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Arquivo de abril, 2015

quarta-feira, 22 de abril de 2015 Tênis Brasileiro, Tênis Feminino | 14:29

Um marco

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Apesar da consagradora vitória de Novak Djokovic em Monte Carlo, vencendo assim os três primeiros títulos de Masters 1000, sendo o 1o tenista a faze-lo, a figura da semana foi Teliana Pereira, conquistando o primeiro título para o tênis feminino brasileiro no circuito WTA em 27 anos – o ultimo fora de Niege Dias. Teliana vem crescendo tenisticamente com o tempo, ao contrário de outras que param no tempo e se acomodam. A moça é guerreira e, aos poucos, vem conseguindo com que suas carências diminuam e suas qualidades se ampliem, uma virtude para qualquer atleta. Ela nunca foi uma tenista para quem as coisas vieram fácil. Nem pela sua origem social, nem pela ausência de grandes habilidades. É um claro exemplo daquilo que prego há anos. As tenistas brasileiras teriam maior sucesso vindo das classes menos abastadas – da periferia mesmo. O tênis é extremamente punitivo emocionalmente, para nao se falar nada da parte física, e nossas meninas parecem nao estar equipadas com a necessária força interior, muitas vezes oriunda da necessidade, para derrotar meninas de outras áreas do mundo que hesitam menos em pagar o amargo preço para o sucesso nesse esporte. A vitória de Teliana passa a ser um marco, uma inspiração e um exemplo para todas.

Colocado tudo acima, nao deixa de ser interessante o caso de amor que a cidade de Bogota tem com o tênis brasileiro. Lembro que Carlos Kirmayr e Marcos Hocevar tiveram bons resultados por lá. Marcos Daniel foi à final e/ou conquistou nao sei quantos títulos por lá que é considerado o Rei de Bogota. A curiosidade fica mais interessante considerando que a cidade está a 2.600m, o que altera drasticamente a maneira de se jogar. Teliana soube tirar proveito da pequena tradição e das condições. Mais uma razão para parabeniza-la.

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domingo, 12 de abril de 2015 Porque o Tênis., Tênis Masculino | 15:42

O que mudar no saibro

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O amigo e colega Jose Nilton Dalcin, que há anos comanda o Tenisbrasil, site mais antigo e de maior sucesso do tênis brasileiro, me passa a tarefa de lhe enviar uma pauta sobre as adaptações que um tenista profissional deve fazer para realizar com sucesso a transição das quadras duras para o saibro. O tema tem a ver com o momento, já que começa a temporada européia, que é quando todos os tenistas, nao só mais os amantes da terra vermelha, que tiveram um gostinho no circuito da América do Sul, tem que abraçar o saibro como única alternativa.

Primeiro é bom dizer que tenista é um dos animais mais conservadores do planeta e odeia mudanças e adaptações. Adaptar, pra eles, é pirar. Dito isso, alguns nao mudam nem que a vaca tussa, e nao é vaca do PT, que se apertar muda. Alguns nao mudam nao é porque nao querem e sim porque nao tem para o que e como mudar – faltam opçoes técnicas para apresentar algo diferente. E, se mudarem, a emenda pode ser pior do que o soneto, o que nos leva de volta à primeira observação.

Nao custa desviar um tiquinho do assunto e dizer que uma das razoes da derrocada do tênis norte-americano é que nas ultimas décadas uniformizaram bastante as condiçoes do circuito, alterando a velocidade das quadras duras, eliminando os carpetes e uniformizando as bolas. Hoje é pequena a diferença entre os dois pisos e, em consequencia, a obrigaçao da tal “adaptaçao”. Antes os americanos tinha o circuito deles, que era a maioria, com as quadras duras e as quadras indoors com carpete, enquanto os europeus e latinos tinham só a janela de três a quatro meses do saibro europeu. Agora é a época da homogeneidade.

