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Arquivo de outubro, 2014

segunda-feira, 20 de outubro de 2014 História, Juvenis, Light, Porque o Tênis., Tênis Brasileiro, Tênis Feminino, Tênis Masculino | 00:30

O rei dos pangas

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Como todo cara simpático, Vic era ótimo contador de histórias. Como todo bom professor de tênis, tinha ótimas histórias pra contar do seu esporte. Uma de suas favoritas era de como se apaixonou pelo tênis.

Aos 11, anos, andando por um parque em Monroe, Michigan EUA, passou pelas quadras de tênis exatamente quando abriam uma lata de bola e aquele cheiro característico da borracha e do gás que colocam na lata inebriou o ar por instantes, o bastante para enfeitiça-lo. Ficou por ali, secando os tenistas, esperando que um deles mandasse uma bolinha por cima do alambrado. Quando o gerente das quadras o pegou tentando fugir com uma delas o enquadrou: escolha, ou vai preso ou aprende a jogar! Ele afirma que escolheu a segunda alternativa e abraçou uma paixao para o resto da vida.

Nao importa muito se a história é real ou nao. Afinal, na minha juventude, pelo menos no Brasil, as bolas ainda nao vinham pressurizadas – elas vinha em caixas de papelao e embrulhadas uma a uma em papel como drops dulcora. Só nos anos stenta isso mudou. E Vic Braden, que morreu esta semana aos 85 anos, o que situa sua história em 1929, três anos depois da Penn começar, timidamente, vender as entao raras latas pressurizadas e abertas com um abridor de latas.

Pouco importa. Braden rescreveu a história do tênis americano, sendo, talvez, o maior responsável por sua popularização nos anos 70, época de ouro do tênis americano através de seus programas na tv. Foi um ótimo juvenil, ganhou uma bolsa na California State em LA, onde estudou psicologia, esteve no precursor de todos circuitos profissionais, o de Jack Kramer, onde era um dos coadjuvantes de ícones como Pancho Gonzales, Bobby Riggs, Segura Cano e Kramer entre outros. Dali foi, em 1963, tomar conta da academia que Kramer montou em Palos Verdes, onde ajudou formar, entre outros, Tracy Austin, Sampras, Davemport e outros.

Mas seu foco nunca foi a formaçao de tenistas profissionais. Gostava mesmo era de ensinar o pangaré jogar tênis. Talvez por temperamento. Nunca foi um disciplinador. Era um simpático, um gozador que acreditava que o sorriso, o carinho e, especialmente, o bom humor, eram ferramentas imprescindíveis para fazer as pessoas se apaixonarem pelo tênis.

Por isso, em 1974, abriu sua famosa academia no magnifico condomínio Coto de Caza, entre LA e San Diego, onde construiu sua casa e onde morreu. Era inteligente o bastante para saber que só sorrisos e bom humor nao lhe trariam sucesso e usou de seu conhecimento da psicologia para entender e conquistar as pessoas. Precisava de um método e assim tornou-se o precursor do ensino de biomecanica no tênis. O que hoje se ensina de biomecanica, por aqui e mundo afora, começou com ele. Só que ele colocava a pitada do humor, o que nem sempre faz parte do cardápio desse pessoal.

Sua teoria para se aprender o tênis era simples; “se voce compra um sorvete de pirulito e consegue levá-lo à boca você consegue jogar tênis. Se você levá-lo direto à testa as chances sao bem menores!”. Ele tinha cursos para cadeirantes, e até para cegos, quando ainda nao era moda nem politicamente correto. Para os cegos bolou um sistema de números para a localizaçao da altura da bola, que ele gritava para o pessoal executar o golpe.

Mas era na área de biomecanicas que ele deitou e rolou. Comprei seu livro “Teaching children the Vic Braden way” no começo dos anos oitenta para saber um pouco mais sobre essa ciência dos golpes. Seu estilo nao era entao minha praia, mas me ajudou mais de uma maneira. Enquanto Bollettieri focava nos jovens que queriam ser campeoes do mundo, e nao tinha o menor tempo para o pangao, Braden fazia da Pangalandia seu reduto e seu reino – ali era o mestre e amado pelas multidoes.

Foi dos primeiros a usar a câmera de alta velocidade e o computador para dissecar o tênis. Confesso, sem falsa modéstia, que fui o precursor do uso da câmera por aqui, nos idos de 1974, com uma câmera na mao e uma mala com um monitor acoplado na mesa na lateral da quadra.

Como todo estudioso do tênis, Braden adorava conversar sobre o assunto com qualquer um que tinha algo a dizer ou disposiçao para ouvir. Sua mulher confessa que mesmo agora tinha inúmeros projetos que o tempo nao permitiu que realizasse. Da mesma maneira que tinha inúmeras certezas e as transmitia inflando a tao necessária auto estima e confiança do pangao, tinha pelo menos uma dúvida que dividiu com seus leitores no Los Angeles Times. “Por que os tenistas tremem (choke)? Levou a dúvida para o além, porque aqui ninguém conseguiu explicar aquela característica que, ao mesmo tempo o que fascina e prende todos os praticantes, separa os campeoes do mortais.

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