Publicidade

sexta-feira, 4 de outubro de 2013 Sem categoria | 13:29

Pança

Compartilhe: Twitter

Não me lembro de outro cara que poderá sentar com seus amigos e contar que bateu os três melhores tenistas do mundo no mesmo torneio. Poderá dizer, enquanto derruba mais uma cerveja, sem grandes riscos de ser contestado, que tinha um dos melhores, senão o melhor golpe de sua época. Poderá contar ainda mais vantagem, afirmando que certa vez, no torneio que reunia os oito melhores do mundo, o campeão foi ele e batendo o BOAT na final. Talvez o álcool o seduza a contar também que chegou a ser o #3 do mundo no ranking da ATP, que conquistou 11 títulos na carreira e que terminou entre os top10 cachorrões em cinco temporadas.

Sendo argentino, apesar de não ser necessariamente um falastrão, talvez se sinta inclinado a apimentar a conversa com uma final de Wimbledon e semis nos outros três G Slams. Mas aí começa a correr o risco de mostrar uma faceta que talvez não seja a sua melhor. A do tenista que poderia ter sido o melhor de sua geração, um verdadeiro campeão, e se contentou em ser um ótimo jogador.

Conheci David Nalbandian, argentino de descendência armênia-judia, no PanAmericano de Winnipeg de 1999, onde era o chefe da delegação, quando ele tinha 17 anos e bateu Andre Sá nas quartas do torneio – perdeu para um americano que nunca mais se ouviu falar. Confesso que ali não vi o que vinha pela frente e sim um jovem com golpes sólidos do fundo de quadra. Três anos depois o garoto estava na final de Wimbledon, uma final que deve lhe atormentar até hoje, perdendo fácil para Lleyton Hewitt, um desafeto com quem teve encardida rivalidade profissional de três derrotas seguidas e depois três vitórias consecutivas, sendo uma de cada no Aberto da Austrália, com Lleyton vencendo 10/8 no 5º set e David 9/7 também no 5º – duas partidas memoráveis.

Em algum momento Nalba decidiu que não queria pagar o preço, caríssimo, de ser o melhor do mundo, apesar do talento e habilidades. Decidiu levar a carreira de ouvido, onde sua pança era o sinal mais evidente dessa característica, jogando melhor quando lhe dessa na telha e não também quando não estava a fins. No meio de tudo isso, arregimentou uma fileira de fãs do seu tênis fácil e partidas montanhas russas, tamanha a mudança de trajeto. A mistura de talento, golpes precisos e volatilidade tem seu carisma.

O argentino vivia um certo conflito entre ser tenista, que por vezes parecia mais uma profissão do que uma paixão, esta sendo mais pelas corridas de carro, aonde se arriscou tanto como driver como dono de escuderia.

A paixão em quadra aparecia com mais certeza na sua competição favorita – a Copa Davis. Dependendo de como estiver a sua alma naquele instante, a Davis deve lhe trazer balões de orgulho ou tremores de angustia. Se, por um lado, liderou a Argentina a três finais, por outro nunca venceu o confronto máximo do tênis coletivo. Duas fora de casa, mas, a mais inesquecível e inexplicável, a de Mar Del Plata, em 2008, perdendo para uma Espanha que, na ultima hora ficou sem Nadal, imaginem o estresse, e foi de Ferrer, Feliciano e Verdasco. Nalba liquidou Ferrer na primeira partida, mas Delpo decepcionou (e botem decepção nisso) frente a Feliciano, e Nalba não conseguiu carregar Calieri (ele também jogou aquém) nas duplas contra Lopez e Verdasco.

Essa deve ser a maior frustração de Nalbandian e de muitos argentinos. Especialmente porque foi em casa e mais uma história de fracasso do que de superação espanhola (que também houve). Os argentinos, supostamente liderados por Nalba, não conseguiram sintonizar o grupo, administrar egos, equalizar a distribuição da grana, sempre a mardita, e que, dizem os argentinos, ser uma das “fraquezas” de David, naquele momento e em outros, como administrando o relacionamento com seus técnicos.

Se Nalda teve na sua esquerda com as duas mãos o que considero um dos melhores golpes ever, venenoso na cruzadinha, abrindo a quadra para o estrago futuro, e o revés milimétrico na paralela, inclusive quando apertado, assim como uma devolução de serviço que ajudou acabar com o tal saque/voleio, especialmente o do Bonitão, outro grande rival (recorde 8-11) e uma direita sólida e onde ninguém fazia festa, o rapaz deixou de viver maiores glórias por não se comprometer com a carreira como os grandes campeões o fazem. Mas, enquanto esteve por aí, foi , quase sempre, uma prazer de assistir, especialmente nos grandes confrontos, quando se motivava, sem perder a característica de acrescentar drama aos jogos, por conta de uma briga interna entre o “eu tenho a força” e o “não quero tanto assim”. Vai fazer falta, de vez em quando.

Autor: Tags: