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domingo, 27 de outubro de 2013 História, Sem categoria, Tênis Masculino | 21:56

Wild Side

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Imagino que todos, pelo menos da minha geraçao, tiveram seu momento Lou Reed. Tive mais de um, especialmente por conta do fato que Transformer, por favor nao confundam com o filme idiota onde só se salvam as heroínasé um dos meus discos favoritos, assim como de minha irma Vera. É o “nosso” disco.

Nao lembro como começou, suponho que tenha a ver com uma quinzena que passamos juntos na Ilhabela no início dos anos setenta, época em que o disco foi lançado. Sempre que temos um momento, ela gosta de me dizer para “take a walk on the wild side”. Acho que dei bem mais de um.

Teve uma outra vez, já no final dos anos setenta, na companhia do meu amigo Carlos Kirmayr, que esta semana está na França com sua tenista Paulinha Gonçalves, em que chegamos a Los Angeles no início da noite. Estávamos a caminho de St Barbara e San Jose para um torneio após alugarmos um carro.

Subindo a Santa Monica Boulevard passamos pelo Troubador. Quem nao conhece ou ouviu falar do lugar nao conhece a história do rock and roll. Um local sem grandes pretensoes arquitetonicas que marcou época, muitas épocas, apresentando artistas desconhecidos para o publico do sul da Califórnia, de Elton John, Lenny Bruce e Neil Young, a Eagles, James Taylor e Jony Mitchel, passando por praticamente todo mundo do rock antes de se tornarem famosos e serem condenados a tocar em arenas. No Troubador cabiam no máximo uma 400 pessoas, local parecido com o Bourbon Street em Sao Paulo, o que dava outra dimensao ao show e, especialmente à musica.

Naquela noite, a idéia era chegar em St Barbara e pernoitar na casa de amigos. Mas imprevistos acontecem. Na marquise do Troubador estavam os nomes de Lou Reed e Ian Dury – este eu duvido que conheçam. Sem nenhuma hesitaçao demos meia volta – a famosa e proibida U Turn – a fomos fazer nosso jantar por lá mesmo. Infelizmente, o show de Reed nao estava lá essa coisa – imagino que um artista como ele tenha seus dias ruins também; nao é isso que acontece com Roger Federer? Mas o de Ian Dury e seus Blockheads mais do que compensaram e nos deixaram tao extasiados que acabamos por pernoitar em LA. Nao importa.

Transformer é um dos meus discos favoritos ever e sei a letra de todas suas músicas – de Vicious e Satallite of Love, a Hanging Around e Walk on Wild Side. Reed dedicou sua carreira a andar no lado selvagem da vida, quebrar barreiras e mostrar alternativas – desde os tempos do Velvet Underground. A ultima coisa que vi dele foi um show/documentário com Metallica – uma parceria improvável – cujo baterista é filho de uma famoso, e pra lá de excêntrico, tenista dinamarquês. Lou era casado com Laurie Anderson, outra que nao percorreu exatamente o caminho do óbvio na música.

Escrevo sobre Reed no dia de sua morte e também da final da Basiléia. E o que os dois eventos tem em comum? Nao muito, a nao ser as coisas que minha mente conecta independente de minha vontade. O jogo foi interessante, com Del Potro mais uma vez subjugando o Bonitao Federer -e novamente na casa do oponente, a pior das ofensas.

Quando quis, o suíço usou do slice para silenciar um pouco a artilharia do oponente argentino. Quando nao quis e preferiu o jogo franco e aberto, evidenciou, mais uma vez, que o tempo é implacável. Com todos, cantaria Reed.

Minha mulher adora assistir a cerimônia de premiaçao. Eu havia feito meus exercícios com o sol a pino, passado quase 45 minutos dentro dágua com mais exercícios, almoçado um franguinho e legumes nos trinques, e acompanhara a partida me deliciando com uma salada de frutas divina. O jogo me mantivera acordado, apesar da insistência do Topetudo perder o saque no primeiro game de um set e isso acabar lhe custando a partida. Sim, antigamente ele encontrava uma maneira de escapar, hoje em dia morre na praia. O mundo é cruel, afirmaria Reed.

Com os olhos pesando cada vez mais, ainda tive tempo de me emocionar com a longa salva de palmas que os vizinhos de Roger o presentearam quando recebeu seu prêmio de vice – muito elegante, emocionante e contido. Resmunguei para minha mulher – está cheio de suíço ali. Nenhum mais suíço que El Boniton, que nao piscou, apesar da insistência do narrador em colocar lágrimas em seus olhos, mas acusou, humilde e silenciosamete, a homenagem. Melhor ainda foi a tradiçao dos finalistas em distribuir medalhas a todos pegadores de bolas do torneio – imagino que o momento trouxe interessante memórias ao Ubbercampeao, que por ali também recolheu suas bolinhas quando garoto. O que mais me chamou a atençao foi a emoçao bem administrada da garotada, enquanto Delpo e Federer lhes penduravam a prata no pescoço. Nenhum deles perdeu o perfilar, tal qual uma mirim guarda suíça, nunca tirando a mao esquerda de trás das costas – a direita só abandonava as costas para cumprimentar o tenista – e o olhar adiante. O mundo deles e de Lou Reed nao poderiam ser mais distantes. No entanto, ambos me emocionam.

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