Publicidade

terça-feira, 12 de abril de 2016 Copa Davis, História, Juvenis, Roger Federer, Roland Garros, Tênis Brasileiro, Tênis Masculino | 00:49

Ganha/Ganha

Compartilhe: Twitter

Este ultimo fim de semana tivemos, pelo segundo ano, o Rendez-Vous à Roland Garros, uma parceria da FFT e a CBT, onde o vencedor do evento aqui realizado disputa, em Paris, às vésperas de Roland Garros, um torneio para o direito de jogar a chave juvenil do torneio.

 
No ano passado, o brasileiro Gabriel Decamps venceu aqui e em Paris. Ganhou o direito de entrar na chave juvenil, chegou às oitavas e perdeu para Taylor Fritz, que já está fazendo estragos entre os profissionais.

 
Desta vez o vencedor foi o paulista Lucas Koelle, um jovem que tive a oportunidade de presenciar em quadra em algumas oportunidades de treino. Uma jóia rara. É um atleta que o treinador não precisa ficar convencendo a fazer o necessário em quadra. Vem com a cabeça e corações prontos para o trabalho, talvez a principal qualidade que um juvenil pode trazer para os treinamentos. Infelizmente, a maioria acredita que possa ser a “habilidade”, a “esperteza”, a atitude do “sei tudo”, “qualidades” que jovens nessa idade acreditam ter de sobra e que, quase sempre, não passa de um delírio.

 

 

Lucas vem investindo na carreira, procurando maneiras de progredir, talvez nem sempre da maneira ideal. Porém sem alterar sua postura em quadra, o que conta muito. Morou uma época nos EUA. Tem disputado eventos aqui e no exterior. Chegou agora a #50 do ranking mundial juvenil.

 

O que me chamou a atenção, na conquista que lhe carimbou o passaporte para Paris, foi outra coisa. Fiquei sabendo que ele tinha, pouco antes, após muito pensar, aceito o convite para estudar e jogar em Harvard, uma das mais prestigiosas universidades do mundo.

 

Eu conversara com ele, pouco antes da virada do ano, na casa de amigo comum, sobre o assunto. Então estava intransigente na decisão de não aceitar o convite e se dedicar à carreira tempo integral.

 

Conversou com mais pessoas – o pai é um alto executivo e a mãe fez estudos em Harvard também – e mudou seus planos.

 
Chegou à conclusão que ir para Boston era uma situação de ganha/ganha. O mais difícil é ser aceito em tal universidade. Com eles insistindo no convite fica ainda melhor. Afinal ali poderá a enfrentar adversários competitivos, no circuito profissional, além de poder eventualmente participar de torneios de transiçao, enquanto faz seus progressos acadêmicos. Nesse ambiente de ganha/ganha poderá também, se vier a ser o caso, mudar de idéia e partir para outra.

 
A decisão já lhe trouxe a tranquilidade necessária para vencer o torneio Rendez-Vous à Roland Garros sem perder um set. Sua mãe confessa que nunca o tinha visto tão sereno em quadra.

 
Um dos raciocínios de Koelle foi sobre a idade dos tenistas na atualidade – estão atingindo seus melhores momentos aos 27 anos. Na verdade, não é novidade. Essa é mesmo a idade em que os tenistas equilibram sua parte técnica, emocional, física e flertam com seus ápices.

 
Até os anos 50 eles ficavam um tempo no amadorismo – que incluía os atuais Grand Slams – e depois seguiam para o profissionalismo, que era para poucos, bons e amantes incondicionais do tênis.

 

Nos anos 60 e 70 era padrão os tenistas irem primeiro para as universidades americanas e só depois entrarem no circuito profissional. Mc Enroe foi para Stanford já em 1978, quando ganhou o torneio nacional universitário. Seu irmão Patrick, se graduou 10 anos depois na mesma escola. No final dos anos 80 ainda havia vários bons tenistas que foram à universidade antes de se tornarem profissional. James Blake, quase um contemporâneo, também esteve em Harvard, o que pode ter influenciado Koelle.

 

Mesmo antes do ultimo fim de semana Lucas Koelle admitiu estar tranquilo com a decisão. Nesta 6a feira, vai a Boston, a convite da escola, conhecer melhor o local e as pessoas. Volta de vez em Agosto, quando começa o ano letivo. Até lá vai jogar em Paris e, quem sabe, ampliar ainda mais suas conquistas no tênis.

 

Por enquanto é um tenista que assume uma caminho diferente de muitos que tem como prioridade a carreira profissional. No fim da época juvenil os tenistas se vêem frente a frente à difícil decisão; continuar seus estudos em uma universidade americana, onde é ofertado a oportunidade de seguir competindo e fazer seus estudos, ou abraçar de vez, com bônus ou ônus, a carreira profissional e encarar a famosa e difícil transição, quando raramente, em especial os brasileiros, por força cultural, se tem a parte emocional pronta para o que vem pela frente. Uma ida a uma faculdade lhe compra um tempo que, atualmente, já não é tão crítico.

 
Se nos anos recentes o jovem começava a carreira aos 19 anos e a abandonava aos 30, agora, com o preparo físico no atual patamar, pode pensar em começar aos 22, com um diploma debaixo do braço, e jogar até 34 anos, como Federer, por exemplo, está a fazer com qualidade.

rg taça sp

Autor: Tags: