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Arquivo de agosto, 2015

segunda-feira, 24 de agosto de 2015 Roger Federer, Tênis Masculino, US Open | 18:12

Saiu da caixa

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O tênis mudou muito e ninguém percebeu. Ou perceberam e o fato é que mudou em tantas maneiras que algumas seguiram desapercebidas. Hoje temos dois balzaquianos arrasando no circuito, independente de Serena e Roger serem ou nao os líderes do ranking. Ambos sao os tenistas com mais títulos, entre mulheres e homens, e ambos farão uma firme marca na história. E digo isso nao pelo fato de ainda jogarem competitivamente aos 34 anos (Serena completa em Setembro). Uma década atrás, nessa idade tenistas estavam em casa pensando qual seria sua próxima atividade ou profissão. Agora ambos estão jogando o melhor tenis de suas vidas, independente de nao estarem em seus respetivos auges físicos.

Uma das razoes para tal feito, a mais óbvia, é que os tenistas cuidam de seus corpos com muito mais know-how e a mais tempo do que antes. Imaginem se Gustavo Kuerten tivesse tido esse tipo de know-how a sua disposição quando iniciou sua carreira profissional. Além disso, Serena e Federer foram os tenistas mais dominantes de suas épocas. As consequências disso é que jogaram mais jogos importantes, adquiriram mais experiência em momentos determinantes, testaram seus golpes em situações de estresse mental/emocional e foram descobrindo com mais alcance o que funciona ou nao. Isso os fez melhores, compensando o que foram perdendo de vigor. Como fazem parte da primeira geração que investiu dessa maneira diferenciada no preparo físico, estão conseguindo alongar suas carreiras com extrema qualidade, usufruindo das descritas vantagens dessa longevidade.

Ambos tiveram picos e vales em suas carreiras, mais ou menos severos – Serena sendo bem mais radical nisso. Roger foi bem mais uniforme, o que acrescenta a sua grandeza. Seus maiores problemas foram uma certa acomodação técnica por ter siso considerado, prematuramente, como o GOAT, e Rafael Nadal. E ultimamente Novak Djokovic. Mas, para mim, seu maior adversário sempre foi os limites que se impôs.

Rafa Nadal deixou de ser sua pedra no sapato por razoes recentes bem conhecidas e as quais lamentamos muito. Sobre Novak, que vem jogando um tênis soberbo dentro de seus horizontes, os quais nao cansa de explorar, temos a surpreendente “aula” de ontem em Cincinnati. Sobre Serena já escrevi em outras ocasiões e escrevei mais no futuro.

Hoje o assunto é o notável torneio que Roger jogou em Ohio e a acachapante vitória na final.

Federer venceu Cincinnati sem perder um game de serviço. Uma conquista dessas em um evento desse nível e com os Oponentes do quilate disponíveis é algo para a história. Nao só pela extrema qualidade técnica necessária para tal feito, como pela exigência mental/emocional de se fechar a porta na cara de cada adversário a cada game de serviço.

Sim, me chamou a atenção Roger Federer conseguir manter a concentração a cada jogo, cada dia, cada game. Especialmente ele, que sempre teve a tendência a entregar uma ou duas rapaduras nos momentos de conforto. O cara jogou com o Tezao daqueles que chegam ao circuito e a confiança daqueles que estão se despedindo; um equilíbrio tanto raro como fenomenal e mortal.

Mas, o que mais me encantou, foi que, finalmente, aos 34 anos, o suíço saiu da caixa – o que, convenhamos, deve ser difícil para um helvético, mesmo Roger Federer.

Nunca o vi jogar assim. E sempre “cobrei” isso dele. Por que ele nao trazia para os jogos exatamente aquilo de mais surpreendente o seu talento pode oferecer? Um tênis incalculado, inaudito, imprevisível, impremeditado. Porque somente os gênios sao capazes de manter a qualidade, enquanto incorporam os adjetivos do instinto, algo que foge da equação da repetição, da lógica, do acervo construído dos reles mortais. No entanto, desconsiderando lampejos esporádicos e insuficientes, Roger se recusava a adotar uma estratégia onde os ingredientes excepcionais de seu repertório nao ficassem ocultos. Parecia ter pudor em apresentar o que pudesse ser visto como um avilte ao adversário; como se muito do normalmente fazia nao o fosse.

