divisão é a única razão, na minha cabeça, para não se jogar no Domingo, algo só feito em Wimbledon. Acho o fato horrível, já que coloca uma pressão a mais no “schedule” dos jogos, que já é estressante pelas chuvas. Fora que é um belo dia para o público.

Outro fato me vêm à mente sobre as duas semanas de Wimbledon. A primeira semana sempre foi a minha favorita em Roland Garros, onde se pode assistir partidas de altíssima qualidade. Já em Londres é o oposto. As melhores partidas acontecem mesmo na segunda semana, quando os favoritos começam a se encontrar. O saibro é um piso muito mais democrático, em termos da qualidade do tênis jogado, do que a grama. Esta exige um “know-how” mais específico. Se o tenista não sabe jogar na grama, acaba fazendo o papel de bobo e se sentindo como tal.

Na segunda semana de Wimbledon, as partidas concentram-se nas quadras principais. As secundárias passam a ser usadas pelos juvenis e os veteranos. O evento juvenil, que é disputado desde 1947, é oficial e tem suas inscrições por mérito. O dos veteranos é um evento por convites. Entre os garotos já tivemos dois finalistas. O paranaense Ivo Ribeiro em 1957 e o carioca Ronald Barnes, o brasileiro com o tênis mais bonito e vistoso que já pegou numa raquete, em 1959. Quem me lembra o seu estilo é o suiço Roger Federer, tenista que é um prazer assistir. Entre as mulheres tivemos Vera Lúcia Cleto, chegando à semifinal em 1965.

Os eventos dos veteranos, todos eles de duplas, que vão estar assombrando as quadras na segunda semana, são divididos em acima de 35 e 45 anos para os homens e acima de 35 para as mulheres. Nos acima de 45 dos homens vale qualquer coisa e é uma ótima oportunidade de ver legendas do passado.

Um charmoso evento que deixou de ser disputado na segunda semana é o “Plate”. Ele aceitava os perdedores das três primeiras rodadas das simples em um novo evento. Também oferecia um pequeno prêmio em dinheiro e era uma boa opção para os tenistas que queriam um pouco mais de competição e “know how” da grama, ao invés de sair correndo para casa.

Mas foi extinto em 1981 entre os homens e 1989 entre as mulheres. O tênis chegara a outra geração que não jogava mais o esporte simplesmente por amor. Atualmente, o primeiro telefonema dos tenistas, após uma derrota é para a companhia aérea. A idéia é cair fora o mais rápido possível.

Entre os brasileiros, foram finalistas os paulistas Armando Vieira, que chegou às quartas de final da chave principal, em 1954, e a paulista Claudia Monteiro em 1982. O gaúcho Thomas Koch venceu o “Plate” em 1969 e 1975, mostrando que tinha um estilo que se adaptava bem à grama.

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Graças a sua tradição, provavelmente o evento esportivo anual mais antigo do mundo, Wimbledon manteve a sua áurea. Essa mesma tradição, que manteve o piso na grama enquanto os outros torneios se refugiaram em pisos menos nobres, por vezes beira a teimosia e por vezes é incompreensível para quem o visita, ou mesmo para quem nele joga. Os tenistas sempre tiveram com o evento uma relação de amor e ódio – ou se ama ou se odeia. Uma das peculiaridades deste campeonato de duas semanas é o fato de não haver jogos no Domingo do meio. O porque ninguém explica. Se perguntados, os organizadores afirmam, com ligeira impaciência , que sempre foi assim e assim será.

Não se trata de uma questão religiosa, pois a final masculina, momento máximo do torneio, é jogada no segundo Domingo. Mas em 1991, foram obrigados a ceder, pela primeira vez, na teimosia. Caiu muita chuva na primeira semana e o torneio prometia naufragar. Em 1997, repetiu-se o fato. Como na semana passada a chuva voltou a fustigar Londres, mais uma vez, de mau humor, os organizadores cederam.

Não existem ingressos para esse dia, assim como não há nenhuma infra-estrutura e logística para o mesmo – é hora do improviso. Da mesma maneira em que são bons na organização, os ingleses pecam no jogo de cintura. Como já estamos na terceira vez, estão aprendendo. Nas duas primeiras vezes abriram as bilheterias uma hora antes do início dos jogos, para um publico de 28 mil pessoas. O pessoal ficou horas numa fila única, atingindo mais de 4 quilômetros. Ontem abriram as bilheterias duas horas antes dos jogos. A fila caiu para a metade! Mas de uma hora depois de os jogos começarem, dei uma volta pelo clube e nem parecia que havia um campeonato acontecendo. As quadras secundárias estavam vazias, já que os primeiros 11 mil que entraram, correram para a Quadra Central. E as seguintes 10 mil para a Quadra 1.

A venda dos ingressos, e a conseqüente mudança do perfil do publico, fez com que a imprensa inglesa alcunhasse o dia como o Domingo do Povo. Como o sistema vigente de vendas de ingresso, obedece a critérios não muitos transparentes por partes dos organizadores, as entradas estão sempre na mão de uma elite ou então de pessoas dispostas a pagar uma fortuna no mercado paralelo. No Domingo do Povo quem chega primeiro é atendido primeiro. Por isso as filas, e por isso a presença de um público com mais cara de povão. Normalmente o pessoal da Quadra Central veste ternos e aplaude com parcimônia. No Domingo do Povo há pessoas com bermudas e aplaudindo com paixão. Os tenistas são unânimes em afirmar que adoram. É lógico, existe vida nas arquibancadas. Os sócios do All England Club torcem os empinados narizes enquanto ajustam a gravata.

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quinta-feira, 24 de junho de 2010 História, Tênis Masculino | 23:54

68 dragões e um vencedor.

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Essa partida de 11 horas está criando mais IBOPE para o tênis do que qualquer outra em memória recente. Saí na rua e as pessoas só falam dela. Falei com um amigo nos EUA, que não tem nada a ver com tênis, e ele comentou a respeito.

Li que até o Blog do Juca Kfoury publicou um texto a respeito, escrito por outro rapaz que lá escreve. Gostei, mas confesso que gostei mais do texto do Martin H, que aparece nos comentários – o enfoque é mais interessante.

Esse enfoque foi a razão de uma discussão filosófica aqui no blog, minha com o mesmo Martin H. No entanto, confesso que ontem e hoje também amaldiçoei o fato de ter que haver um vencedor em uma partida de tênis. Nunca foi tão injusto alguém perder uma partida como hoje. Se eu soubesse o email ou o telefone do Mahut ligava e oferecia o meu conforto e as razões para tal.

E mais uma coisa, que não vi ninguém comentar.

Quando a partida começou a se alongar, comentei que o vencedor provavelmente seria o Isner. Por que?

Não porque ele estava melhor, física ou mentalmente. Pelo contrário. Mahut estava muito melhor. Esbanjava físico, se dando ao luxo de até se atirar atrás de uma bolinha impossível. No início dos games, ficava pulando, mostrando disposição e atitude, isso com 8, 9 horas de jogo. Os pontos de seus serviços exigiam muito mais dele do que os do Isner e ele, Mahut, não mostrava sinais de esgotamento. Pelo contrário.

Sua postura era muito melhor do que a de Isner, que se lamentava, reclamava da sorte, abaixava os ombros e dava sinais de que logo se derreteria.

Então porque eu acreditava que o francês perderia? Porque ele sacava atrás.

Invariavelmente quem saca atrás em um 5º set longo sucumbe primeiro. A pressão é enorme, imensurável, inimaginável. Vocês lembram do Roddick contra Federer na final de Wimbledon no ano passado?

No entanto, Mahut suplantou todas as minhas mais ridículas e exageradas expectativas. Eu posso imaginar alguém sacar atrás até uns 15 x 15, antes de entrar em total parafuso, começar a falar sozinho, destruir uma raquete, chorar como se fosse uma criança. Posso até compreender uma dupla sobreviver mais alguns games.

