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terça-feira, 1 de outubro de 2013 Porque o Tênis., Tênis Brasileiro, Tênis Feminino, Tênis Masculino | 12:17

Retomando a arte

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Uma arte perdida? Uma duplinha, algo quase que desprezado no circuito profissional – é só olhar as arquibancadas agora que temos a possibilidade de acompanhar algumas dessas finais com presença brasileira nos Slams – segue sendo o jogo das multidões nos Clubes. Vai entender. Bem, eu entendo e já escrevi sobre o assunto mais de uma vez.

Mas a pergunta é se é uma arte perdida, ou no processo de se perder.

Tenho jogado mais duplas nos últimos anos. Tanto a idade e restrições físicas como a sociabilidade ajudou na decisão. O Jogo, pra mim, ainda é o mano a mano, a simples, mas a duplas é uma ótima opção para se passar um tempo agradável batendo na bolinha.

Boa parte das duplas que jogo é com tenistas mais jovens, sendo que vários deles aprenderam o Tênis nas ultimas décadas. Ou seja, carecem da cultura tenistica de então e abraçaram a cultura mais contemporânea.

O que isso quer dizer? Que não são poucos os que fazem dos jogos de duplas uma adaptação de um jogo de simples com dois de cada lado. Vários, assim como ocorre no circuito profissional, sacam e ficam atrás, o que alguns anos atrás era uma heresia que causava espanto quando não gargalhadas. Hoje, o campeão do US Open, Rafael Nadal, só fica na rede quando seu parceiro saca, o resto do tempo fica plantado atrás. Assim sendo, não é nenhum sacrilégio que os pangas clubísticos sejam um tanto “analfas” junto à rede.

Mas, felizmente, o mundo do tênis ainda tem seus fiéis depositários, encarregados de preservar a cultura tenistica. A semana passada, estive no Rio de Janeiro e tive o privilégio de acertar uma duplinha com parceiros das antigas em um clube para lá das antigas – Paissandu Atlético Clube, um oásis com sete quadras de tênis no Leblon, ao lado da Lagoa. Os parceiros, Gugu Pucheau e os irmãos Filipe e Breno Mascarenhas, não eram tão mais novos, no máximo uns quatro anos, quando não menos.

O jogo foi decidido em três sets, sendo que o último não foi no formato tiebreakão, como é padrão no circuito ATP e nos interclubes. Quando coloquei a questão, após o 2º set, um deles retrucou que “o jogo está bom, vamos pro set”.

Mas foram uns poucos, e importantes detalhes, que me chamaram a atenção. Todos eles sacavam e voleavam, primeiro e segundo saque, quase que em tempo integral. E, se colocavam a raquete, raramente erravam o crucial primeiro voleio.

Meu parceiro era a Rocha de Gibraltar – não errava um sequer. Outro detalhe me chamou a atenção. Poucos “poaches”, ou cruzadas nas bolas do parceiro, especialmente após o primeiro voleio do adversário. Primeiro porque os caras tinham a visão e a habilidade de mudar a direção do voleio ao perceber o “poach”. E o mais impressionante; os primeiros voleios dos sacadores eram, como devem ser, rentes à fita da rede, oferecendo pouquíssima margem para o poach de quem estava na rede. Detalhes de uma cultura que não pode, ou deve, ser perdida.

Quando Bruno Soares esteve no Clube Pinheiros, Edu Eche, Técnico Chefe do competitivo juvenil, o alertou, quase que apologético, que o parceiro de Bruno, Tom Fasano, atual campeão brasileiro de duplas até 16 anos, não sacaria e volearia com fraquencia, já que não era seu hábito. Ao que retruquei que ele o faria sim. Até porque Tom é um dos jovens com maior talento e habilidades que temos atualmente e que ir à rede é algo que nesta fase da carreira deve lhe ser incentivado.

Os caras tem medo de ir, levar uma passada e ficar com cara de tacho, o que é um pena e um sacrilégio. Tom não só foi à rede como se virou muito bem uma vez por lá. Agora só precisa incentivado e aprender a cultura do bom voleio, algo que sempre fez com que o tênis fosse um esporte admirado e amado e que hoje se perde no limbo restrito da linha de base. Os duplistas do futuro agradecem.

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