Quem viu a final, ou mesmo os outros jogos de Cincinnati, sabe do que falo. Quem nao viu perdeu o Cara respondendo serviço do #1 do mundo quase na linha do saque, chip and charge como há muito nao se vê, esquerdas de bate pronto, de slices, com top ou chapadas, voleios esticado no máximo da tensao corporal e acertando, direitas de ataque que viravam deixadinhas com uma sutil munhecada, forehands a la squash, serviços à punhalada e outras cositas más. O Homem saiu da caixa. Agora quero ver quem o coloca lá de novo antes do final do US Open. Acho que só ele mesmo.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2015 Novak Djokovic, Tênis Brasileiro, Tênis Feminino, Tênis Masculino | 20:47

Sétimo céu

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Certa vez, na quadra central do US Open, John McEnroe mandou um cara que estava nas primeiras filas da arquibancada apagar o charuto que infestava suas narinas enquanto ele corria atrás das bolinhas. Na época ainda tinha uns caras de pau que ficavam pitando praticamente dentro da quadra. A semana passada – seria isso um sinal dos tempos? – Novak Djokovic reclamou para o juiz que estava ficando enjoado com o cheiro de maconha vindo das arquibancadas. Na entrevista pós jogo afirmou, de bom humor, que o mesmo já tinha ocorrido na partida anterior. Ele até que levou numa boa, dizendo que alguém estava se divertindo bastante “no sétimo céu” em suas partidas.

A maconha nao é legal no Canadá, mas foi descriminalizada. Com receita médica na mao o da paz pode puxar seu fuminho sem ter que ir parar na carceragem. Se pego com quantias pequenas de maconha e sem a receita médica a pessoa nao vai presa – no máximo tem sua diversão confiscada ou se o policial estiver de mau humor escreve uma multa. Pelo o que sei nao existem cannabis cafés em Montreal, apesar de encontrados em Toronto. E nao tenho a menor idéia se é permitido ou nao o fulano acender um baseado em local publico – inclusive na arquibancada de um torneio de tênis.

Na final o estádio estava lotado e nao percebi nenhuma fumaça estranha, risadas fora de hora ou reclamações do servio. Se ele tem alguma coisa a reclamar da final é o quanto o seu oponente jogou de tênis. Fazia tempo que nao via Andy Murray tao a fins de ganhar. E mais tempo ainda que nao o via tao agressivo – tanto com a esquerda como com a direita. Isso para nao falar das idas à rede.

O interessante foi que a tática do britânico foi atacar o revés do servio – justamente onde se fala que é cutucar a onça com vara curta. Pois ele cansou de ir lá. Tanto com sua direita na diagonal, como com seu revés cruzado – nunca o vi pegar tanto a bola na subida e soltar o braço. Parecia macho, che!

Murray foi o alfa dog do começo ao fim. Ele determinou o ritmo da partida, ele decidiu se ganhava ou perdia. Djoko parecia nao estar preparado para o que veio do outro lado da rede. Mesmo viajando no 2o set e vacilando na hora de ganhar no 3o o escocês levou. Levou porque jogou mais. Levou porque desta vez quis mais e tem ferramentas para tal.

Dois anos atrás assisti Bia Maia perder no torneio juvenil de Roland Garros para a suíça Belinda Bencic. Na ocasião escrevi a respeito aqui. A partida foi bem equilibrada e a suíça levou porque quis mais e teve mais “cabeça” e coração. Porque golpes nao tinha nao.

Bia está de #167 no ranking, enquanto Belinda, 18 anos, está como #12 do planeta. Bia vem sofrendo com diferentes e graves contusões e mudanças de plano. Semana passada recebi um email notificando que assinou com a IMG, a maior empresa do mundo de gerência de carreira – o que será muito bom para sua saúde financeira quando começar a ganhar. Por outro lado, o email avisava que estava afastada dos torneios, por contusão, a mesma que a tirou do Panamericano e que nao trabalha mais com o técnico Marcos “Bocao” Barbosa, com quem treinava desde 2014, após 4 anos com Larri Passos e ser formada no E.C. Pinheiros. O email nao informava com quem ela irá treinar agora. Bencic ganhou o Aberto do Canadá em Toronto, onde bateu Bouchard, Wozniacki, Lisicki, Ivanovic, Serena e Halep. Tá fácil?

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segunda-feira, 3 de agosto de 2015 Tênis Brasileiro, Tênis Feminino | 13:24

O canal de Teliana

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Para quem nao vem escrevendo muito, nada como uma boa motivação. E no fim de semana vieram duas. Uma, que repercute aqui e mundo afora; as pazes de Rafa Nadal e os títulos, algo que o espanhol e seus fås queriam muito. Especialmente acontecendo sobre um tenista que já estava abrindo uma caderneta com o nome de Rafa, a ponto de durante uma virada de lado, o italiano Fognini ficar de pé, mandar o espanhol ficar quieto e parar de “encher o saco”! Bem..

Para nós brasileiros, a nota mais importante da semana no tênis veio pelas raquetes da pernambucana Teliana Pereira que fez uma das coisas que mais admiro e respeito no Tênis – vencer em casa. Foi o segundo título de sua carreira. Me fez lembrar um filme, nåo tåo recente, do Kevin Costner, “Campo dos Sonhos”, onde a frase chave é “se você construir, eles virão”, frase que virou icônica para vários usos. Bem, a CBT fez um evento no nível WTA em quadras de saibro e a Teliana ganhou.

