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domingo, 5 de junho de 2016 Roland Garros | 17:22

É Paris. É Roland Garros!

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Durante anos pessoas diferentes me perguntavam qual o meu torneio de tênis favorito. Qual o melhor para ir? Durante anos respondi, sem hesitar, Roland Garros. Não mais. Não é algo que mudou este ano. Vem acontecendo, aos poucos, mas indubitavelmente. Agora chegou a um ponto de tristeza. Como ficamos quando perdemos algo que nos é muito querido.

 
Uma parte do encanto do evento sempre foi Paris. A cidade continua lá. Eterna e resplandecente. Talvez um pouco acuada e temerosa. Mas segue a cidade favorita de todos que a conhecem. Mas, não mais Roland Garros.

 
Sei que algumas coisas fogem do controle da federação francesa de tênis, organizadora do evento. Acontece. Mas, como eles têm lidado com os assuntos talvez não seja da melhor forma.
Todos sabemos que os vizinhos do clube não querem saber de novas obras expansionistas no local. A prefeitura de Paris tem hora que aprova e hora que não. Até porque os prefeitos mudam e o problema é antigo. Os conservacionistas bloqueiam as propostas da FFT, porque todas as soluções passam por invadir propriedades da cidade onde existem parques, áreas verdes e tombadas. E ali é Paris, não a casa da mãe Joana.

 

O fato é que as promessas das obras vem e vão, o que não é bom. E não se realizam, o que é pior. A FFT afirma, com razão, que o espaço existente não é mais compatível com o porte do evento para dias atuais. Já escrevi sobre os planos de expansão deles, que foram vários, o que tornaria o evento viável. O último era bem bonito. Mas tinhas minhas dúvidas que seria aprovado. Mas eles apostaram que sim. E os prazos se foram.

 
OK. Tudo isso são contingências. Problemas acontecem. O que importa é como se lida com eles. E aí entra o pecado. Este ano a casa caiu. Caiu porque uma situação de extremos – as chuvas que castigaram a cidade – escancararam as dificuldades e como estão lidando com elas.

 

Nao estou falando dos problemas que os tenistas – que pouca questão fazem de enxergar além do próprio nariz. Resolveram chiar barbaridades porque o evento não tem quadras cobertas, o que fez com que seus horários e interesses fossem virados de ponta cabeça. Li mais de um tendo a cara de pau de dizer que os tenistas são os últimos em quem eles, organizadores, pensam. Vamos falar de mimados…

 

Até pouco tempo atrás, Grand Slams não tinham quadras cobertas, a chuva caia e a fila andava. Se vivia e se lidava com isso. De um jeito ou de outros, sempre com exigências e paciência das partes envolvidas; público, tenistas e organizadores. Não dá para cair tudo só sobre a cabeça de alguns. Aliás, se for para não cair na cabeça de uma dessas partes seria na do público; que é o único que paga. E aí que reside o problema.

 

Roland Garros precisa crescer porque não tem as facilidades para oferecer o conforto necessário ao público que recebe. E que a FFT faz, há algum tempo? Coloca mais gente para dentro do complexo, tornando o local um formigueiro que transformou o prazer de se assistir tênis em um desprazer. Foi-se a época que se podia ir de uma quadra para a outra para acompanhar de perto os jogos nas inúmeras quadras secundárias – talvez o maior prazer para um verdadeiro fã do esporte. Ir só na Quadra Central na primeira semana é para arrivistas. E por isso vem o problema. Os fãs abandonam a Quadra Central e/ou a Suzanne Lenglen, onde jogam as estrelas e existem muitos assentos, e onde acontecem massacres nas primeiras rodadas, para acompanhar as batalhas mais equilibradas e interessantes nas secundárias. Essas quadras e as alamedas ficam mais apinhadas do que Ipanema em sábado de sol rachando.

 
Se você sai de um jogo, esquece, não entra mais. Para entrar então… Isso é algo que vem acontecendo com o público há anos, sem qualquer manifestação dos jogadores. Foi só quando mexeram com eles que reclamaram. É óbvio que eles têm suas razões, como veremos.

 
Desta vez até o publico, que paga quase qualquer coisa para acompanhar o único grand slam no saibro e ainda dá graças a deus, se revoltou. Isso por conta de como a FFT lidou com o assuntos dos ingressos perdidos por conta das chuvas.

 
Sem entrar nos detalhes, Roland Garros, como todos os torneios, tem regras sobre a devolução do dinheiro, ou parte dele, dos ingressos conforme o numero de horas de jogos que acontecem, ou não, em um determinado dia, por conta das chuvas. E teve um dia que a FFT fez os tenistas jogarem debaixo de chuva, em condições nada agradáveis ou seguras, para bater nas duas horas, o prazo mínimo para que eles não tivessem que devolver o dinheiro ao público. As reclamações foram enormes e gerais. E houve outros contratempos por conta das chuvas com todos reclamando.

 

 

Guy Forget, o novo diretor do torneio, explicou que não era bem assim. Colocou tentou colocar a responsabilidade sobre o supervisor da FIT, que manda, mas não tanto. Forget insinuou que se houvesse a devolução o seguro cobriria. Não sei quanto, mas como todos nós que pagamos seguros sabemos, existem carências e quando há um sinistro os preços do seguro aumentam.

 

Vamos deixar claro. Quadras cobertas serão bem vindas. Mas elas vem mais é para resolver o problema das transmissões de TV, que a FFT poderá vender melhor se assegurar a não interrupção dos jogos. O público, pelo menos o que tiver os ingressos para a tal quadra também agradecerá. Mas, por outro lado, se fizerem mais uma quadra/arena e não aumentarem as arquibancadas das quadras secundárias, um problema que não tem sido uma prioridade, o evento ficará ainda mais impossível. Imagino/espero que eles tem isso em mente.

 

Não vou listar aqui, mas, para alguém que frequenta o evento há mais de 30 anos, as mudanças estão em mínimos detalhes. E algumas dessas transparecem um mercantilismo que vem tirando o lustre do evento, tornando-o mais impessoal, cada vez mais corporativo. Um exemplo mínimo, mas que demonstra. Desde sempre adquiro a camiseta do torneio. Tenho inúmeras. Eram de um algodão ótimo, de qualidade. Durmo com uma de 1999 até hoje. A bichinha está lá, valente. As mais recentes são finas – não de elegantes, mas de quase transparentes. Não as uso. O preço? Subiu,enquanto que o padrão caiu. Antes era uma loja de vendas. Hoje são mais de uma dezena com tudo quanto é coisa. Ruim? Não, a oferta é uma coisa ótima, mas os preços e a qualidade mostram onde estão as prioridades.

 

É óbvio que houve melhoras para o público e, especialmente, para os tenistas, nos últimos anos. Mas, insisto, é no conforto oferecido ao público que eles tem pecado mais. Por isso, este ano, ao acrescentar o pecado da não devolução do dinheiro dos ingressos, por conta de dois míseros minutos, enquanto obrigavam os tenistas a jogar debaixo de chuva, eles uniram os dois grupos. E a casa caiu.

 

Meu receio, e que me forçou desta vez a repensar a minha tradicional ida a Paris na última semana de Maio, como fiz dezenas de vezes, é que a gestão atual mexeu com o que sempre considerei um programão. Hoje tornou-se quase uma contrariedade, no mínimo uma dificuldade. Vamos ver para onde irá. Pelo amor de Deus, aquilo é Paris, é Roland Garros, merece o melhor.

 

EM BREVE UM POST SOBRE AS FINAIS.

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