Pelo estilo, pela “escola”, pela cultura, pela cabeça, alguns estao mais aptos para um ou outro piso. Exemplo? Os espanhóis e latinos gostam da terra e os americanos gostam da quadra dura. O que tem a ver com os primeiros três quesitos. Americano cresce valorizando o serviço forte e decisivo. Espanhol cresce valorizando a alta porcentagem de 1o serviço em jogo. Espanhol gosta de ficar dois ou mais passos atrás da linha de fundo, correndo como cachorros mordidos, deixando que a bola à eles cheguem, já sem o peso, investindo em criar alternativas táticas, usando a arquitetura da quadra, para forçar erros dos oponentes, que acontecem por instabilidade técnica dos golpes, preparo físico abaixo do par, velocidade lateral menor e golpes com menor alavancagem de pulso, incapazes de gerar o necessário top spin, que é o que acrescenta segurança e profundidade aos golpes.

Do outro lado, os americanos, ou qualquer tenista que tenha golpes mais retos e gostem de jogar mais próximos da linha de fundo, para poderem “tomar” a quadra, mandarem no ponto e assim abreviarem a disputa. Esse pessoal nao gosta de esperar a bola – vai pra cima dela, batendo mais bolas na ascendente, cortando o tempo de reaçao do oponente.

Dizer que é o saibro nao basta. É importante considerar outras variáveis, como a altitude da cidade. E bem diferente jogar em Madrid e em Barcelona. Avaliar as condições do piso, se lento ou rápido, pesado (úmido) ou escorregadio (seco) – e os franceses sao os que mais mexem nessa opção – se a bola é rápida ou lenta, se está sol ou nao, sendo que o sol deixa o jogo mais rápido. Essas variáveis sao vitais na estratégia da adaptação.

Para quem pode adequar, ou customizar, a preparação física, na quadra dura a ênfase pode ser na velocidade, nos passos curtos de ajustes e um tenis mais anaeróbico. Na terra, o investimento seria na durabilidade e no aeróbico, para durar nos pontos mais longos, no escorregar, na qual os americanos, por exemplo, sao quase ignorantes.

Como na dura a idéia é abreviar e no saibro é alongar os pontos, o pessoal com instinto mais matador, que se dá melhor nas duras, é obrigado a abraçar um espirito mais paciente, com uma mescla mais intensa de ataque e contra ataques, uma perspicácia maior para a transiçao do defesa para o ataque, e vice versa, uma atenção e concentração maior, para bem avaliar as mudanças dentro do ponto e ficar vivo até a hora do bote final que, ao contrário das duras, acontece em um crescendo de golpes, alternâncias e colocações.

A esta altura alguém já está perguntando: se é assim como o Paulo Cleto escreve, porque um cara como o Murray, que adooora correr como uma gazela no cio na floresta de Nottingham, um animal tático de primeira linha, nao se dá bem na terra? Simples! Nao basta correr, tem que ter os golpes apropriados – o principal sendo aquele top spin que mencionei acima. Tem que saber, e poder, expulsar o adversário de dentro da quadra (vejam o El Gancho do Nadal). Tenistas como o Murray, o Hewitt sao contra atacadores que vivem da força alheia, nao conseguindo gerar tanta velocidade e spin nos golpes, especialmente na direita. Mesmo um tarado como o Berdich, que tem a mao pesada e consegue fazer a bola andar barbaridades, sofre na terra, porque nao tem o corpo correr por muito tempo, só joga reto, que nao tira o adversário da quadra e, pra machucar, corra mais risco a cada golpe, quando aparecem os erros precoces. Ele, como alguns outros, só gosta de joga em cima da linha, utilizando praticamente nada do movimento de “sanfona”, de defesa para ataque e vice-versa.

Com isso, saliento outra mudança tática para o Zé Nilton. Uma coisa que o tenista tem que fazer, mais do que na dura, é fugir com maior frequencia da esquerda e atacar com sua direita. Na terra, esquerda nao ganha jogo (ela evita que você seja derrotado); é preciso, na maioria das vezes, do forehand para dar uma bola vencedora no barrão. E mesmo aí tem um probleminha. Alguns tem o golpe tao reto que se ficam ali dentro da quadra, tentando pegar a bola na subida, podem dançar. Porque, ao contrário da quadra dura, que tem o quique uniforme, no saibro podem ter os morrinhos artilheiros e desvios alhures. Mais atrás da linha, onde fica a espanholada, dá tempo de ajustar e evitar o erro – alí na frente é preciso muita mao para o ajuste e mesmo assim nao sai mais aquele torpedo definitivo. Até por isso, uma outra diferença – uma quadra de saibro de primeiríssima é muito diferente de uma de primeira.