Imagino que quando a CBT pensou em organizar tal evento a idéia era dar uma alavancada no carente tênis feminino. Talvez ainda com um pouquinho do gosto de “nós fazemos e elas faturam”, onde nossas meninas eram as coadjuvantes com sonhos de um dia serem protagonistas. Bem, o cenário mudou, o sonho se tornou realidade a a estrela da festa é uma brasileira com alma sertaneja, temperada no sudeste por um chefe francês e que hoje tem em suas entranhas, como é necessário para uma campeã de tênis, uma bagagem internacional. Com cada um dos itens tendo sua devida e insubstituível importância.

Nao deixa de ser interessante o fato de que Teliana ganhou em casa em uma quadra de saibro. Nao acompanhei de perto para lhes dizerem porque o evento saiu de quadras duras para o saibro este ano e, dizem, irá de volta para as duras. Bem provável por demanda da WTA, que quer impõe que o piso encaixe no calendário. Eu diria que com esse novo, e importante, fato, a vitória de Teliana, a CBT poderia considerar abrir negociações com a WTA. Evento no Brasil é para brasileiros aproveitarem e, havendo um mínimo de chance, ganharem. Infelizmente durante nossa história somente Gustavo Kuerten, Luiz Mattar e Jaime Oncins e agora Teliana tiveram o que é necessário mental e emocionalmente para tal conquista, porque se fosse só pela técnica outros tiveram pelo menos essa capacidade. Óbvio que estou me referindo a torneios do circuito top, como os da WTA e da ATP, porque nos Challengers tivemos outros que souberam aproveitar as chances.

Teliana está, mais uma vez, de parabéns. É uma atleta a se respeitar. Seu arsenal técnico é limitado, seu background familiar longe dos privilégios – o que para mim se torna uma vantagem no longo prazo. Se o tênis feminino tem um futuro no Brasil, nao me canso de dizer isso, ele está nas periferias e nas zonas mais carentes do país, um perfil do qual Teliana é uma digna representante. O tênis competitivo internacional é um esporte danado de difícil e que exige muito do emocional da mulher – podemos dizer que para nossas meninas é massacrante. Por isso, o respeito pelo o que Teliana vem conquistando.

Uma maneira de observar seu valor é notar que somente aos 27 anos Teliana desabrocha internacionalmente. Antes estava lutando com seus inúmeros handicaps, derrubando os muros em seu caminho, desenvolvendo sua arte, polindo seu diamante tenistico. Tudo isso, sem as facilidades do talento natural e da habilidade que facilitam os primeiros passos, sem as benesses que uma família de posses pode oferecer, longe da vidinha do shopping center.

Teliana aprendeu cedo e em casa que o tênis era uma porta para tirar alguém de uma situação de pobreza e oferecer possibilidades de uma vida melhor. Para isso teve, inicialmente, a mao do pai, um lavrador que saiu do agreste a procura de um emprego no Paraná. Quando sentiu firmeza e construiu uma casa com suas maos trouxe a família. Eram 8 irmaos, uma barra que mae teve que segurar lá fronteira de Pernambuco e Alagoas.

O pai foi fazer manutenção das quadras em uma academia e a mae a faxina. Teliana foi pegar bolas, assim como seus irmaos; Junior, ainda um bom tenista e Renato, seu técnico atual. Como muitas vezes acontece, os pegadores se interessaram pelo jogo da raquete pelas maos do professor da academia, o francês Didier Rayon, a quem Teliana agradeceu em quadra após o título.

Teliana se tornou a melhor juvenil do país, assim como Junior. Mas ainda teve que comer muito pão amassado pelo diabo pelo caminho. Inclusive uma contusão no joelho, que por falta de melhor orientação e dinheiro para se cuidar, atrasou sua carreira em quase dois anos. Mas seguiu em frente. Com certeza, como toda história de sucesso, existem muitas histórias tristes, surpreendentes, alegres e fascinantes, conhecidas e aquelas que nunca serão contadas.

A mais importante agora é essa que a moça do agreste, que poderia estar com uma enxada na maos e uns oito filhos debaixo da saia, todos com escarsas chances de vingar, está escrevendo uma nova história com uma raquete nas maos. É fácil dizer que o tênis é que propiciou isso. Mais acurado dizer que foi a ferramenta. O que tornou isso uma realidade foi a determinação, filha da força de espirito, produto de alguém que um dia teve muito pouco, quase nada, além da energia sagrada que vem da família, uma chance na vida e um coraçao guerreiro. É isso. O Tênis, nao o shopping center, fica com o crédito de ser o canal pelo qual Teliana pode mostrar seu valor.

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