Mas um tenista jogar atrás e segurar os games de seu serviço por 68 games consecutivos é algo que espelha uma força interior que eu considero super humana. As duvidas que devem ter assaltado a mente do tenista, a cada vez que ele sentou em sua cadeira, após ter em vão tentado abrir uma única vantagem, durante mais de seis horas, é algo que só ele, em todo o universo poderá dizer que um dia experimentou.

E assim mesmo ele encontrou maneiras afugentar a dúvida, esse mal que destrói nossas vidas, nos mais mínimos detalhes, nas coisas mais cotidianas. A cada vez, levantou-se e foi defender o seu saque com extrema coragem e convicção.

Tive a oportunidade de acompanhar boa parte do quinto set pela internet. Nicolas jogou com muito mais decisão e qualidade do que Isner, que dependia pesadamente de seu serviço. Mahut, a cada vez que falhava na tentativa de quebrar Isner, levantava da cadeira e seguia em direção a linha de fundo, tal qual um cavaleiro determinado e convicto ao enfrentar o seu dragão.

Sei que mais uma vez apelo, ao dizer que só quem enfrentou uma tarefa, de alguma maneira semelhante, mesmo em uma melhor de três sets, ou em um único set, sabe do que se trata. O rapaz jogou seis a sete horas e sessenta e nove games debaixo dessa pressão antes de sucumbir.

E não sucumbiu pela pressão. Sucumbiu porque Isner mudou a tática e Mahut caiu na armadilha.

Hoje Isner veio com uma nova tática. Deixou claro que a cada oportunidade iria à rede no saque do adversário. Com isso, induziu Mahut ao erro tático. O francês vinha ganhando os seus games mexendo o americano de um lado para o outro e metendo umas paralelas de surpresa e indo à rede somente para surpreender. Ao ver Isner tomando a rede, decidiu ir antes, em seu serviço. No game fatal perdeu dois pontos na rede, inclusive o match-point.

Mas esqueçamos esse detalhe. Para mim, o verdadeiro e maravilhoso espetáculo camuflado na partida foi a capacidade de Mahut manter o seu serviço durante 68 games jogando atrás no placar.

Se Isner venceu a partida e passou para a próxima rodada, Mahut fez algo que eu nunca imaginei possível e que nunca ninguém mais neste planeta fará. O verdadeiro vencedor – desta vez não moral, como dizia Claudio Coutinho – e sim mental, foi Nicolas Mahut. Enquanto o mundo enxerga Isner como vencedor e Mahut como o pobre e lamentado perdedor, eu declaro Nicolas Mahut o vencedor. Tenho a certeza que um dia ele encontrará forças para ver também dessa maneira. Porque hoje, infelizmente, entendo, será impossível.

Nicolas Mahut – o vencedor.

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quarta-feira, 23 de junho de 2010 História, Tênis Feminino | 17:42

Dez horas!!

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Inacreditável. Espetacular. A partida entre o gigante John Isner e o francês Nicolas Mahut que vão tentar amanhã, o terceiro dia de jogo – é isso mesmo, terceiro dia de jogo – decidir quem passa para a próxima rodada.

Cortesia da Be Arruda e o site Meninas Vodka.

Eles estão jogando há exatamente DEZ horas e a partida está empatada em 59 x 59 no quinto set. Isner é o novo de recordista de aces do tênis com 98, até agora, e Mahut vem logo atrás com 94. Ambos são recordistas em tempo de jogo. Duvido que um dia esses números venham a ser quebrados.

Infelizmente não pudemos ver pela TV, mas deu para acompanhar pela internet, mostrando qual é o futuro das comunicações.

Interessante foi, pelo o que acompanhei no quinto set, mesmo após terem atravessado o dia jogando a qualidade era alta e não um jogo de erros. São 333 bolas vencedoras e 53 erros para o americano e 318 e 56 para o francês. Quanto a emoções, nem é preciso falar.