Treinei um tenista no circuito profissional que no 2o serviço na terra, usava o spin, alto e longo. Ele mirava na linha do saque, investindo em um desvio da bola, por menor que fosse, na linha ou na junçao da linha com a terra, para forçar um erro, nem que fosse uma devoluçao defeituosa, para partir do ataque. Um grande tenista nao tem medo de dupla falta. Dupla falta na rede é coisa de quem encurta o braço; a longa é de quem quer ganhar jogo – especialmente se você nao estiver no “clube dos com mais de 1.90m”, quando sacar é mais simples. Na quadra dura, um daqueles fantasmoes dá um sacao e faz 15×0. Mesmo os nao tao fantasmas sabem que se encaixarem um bom primeiro saque a porcentagem de vencerem o ponto é alta (de 80% pra mais). No saibro essa porcentagem é menor, o saque menos decisivo e por isso a mudança do saque reto para o com spin, para investir na expulsao do oponente de dentro da quadra e evitar os ataques de resposta de serviço. Além disso, na dura se saca bastante o 1o serviço fechado (no meio), na terra se saca mais aberto, em especial no lado da vantagem, para se abrir a quadra e iniciar a correria.

O que nos leva a outra adaptaçao. A da resposta de saque. Se na quadra dura dá pra vir para cima da linha e bloquear, no saibro é melhor ficar mais atrás, deixar a bola perder a força e alongar a devoluçao. É só lembrar do Gustavo Kuerten, em uma situaçao que deixava seus fas intrigados, já que achavam que ele deveria ficar mais à frente o saque.

O que me leva a conclusao final: a maior adaptaçao que o tenista deve fazer é a mental. Se o cara vai para a Europa sem saber como e sem adaptar com o que vem pela frente vai dançar ( o inverso também é um fato). Mais do que nunca os tenistas estão preparados para chegar a tudo quanto é bola e mandar mais uma de volta; e com potência, colocaçao, variaçao, buscando neutralizar um ataque. A cada vez que alguém é obrigado a executar um golpe a mais, aumenta a probabilidade do erro, que é a estratégia final no saibro. No início da temporada de saibro é necessário o tenista rever sua tática e, especialmente, sua mentalidade, aceitando que vai passar mais tempo em quadra, abraçando o sofrimento, se propondo a correr como um desgraçado para fazer um mero 15.

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segunda-feira, 6 de abril de 2015 Masters 1000, Novak Djokovic | 20:01

A distância

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A distancia entre o céu e o inferno na vida de um indivíduo é medida pela diferença entre aquilo de melhor que ele poderia ser e o que de fato foi. O único abrandamento a essa perspectiva é se o indivíduo fizer de caso pensado a decisao de nao explorar seus limites, cedendo à prerrogativas pessoais, algo que requer ou coragem ou inconsequência, sendo difícil julgar à distância qual das duas prevaleceu.

Quem segue há tempos meu Blog sabe como enalteci o tênishabilidoso e tático de Andy Murray, sendo tal louvação criado certa ferrenha oposiçao por parte de uma pequena leva de sofasistas que mal podiam distinguir um slice de um top spin. Nos idos tempos, o mundo ainda se dividia entre o bem e o mal e Federer e Nadal. Hoje está cada dia mais difícil para as pessoas distinguir os primeiros, para mim nunca houve duvidas, e a nada temperada rivalidade FeDal está cada dia mais próxima de ter seus dias contados.

A rivalidade entre Djokovic e Murray vem tentando se firmar e substituir aquela que deve passar para a história como a maior de todas. Pelo menos por parte de Novak Djokovic. Porque, ao contrário do que muitos, pelo menos os que cabiam dentro de uma Romi Isetta, podiam imaginar, Murray está perdendo sua carona na história. Ele tornou-se um grande jogador, um tenista tecnicamente gostoso de assistir, mas quase impossível de se torcer por ele por conta de quase esquizofrenia em quadra. Ainda está longe de encontrar o caminho da grandeza, algo que Djoko vem buscando incessantemente, mesmo com suas limitaçaoes que, para ele, um grande guerreiro, só servem de motivaçao, nunca de empecilho.

Murray, por outro lado, se entregou á pequenez. Investiu como nenhum no preparo físico e se tornou o maior buscador de bolinhas do circuito. Corre como um cavalo para os lados, para a frente e para trás, dura mais do que qualquer um em um ponto. Mas quando tem que mexer os pés, para dar dois ou três passos de ajustes para definir pontos importantes, prefere a letargia. Consequentemente se posiciona com erro e perde pontos ridículos de fáceis para sua capacidade. Ele joga de igual, técnica e fisicamente, com os melhores do mundo, mas carece de uma mentalidade que faça face aos cachorroes. Se permite alternâncias de qualidade que um jogador com mais altas ambiçoes nao pode se permitir. Por isso morre na praia da magnificência.

Na final de Miami, do outro lado da rede, seu adversário, que conhece seu jogo e estilo melhor do que a palma da própria mao, entra em quadra com o jogo ganho. Para isso, carrega tao somente a certeza de que deve jogar o seu melhor, com disciplina e constância, que o MalaMurray entrega a rapadura na hora da onça beber água.

Nao custa lembrar os dois se conhecem desde os tempos de infanto-juvenil e formam uma das mais longevas rivalidades. Além disso, tem somente uma semana de diferença de idade (Murray sendo o mais velho) entre eles. Do total de confrontos com profissionais, Djoko tem 18 vitórias e 8 derrotas, tendo vencido as ultimas sete; das ultimas onze venceu dez, sendo a exceçao a final de Wimbledon2013 – onde Murray tinha uma motivaçao extra – o que deixa ainda mais evidente o meu ponto.

Murray melhorou consideravelmente quando sob a tutela de Lendl, mas nem tanto sob Mauresmo, mais uma “decisao Murray” no seu caminho. A única coisa nova que apareceu recente foi a direita angulada, que cria um buraco na quadra adversária mas, por outro lado, perdeu a direita paralela, que é o complemento da jogada.

Já Novak fez mais uma de suas cartadas na busca do topo do ranking e da história, ao contratar Boris Becker. Duvido que Becker acrescentou muita coisa no aspecto técnico, e nem acho que foi para isso que veio. Talvez o saque – com certeza nao o smash! Que vergonha esse golpe do servio, parece um 3a classe em mau dia.

Mas Djokovic compensa essa e outras carências – como o saque, os voleios e a dificuldade de lidar com bolas sem peso – com outras importantes qualidades. O cara é uma Rocha de Gibraltar nos golpes de fundo, tem um preparo físico impecável, uma mobilidade e elasticidade de bailarino, uma vontade de ganhar ímpar (e aí acaba com seu PatinhoMurray) e entende a capacidade, e necessidade, de manter o padrao de qualidade durante um jogo e um torneio.

Considerando o conjunto da obra, Novak Djokovic segue sendo o melhor tenista da atualidade, especialmente quando colocado dentro do contexto de um campeonato. Sua maior qualidade é que entendeu, muito cedo na carreira, a importância que todo o aspecto mental acrescenta à carreira e ao jogo. É um tenista de limitadas habilidades, mas soube, melhor do que qualquer outro, colocar diferentes peças do quebra-cabeça no lugar e se tornar um magnífico atleta-tenista. Esse vai dormir tranquilo quando ao encerrar a carreira e enxergar o que poderia ter sido e o que foi. Enquanto isso, fica de exemplo para um universo de maricotes que por ter um pingo de talento/habilidade se acham os reis das cocadas pretas – uma das minhas delícias favoritas.

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