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Arquivo de setembro, 2015

terça-feira, 22 de setembro de 2015 Copa Davis, Tênis Brasileiro | 16:03

Dançando nas estrelas

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Infelizmente, escrever sobre confrontos de Copa Davis do Brasil deixou de ser um prazer faz algum tempinho, com raras exceçoes. Felizmente, minha paixão pelo evento é maior do que essas contingências.

Perdemos da Croácia em casa. O consenso original era que existiam diminutas, porém existentes, chances de vitória. Com a desistência de Marin Celic, o principal tenista adversário, as probabilidades se inverteram. Mas o jogo é na quadra.

Fala-se muito sobre a escolha de Florianópolis para sede do confronto. Nao sei os meandros da escolha. Mas temos dois pontos distintos a se considerar:
1- Nosso principal tenista nao tem características físicas, mentais e emocionais para gostar de jogos debaixo de solzao, calor, cinco sets, umidade e altura do mar – seu jogo nao rende como na altitude e clima mais ameno.
2- Nao se deve esquecer que quando foi feita a escolha do local o maior adversário era Marin Cilic (vindo de temporada em quadra dura) – um grande sacador, que joga reto e que nao ficaria tao à vontade no saibro e na altura do mar.

Foi-se o tempo onde nossos tenistas chamavam para dançar tenistas de qualquer estirpe, força e qualidade para confrontos de machos, de horas e horas, debaixo de condições terríveis como sao as de um país tropical e com tradiçao no saibro. Geralmente saiamos vencedores. E se perdíamos as derrotas eram vendidas bem caras e para times claramente superiores.

Começamos bem. Achei que o técnico croata mostrou respeito, e temor, ao nao colocar o Dodig em quadra contra o Bellucci. O croata, que é infinitamente superior àquele brincalhão que enfrentou Bellucci no 1o dia, havia perdido nos dois confrontos anteriores. Com isso tiveram mesmo é que apostar nas duplas. E com isso tiveram que acreditar que Dodig e o fantasmaço Skugor bateriam a dupla Melo/Soares, o garoto Coric venceria Bellucci e possivelmente o Dodig ganharia do Feijao. A estratégia funcionou. Mas funcionou porque o time brasileiro deu milho ao bode.

A derrota do Brasil começou a se desenhar nas duplas. Os brasileiros nao foram nem sombras do que estamos acostumados a vê-los jogar na Davis. Pareciam sem confiança no próprio taco. Bruno nao vem jogando no seu melhor padrão toda a temporada. Porém, Melo está, provavelmente, no seu melhor ano. O ponto era crucial? Era! Mas dupla é um jogo extremamente volátil, onde detalhes mudam o resultado. E no sábado, além de Dodig ter sido o melhor em quadra, o fantasmao Skugor nao se acuou diante de uma dupla de muito mais experiência. Acima de tudo, faltou algo à nossa dupla.

O que posso escrever que ainda nao foi escrito, desta e das outras vezes, sobre a derrota de Thomaz Bellucci? Dentro do time, a versão oficial é que ele sentiu dores nas costas, a razão para sua desistência. Na verdade, o capitao, e seu técnico pessoal, Joao Zwetsch, foi que deu o aval para Thomaz parar. Mas convenhamos, do jeito que vinha, com o placar que estava e o que Thomaz estava apresentando…. Faltou algo a Bellucci. Algo que nao poderia faltar em Copa Davis.

Para mim, e, pelo o que ouço, para muitos, Thomaz Bellucci é um enigma. O cara tem golpes para levar receio ao coração de qualquer cachorrao. Afinal é top 20/30 – o que nao é pouca coisa. Mas os cachorroes também aprenderam que ficando no jogo sempre existe a possibilidade de em alguma hora ele miar. Tenho certeza que se a dupla tivesse vencido, e assim tivesse sido colocado em suas maos a possibilidade da vitória do confronto e nao a responsabilidade pela a derrota no mesmo, o resultado do jogo poderia ter sido diferente. Isso para nao entrar, nem pela marginal, na análise técnica e tática do que ele apresentou.

A Copa Davis é a única competição coletiva no tênis masculino profissional e, mais importante, defendendo o país – e esse é seu grande carisma. Para tal è preciso um time. Às vezes um excelente jogador, mais um companheiro nas duplas, funciona. Às vezes dois bons tenistas levam a coisa pra frente. Às vezes uma boa dupla inspira um dos dois bons tenistas a se tornar excelente pelo menos nesse fim de semana. Mas, acima disso tudo, é necessário um clima no coraçao e mentes de todos os envolvidos onde a vitória é única opção e a derrota nao seja uma alternativa. É preciso saber que se joga por algo maior do que razoes e motivações pessoais.

É preciso ir além. É preciso romper os limites que nos fazem reles mortais e falíveis e explorar o universo que pode nos nos tornar poderosos e invencíveis. É indispensável a inspiraçao coletiva para que suplantemos o que somos individualmente por conta de nossas restrições pessoais, técnicas, emocionais, físicas, verdadeiras e falsas. É preciso querer dançar nas estrelas.