O jogo continua amanhã. Como acabou agora e ainda não tem o horário, eu assumo que deve ser a segunda partida da mesma Quadra 18. Se o 1º for de mulheres, deve acontecer lá pelas 9h e se for após homens lá pelas 10:30h. E como tem jogo da Copa às 11h é bom torcer que seja de mulheres.

Maratona: Isner, Mahut e o juiz. E Isner indo ao banheiro no 57 x 57.

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domingo, 20 de junho de 2010 História, Light, Tênis Feminino, Tênis Masculino | 23:08

Tendência.

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Os coroas do All England Club nem sempre foram daqueles que acham que o lugar de mulher é na cozinha ou na Quadra Central somente de sainha de rendinha e raquete na mão.

Já mulher como juíza, em cima da cadeira, foi algo que se tornou realidade somente em 1981, mesmo para partidas entre as moças. Antes disso, eram somente homens nas cadeiras, pelo menos as de árbitro, já que nas de linhas elas estavam presentes há mais tempo.

No começo, eram só as bem coroas, assim como os homens. Os velhinhos que eles arranjavam para as linhas e cadeiras eram uma vergonha nacional – caquéticos e quase cegos era o padrão. Era a época dos voluntários, e isso até no mínimos os anos setenta, quando os juízes não recebiam nada além de um sanduiche e um muito obrigado – então eram catados no clube mesmo. E como lá só tem terceira e quarta idade…

Aos poucos um pessoal mais jovem começou a marcar presença nas linhas de Wimbledon, até por conta das perenes reclamações. As moças usavam saias largas, longas e nas cores do clube, verdes e lilás. Hoje deram uma modernizada e ficou um pouco mais fashion. O uniforme sempre foi feito sob medida para as juízas passarem despercebidas. Mas, para quem olhasse com atenção, podia-se encontrar algumas preciosidades camufladas.

Os ingleses – conhecidos pelo gosto por meninas adolescentes, em especial em uniformes, vide, por exemplo, o sucesso de Charles Dodgson, mais conhecido como Lewis Carroll e o fato de que até hoje as meninas vão à escola de ensino médio em uniformes, inviavelmente saias e blusas – encontraram uma maneira de colocá-las em quadra como pegadoras de bolas a partir de 1977.

Assim mesmo só deixaram as meninas-pegadoras chegarem à Quadra Central em 1985. Antes disso, só lá nas quadras secundárias, perante poucos olhos. Até os anos 30 os garotos eram recrutados em orfanatos e depois em escolas parceiras. Atualmente é aberto para mais escolas, com a garotada se submetendo a diversos testes e apresentando uma série de requisitos físicos e disciplinares. Um dos baratos de Wimbledon é vê-los descansando e dormindo lá pelos lados da quadra 11, onde deitam na grama e dormem sob o sol enquanto descansam como se não existisse Wimbledon ou público. Eles trabalham em turnos de 45 minutos a uma hora.

Voltando às juízas, ainda é mais comum ver homens nas partidas das mulheres do que o inverso. No entanto, hoje já são 132 delas trabalhando no evento entre cadeira e linhas. E, seguindo uma tendência que se firma mundo afora, agora é uma mulher que coordena eles todos – homens e mulheres. Os ingleses escolheram Jenny Higgs, de 63 anos, que começou a trabalhar ainda jovem nas linhas e fez seu caminho pelos corredores do um dia machista do All England Lawn Tennis and Croquet Club.

Mulheres em Wimbledon – uma das coroas dos tempos então, a juiza de linha atual, a pegadora de bolas e a juiza de cadeira.

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domingo, 28 de fevereiro de 2010 Copa Davis, História, Tênis Masculino | 13:48

Tremeu

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Apesar das finais de alguns torneios – Acapulco, Dubai, Delray Beach e Kuala Lampur – me sinto propenso a falar sobre o drama chileno.

