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segunda-feira, 20 de junho de 2016 História, Tênis Feminino | 01:27

Por um tênis limpo

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Eu ia escrever antes sobre o caso do doping da Maria Sharapova, mas não me animava. Sei que se colocar aqui tudo que penso sobre o caso, os amantes incondicionais da russa irão ficar enfurecidos e corro o inquietante risco de ficar lendo parvoíces nos comentários. Não aguento mais amantes incondicionais. Incondicional na vida só amor de mãe.

 
A penalidade de dois anos para a moça foi pouco. O tribunal que a julgou preferiu dizer que o doping foi “não intencional”, porque aceitaram sua alegação que desconhecia a proibição que entrou em vigor em 2016. Ao mesmo tempo que derrubaram todas suas desculpas e as alegações de seus advogados. Lhe tascaram dois anos, para ficar claro. O que a moça pecou não foi pouco.

 
Tanto pelo intuito em enganar suas adversárias, e assim os fãs do tênis, tomando uma droga que lhe amplificava o desempenho, como pela soberba em se achar acima do bem e do mal. Ela escondia das pessoas ao seu redor que tomava Meldonium, incluindo seus técnicos e sua nutricionista – boa razão devia ter. Tanto que ninguém pode lhe avisar – o único que sabia era seu agente, que “marcou toca”, como explicou ao tribunal. Sharapova, porém, chegou ao ponto de insinuar que a FIT deveria ter feito uma comunicação especial a ela sobre a mudança de status do Meldonium, droga pela qual foi penalizada. O comunicado foi enviado a todos os tenistas, ela incluso.

 
Ela tomava o tal de Meldonium há anos, assim como uma lista de outros 17 remédios conforme informou seu médico. Era uma farmácia ambulante. Só em 2015 cinco exames do anti-doping mostraram que ela tomava a substância. Seu propósito sempre foi ter a infame “vantagem”. Ela tinha plena consciência do que, e para que, tomava cada remédio. Só que muitas drogas consideradas dopantes são para, por exemplo, mascarar dores e contusões, algo também proibido, mas a intenção é de poder continuar jogando, mesmo contundido. É proibido, mas é diferente de quem toma para ter uma vantagem no desempenho. O Meldonium é para aumentar e melhorar a performance – doping na veia. Tanto que na receita, que o médico foi obrigado a apresentar, vinha com a observação dele que “nos jogos importantes” ela deveria dobrar a dose. Sei.

 
Maria, seus advogados e os tais fãs incondicionais defendem que antes de 2016 o Meldonium não estava na lista das substâncias proibidas, o que seria uma escusa. É aí que eu discordo veementemente. Quer dizer que se não está na lista, e o atleta sabe que está tomando uma droga que lhe dará uma vantagem sobre seus adversários, pode? Por isso que o mundo flerta com a sarjeta moral.

 
O que não se pode ignorar é que o Meldonium não estava na lista porque não estava no radar da WADA. Ou seja, era desconhecido para a WADA por ser uma droga quase restrita à Russia e países vizinhos – e de uso também restrito aos atletas dessa área. Só começaram a ter suspeitas quando começaram a constatar que vários atletas de lá, que foram pegos com outras drogas, também tomavam o tal Meldonium. Aí foram pesquisar a respeito.

 
Como o Dr. Eduardo De Rose, maior autoridade em anti-doping no Brasil, gosta de lembrar; o anti-doping está sempre atrás na corrida do doping; já que médicos e atletas de mau caráter estão sempre fazendo e experimentando de tudo para se manter um passo à frente.

 
É a mesmo raciocínio que, por exemplo, em tempos de novas tecnologias como a internet, se comete um crime, sabendo-se que é um crime, simplesmente por se tratar de algo que a atual legislação não prevê. Maria sabia que ingerindo o Meldonium tinha um diferencial a mais que suas adversárias não tinham e desconheciam; que é exatamente o que caracteriza o doping – a forma pouco importa, porque sabemos que existem inúmeras, centenas, de drogas proibidas exatamente por oferecerem essa diferença.

 
O caso Sharapova-Meldonium levanta ainda uma cruel ambiguidade. De um lado a hipótese, distante e irreal, de se liberar tudo, permitindo que os atletas passem a ser verdadeiras cobaias, e se descubra até onde o homem iria, física e mentalmente, com a ajuda da medicina e da tecnologia.

 
Convenhamos que muitos flertam com a idéia – só que aí não teríamos nem antidoping, já que a corrida tecnológica seria liberada e “democrática” – aberta para todos. Para vocês verem como o uso indiscriminado da palavra “democrática” pode ser perigoso, algo que quem reside no Brasil vem descobrindo recentemente, pela bocas de alguns dos maiores salafrários soltos (ainda) por aí.

 
Na outro lado, o real, fica-se nesse infindável jogo de gato e rato, onde atletas de formação moral duvidosa, contrabalançada por habilidades de ações marketeiras e mentiras deslavadas para permanecerem acima de qualquer suspeita, manipulando o que puderem, e mais um pouco, para ficarem à frente de seus adversários. Ressalta-se que, não poucas vezes, influenciados e/ou liderados por agentes gananciosos, quando não por times e federações.

 
Isso, sem falar no cenário de atletas corretos convivendo com uma perene guilhotina sobre suas cabeças, pelo compreensível pavor de ingerirem, por mero descuido, algo que esteja na lista de doping, o que pode acontecer, tendo que se sujeitar à exames imprevistos e incômodos, uma triste necessidade, por conta de uma fração de velhacos. Hoje, os tenistas, e imagino atletas de vários outros esportes (mas não todos como se sabe) evitam tomar qualquer coisa, até para um mero resfriado, sem a aprovação de seus médicos.

 
Todo esse cenário é resultado de atletas, agentes, times, federações, países (lembrem dos países da cortina de ferro (que ainda por cima alegavam ser seus atletas de “amadores”) em especial a Russia (ver o atual escândalo no atletismo russo, que culminou com a proibição do atletismo russo no Rio 2016) e a infame Alemanha Oriental, com sérias falhas de caráter que criaram essa situação horrível a que o esporte, em geral, se defronta. Por isso, não me convenço que Maria Sharapova merecia um mero tapinha nas mãos e uma pena mais branda.

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