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terça-feira, 15 de setembro de 2015 Curtinhas, História, Novak Djokovic, Porque o Tênis., Roger Federer, Tênis Feminino, Tênis Masculino, US Open | 15:47

O US OPEN em três atos

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ATO 1 – A final masculina e seus contrastantes protagonistas

Assisti na internet uma entrevista de Boris Becker, que sempre foi um falastrão e ao mesmo tempo dono de enorme carisma, afirmando que se fosse na sua época enfiaria um saque “medalha” em Roger Federer, se o Boniton insistisse, após aviso, em receber o saque de perto da linha do serviço. Como seu pupilo nao tem esse perfil, nem o saque para tal, confidenciou ao rapaz o valor do saque no corpo quando o oponente começa a se adiantar e presionar.

A tática funcionou bem e segurou a onda do Topetudo, que assim mesmo insistiu em faze-lo. Eu, como nao tenho nada com isso e gosto mesmo é de Tênis e nao necessariamente de um tenista, vibrei e adorei as invasões suíças. E o cara está ficando melhor no golpe e mais carudo a respeito. No começo, semanas atrás, invadia uns três a quatro passos e respondia um pouco mais de slice. Contra Djoko era quase em cima da linha (acho que estava enviando alguma mensagem ao Kaiser Becker) e reto com uma pitada de spin – lindo de ver. Tao lindo quanto foi ver o servio encaixar lobs milimetricamente perfeitos como contra ataque.

Normalmente alguém é mais prejudicado do que outro quando uma partida é postergada várias vezes por conta do clima. Na final de domingo, o prejudicado foi Federer; e nao por conta do “aluguel” no vestiário. A diferença esteve no jogo ser realizado à noite e nao debaixo do sol. No calor, o jogo, por conta das bolas e do piso, fica mais rápido, o que ajudaria o suíço, que precisava de qualquer ajuda para vencer. Sabendo disso, o Boniton acabou enfiando um pouco os pés pelas maos na sua ânsia de chegar à rede, fator primordial na sua estratégia, correta diga-se. O problema é que faz tempo que Roger nao joga dessa forma, pelo menos no quesito quantidade, e acabou nao sendo determinante nos seus ataques junto à rede como gostaria e esperaria ser. Sem contar que, por ser uma final, ele nao conseguiu manter a mesma confiança e tranquilidade das rodadas anteriores.

A vaquinha suíça começou seu trajeto ao brejo quando o rapaz perdeu o primeiro set – ali notifiquei minha mulher, e meus seguidores no Twitter, que a sorte estava lançada. Roger precisava do 1o set. Tanto para mexer na admirável confiança do Djoko, como para poupar seu longevo corpo de quatro ou cinco sets.

Mas se Roger nao cacifou como gostaria, o crédito deve ir mesmo para Novak Djokovic, que jogou como um campeão. Soube executar seu plano de jogo e seus golpes com excepcional qualidade. Soube administra seu emocional, mesmo com a esmagadora torcida contra, o talento do adversário que é imenso e a eventual perda do segundo set. Nada disso o abalou a ponta de tirar o seu foco. Ao contrário, como um campeão, aprendeu a usar as dificuldades e contrariedades para ampliar sua motivação e aprofundar seu foco. E sempre que foi necessário, nos momentos chaves que definem uma partida, soube usar e abusar da Confiatrix, o elixir máximo dos campeões.

 

ATO 2 – O nao controle das massas. 

Às vezes chega a dar pena de Novak Djokovic – se é que se pode ter pena de alguém que é o melhor do mundo no seu esporte e ganha milhões por temporada por conta. Mas o rapaz gosta tanto de ser gostado que causa certo constrangimento em observar, repetidamente, que o publico mundo afora simplesmente nao o ama como se ama o melhor em qualquer esporte. Nao é o caso de ser odiado, como acontece com alguns malas ou maus caráter que permeiam o esporte em geral. Longe disso. O caso é que o público simplesmente nao compra seu peixe. É certo que ele mudou bastante, daquele que, no princípio da carreira, gostava de fazer graça às custas de colegas, de sair da quadra quando começava a perder jogos alegando dores e milonguices outras. Temos que reconhecer; mudou, mas parece que o público em geral ainda nao se deu conta. Uma pena, poque ele está cada vez melhor – dentro e fora das quadras.

Que o publico torceria pelo Federer todos sabíamos. Nao importa quem estivesse do outro lado da rede as arquibancadas sao de Roger. Rafa Nadal teve que suar muita camisa para ter alguma torcida ao enfrentar Roger – sem mencionar que passou anos anotando o nome do suíço na sua caderneta. Mas O Cara tem o Tênis mais bonito do circuito e ponto final – algo fácil de ser reconhecido – ainda mais por qualquer um que tenha empunhado uma raquete, a maioria em qualquer final de torneios de tênis.

Talvez Djoko pudesse ter outra estratégia para seu marketing pessoal, algo com o qual se esforça mais do que o Topetudo. Ao invés de tentar ser tao Politicamente Correto – tenho uma séria aversão a isso e a esses – Djoko beirou o ridículo ao ficar se desculpando em quadra por ter derrotado o favorito do público. Disse que seguirá tentando ganhar coraçoes e mentes do público. Talvez devesse ter uma conversinha com Roberta Vinci sobre os benefícios da transparência e da sinceridade.

 

ATO 3 – O bálsamo da humanidade e do humor.

E qual foi o melhor jogo do US Open 2015? À parte daqueles que nao assisti, e daqueles que nunca sairão da mente e o coração dos envolvidos, como a vitória de Fognini sobre Nadal, e a própria final masculina, principalmente pela qualidade técnica apresentada, “A Partida” do torneio tem que ser a vitória da italiana Roberta Vinci sobre Serena Williams, por tudo que envolveu e aconteceu em quadra.

Serena estava a duas partidas de gravar seu nome no panteão das inesquecíveis, algo que já conquistou por conta de seus 21 títulos de Grand Slams em simples. No entanto, o fato de conquistar o chamado “Grand Slam” – vencer os quatro GS no mesmo ano-calendário – aos 32 anos, algo já conseguido anteriormente por tenistas menos abrasivas do que ela, como Maureen Conolly, Margareth Court e Steffi Graf, faria muito bem à sua história. Até porque é considerada por muitos como a “melhor da história”, algo que nao abraço com a mesma desenvoltura. Todos os campeões, quando comparados com outros, devem ser olhados pela ótica das circunstâncias e das épocas. Serena bateria todas as campeãs do passado, se estas viessem para o presente com o exato mesmo tenis de entao. Mas é mais justo considerarmos as circunstâncias e a época. Além disso, um campeão se justifica por muito mais do que como batia na bolinha. Devem marcar suas épocas por suas posturas, dentro e fora das quadras, como lidaram com adversárias e adversidade, e como administraram todas as facetas de suas carreiras.

Talvez, por saber tudo isso, Serena foi transpirando a pressão que sentia, especialmente desde o jogo com sua irma, Venus, quando quase chorou em quadra mais de uma vez denunciando a perda do controle das emoçoes. Na semifinal nao conseguiu administrar a situação, o que lhe custou caro. E, para seu azar e desespero, enfrentou uma tenista única: Roberta Vinci. A italiana, uma veterana, é a mais “italiana” das tenistas italianas. Enquanto Serena babava de um lado da quadra, indo à loucura de até dirigir, mais uma vez, impropérios à oponente, esta nao só manteve a tranquilidade, como foi vários passos adiante. Aproveitou a “força” das arquibancadas e a tentativa de intimidação e o desespero da adversária para alimentar sua confiança e sua determinação em vencer. E conseguiu isso com uma categoria e alegria que Serena, que se recusou a confessar a pressão que sentiu, nem saberia como buscar.

O discurso de Roberta após a vitória entrará para os anais da história e foi “o momento” do torneio. Deveria é ser mostrado para todas as tenistas, especialmente as jovens, que ainda tem chances de serem “salvas”. A italiana jogou o “Politicamente Correto”, o “Discurso Marketeiro” no lixo e deixou o coração falar sem restrições e censuras. Como tem um bom coração, foi uma maravilha – quem nao ouviu procure na internet que vale a pena.

O jogo foi, mais do que nada, repleto de emoções, como deve ser um espetáculo esportivo. O final do 3o set foi para se ver de pé, andando de uma lado para o outro, como faria o Tio Patinhas se vivesse sob a tutela da presidenta Dilma. Se cobrassem dobrado aquela partida ainda seria barato. Nem Hitchcock escreveria um roteiro daqueles, especialmente pelo epilogo.

A final, contra outra italiana, Flavia Penetta, acabou sendo um desapontamento, considerando a semifinal. O gás de Roberta acabara no dia anterior e no TB do 1o set. Mas valeu por ter oferecido algo que nem o mais macarronico dos italianos teria a coragem de sonhar; duas italianas na final do US Open, disputada em quadras duras (na Itália praticamente só se joga sobre o saibro). A cereja do bolo foi Flavia, dona de um par de pernas e golpes de altíssima qualidade, mas nao da mesmo descontração de sua companheira, conseguir seu único Grand Slam no apagar das luzes de sua carreira e anunciar o fim desta.

Assistir as duas amigas conversarem, sentadinhas esperando a premiaçao, nao teve preço. Nunca aconteceu antes e, apesar de duvidar que acontecerá novamente, é o que espero ver no futuro. Como escreveu no Twitter o meu amigo jornalista Sergio Xavier: “E o que essas italininhas, Pennetta e Vinci, fizeram pelo tênis em dois dias? Injetaram humanidade, humildade, emoção e, de quebra, humor”. Em tempos onde o Marketing Pessoal é considerado artigo da mais alta importância para atletas nao é pouco como é um alívio.

 

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