Se é para fazer um link com o tênis da tragédia que aturde os hermanos, e que me deixa triste e passado, lembro do confronto da Copa Davis entre a Suécia e o Chile que era para acontecer a partir do dia 8 de Março de 1985, no Estádio Nacional de Santiago. Os suecos, liderados por Mats Wilander, e os então campeões, chegaram no sábado anterior e no Domingo a terra tremeu feio no Chile.

Os vikings subiram no 1º avião indo para algum lugar e abandonaram a competição. Lembro que a fugida deles causou o maior furor, já que os chilenos queriam jogo, que aconteceria no fim de semana seguinte.

Depois de muita, muita mesmo, confusão e negociações, uma nova partida foi marcada, cerca de um mês depois, lá mesmo em Santiago.

Desta vez, Wilander ficou de fora e os suecos foram de Edberg, um dos tenistas mais elegantes da história, que foi volear na altitude de Santiago, e Henrik Sundstrom, um maluco que foi campeão mundial juvenil, chegou a #6 do mundo e foi um dos heróis do título da Davis em 1984, ao bater Lendl na semis e McEnroe na final. Do dia para noite começou a perder partidas incríveis, pirou e desapareceu do circuito aos 25 anos. O encontrei pelas ruas de Paris 15 anos mais tarde em Paris, tomamos um drink e conversamos brevemente. Morava na Suíça e trabalhava como corretor de imóveis.

Os suecos venceram aquele confronto por 4×1, após Hans Guildmeister bater Edberg na 1ª partida. Mas Sundstrom bateu Pedro Rebolledo e Guildmeister e acabou com as esperanças andinas. Foi um dos poucos a bater Hans em Santiago.

No próximo fim de semana os chilenos devem receber os israelenses em Coquimbo, no norte do país. Por enquanto confirmam a competição. Não acredito que os israelenses vão criar muitas dificuldades, até porque em devem estar acostumados com a terra tremer, mesmo que por razões distintas.

Davis_Cup_1984s

Henrik Sundstrom, o primeiro a direita.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010 História, Light, Tênis Masculino | 18:31

Choro

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É cada dia mais raro assistir bons tenistas executando o saque/voleio com maestria. Uma consequência disso é a falta dos confrontos entre os agressores e os contra-atacadores, um dos confrontos mais interessantes do tênis.

Nas mulheres, nos tempos de Sharapovas e outras do tipo é quase uma nulidade. Allez la Justine e bem vida de volta.

Ainda hoje pude acompanhar, no torneio de Dubai, um pouco do contra-atacador Marcus Baghdatis lidando, com certa facilidade, com o alemão Michael Barrer, que se não tem um tênis lá muito bonito adora uma rede. O outro lado da moeda foi o jogo, que deve ter sido interessante, entre o grandão Cilic, que executa seu estilo do fundo da quadra, derrotado pelo habilidoso e excelente voleador Jurgen Melzer, um tenista que adoro assistir.

Tudo isso um mero devaneio para ofertar os meus leitores com um vídeo de uma partida entre um dos melhores saque/voleio de todos os tempos, Boris Becker, contra um dos melhores contra/atacadores da história, Ivan Lendl. O ponto mostra tudo que há para se empolgar quando dois tenistas de estilos antagônicos se enfrentam. Choro na rampa.

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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010 História, Tênis Masculino | 17:47

Ponto de vista

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Como os motores da temporada 2010 estão ainda se aquecendo – ou alguém realmente acredita que torneios-exibições valem alguma coisa? – tenho ainda uma ou outra história para contar. Estou lendo os livros do Agassi e do Sampras concomitantemente, o que é mais interessante, já que foram os maiores rivais de suas épocas, algo como Federer e Nadal agora. É interessante ler pontos de vistas diferentes sobre os mesmos acontecimentos.

Tentei também ler o livro biográfico do Nadal, escrito por um britânico, que é uma verdadeira brincadeira. Tipo do livro caça-níquel, já que não passa de um resumo de entrevistas já publicadas e reportagens de jornais, sem nada acrescentar. Mas voltarei em breve a me alongar sobre as duas biografias – Agassi e Sampras – que é o que interessa. Enquanto isso, pinço uma historinha que reflete bem sobre a mentalidade dos atletas, especialmente a mentalidade americana face ao tênis. Se isso mudou e quanto mudou é outra história.

O técnico de Sampras, Tim Gullikson, vinha sofrendo desmaios sem explicações. O diagnóstico final só apareceu em exame feito de emergência no início do Aberto da Austrália 1995. O técnico manteve o tenista no escuro, para sua própria proteção emocional, mas, obedecendo os médicos, teve que abandonar o evento e voltar para casa. Nos vestiários Sampras ouvia rumores que seu técnico tinha mesmo um tumor no cérebro. Entrou em parafuso no meio do torneio.

Nas quartas de final enfrentou seu arqui rival Jim Courier. O adversário venceu os dois primeiros sets. Sampras, brigando contra sua cabeça, seu emocional e o adversário, conseguiu igualar em sets, tudo isso sob alto clima de dramaticidade, já que as 16 mil pessoas na Rod Laver Arena haviam lido as manchetes daquele dia berrando sobre a repentina partida do técnico e sua suposta razão.

De qualquer maneira, após a virada do 1×0 no 5º set, Sampras levantou e sentiu o seu mundo interior desabar. Começou a chorar. Reza a lenda que um gaiato berrou “Vamos Sampras, esta (vitória) é pelo seu técnico. O americano insiste que é lenda e que se alguém berrou, ele não ouviu. Pete perdeu o game seguinte, jogou mais um ponto em seu saque e teve outro colapso emocional, interrompendo o jogo por instantes.
 
É aí que chega o assunto em questão. A lenda sempre foi, inclusive o Agassi assim a conta, que Courier, em um gesto de cavalheirismo, até pela amizade existente, apesar da rivalidade, (os dois, mais alguns outros poucos haviam jantado juntos com Gullikson na noite anterior, em uma espécie de despedida/força. Alem disso, naquela altura, Courier tinha 4 GS e Sampras 5, o que aumentava a rivalidade) chegou perto da rede e disse: “e aí Pete, tudo bem, se você quiser podemos parar e voltar amanhã”.

No livro, Sampras tem uma versão bem distinta. As palavras foram as mesmas, no entanto  Pete as entendeu de maneira bem diferente. Ele entendeu que o adversário sendo sarcástico, o estava desafiando e questionando, tipo, e a “tradução” é minha; “como é cara, vai ficar com essa viadagem, interrompendo o jogo toda hora e tentando me tirar de jogo ou vamos jogar?” (Dois pontos depois dá para ouvir no video Courier resmungando que agora ele começava a sentir mal.)

O fato é que Sampras ficou muito irritado, o bastante para afastar as nuvens das incertezas de seu coração e instalar em sua mente uma ferrenha vontade de vencer, apesar de tudo que remava contra. Ou seja, se tentando ser gentil ou verdadeiramente enchendo o saco, Jim colocou na fornalha a lenha que faltava para o outro levar o negócio até o fim e conquistar uma vitória – 7/6 6/7 6/3 6/4 6/3 – que se tornou histórica dentro do tênis. (É como sempre escrevo, o esporte é bem mais rico do que a atual rivalidade entre Federer e Nadal).

Sampras diz que nunca interpelou Courie a respeito e que nem pretende fazê-lo. Em sua visão, eram “somente dois bons rapazes, altamente competitivos, e as vezes bons rapazes jogam pesado”. Para mim, além de me lembrar de um dos meus filmes favoritos – Rashomon, do mestre Kurosawa – distintas verdades sobre o mesmo acontecimento – nos lembra que os grandes atletas e campeões encontrar motivações nos mais sutis detalhes, especialmente quando desafiados. Mesmo que só em suas imaginações.

Acompanhem no video acima como Sampras muda a tática – abandonando as insistentes esquerdas cruzadas para, de vez em quando, ir para paralelas que tiram o adversário da zona de conforto.


Neste video as emoções de Sampras aparecem, e o incidente a partir dos 7:30 minutos.

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