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terça-feira, 9 de julho de 2013 Wimbledon | 18:30

O escocês britânico

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Wimbledon nunca mais será o mesmo. Nem Andy Murray. Durante os últimos 77 anos o torneio foi uma festa onde os organizadores – o All England Club e a Federação Inglesa – sempre fizeram questão de deixar claro nas entrelinhas, condenscendiam em permitir que os estrangeiros comparecerem e, para seu eterno desgosto e frustração, retribuíssem a suposta hospitalidade vencendo o torneio. A imprensa local deitou e rolou nas ultimas décadas em ataques de auto miseração, e tirando sarro do fato dos locais nunca estarem presentes na segunda semana do evento. Para os ingleses – não sei bem se o fato de um escocês, que no ano que vem votam em um referendo se tormam uma nação independente – é melhor ou pior. De qualquer jeito, hoje toda a Grã Bretanha celebra e apadrinha o campeão. A história do até pouco tempo conturbado tenista também será diferente. Uma antes, outra depois de Wimbledon 2013.

 

Lembro que sempre achei que era uma questão de tempo para Murray ganhar Wimbledon e outros GS. Uma pancada de sofasistas, que hoje se escondem debaixo do tapete, se indignavam, já que só enxergam o óbvio e esse óbvio se resume a dois ou três tenistas que veneram, amam ou detestam. Os que acreditavam, como muito bem bolou nosso amigo Flávio Bet@, cabiam na tal Romi Isetta.

 

Andy Murray é um tenista difícil de gostar. Seu carisma é zero. Seu tênis, brilhante, não se encaixa no padrão atual estilo de mãos pesadas ou mesmo de jogadores mais clássicos. Tenistas como Jimmy Connors e John McEnroe lhe esnobaram no início da carreira, se recusando a treiná-lo. Seu estilo é baseado no contra ataque, no preparo físico espetacular construído com muito trabalho e competência, cujo verdadeiro diferencial é a sua habilidade física, especialmente as “mãos”. Além disso é um jogador tático que pensa, as vezes demais, para jogar.

 

Desde cedo ele procurou seu caminho, independente do que os outros achassem. Abandonar a ilha do norte e procuram Barcelona foi ideia da mãe, que pensava, com um bocado de razão, que os conterrâneos não tinha na alma o necessário para serem campeões – foi pastar no saibro espanhol para aprender a lutar. Seu temperamento se adaptou ao estilo espanhol de trabalho duro. Quando chegou a hora voltou para a ilha, já com o estilo e o comprometimento definidos.

 

Uma de suas qualidades foi ter se cercado de pessoas que pudessem fazer um impacto positivo em sua carreira/vida. Fugiu do pessoal e das baboseiras da federeção inglesa, procurando ajuda em profissionais que tinham experiência de trabalho com outros esportes e do centro de excelência de esportes inglês. Ele tem um preparador físico, um fisiocultor, um fisioterapeuta que estão no time há anos. O rebatedor, um venezuelano que conheceu na academia de tênis em Barcelona. Ivan Lendl, desde o início de 2012 e uma psicóloga que Lendl, que utilisava um nos tempos de juvenil, o convenceu a contratar. O checo sabia que precisava de alguem para afinar o hardware do bipolar escocês.

 

Todos falam sobre a influência de Ivan Lendl na sua vitória. Com certeza existiu, mas, à distância, não sei se é tão grande como se preconiza. O rapaz caminhava, no seu torturante ritmo, e progredia na sua técnica há anos – só não vencia os grandes eventos. Faltava-lhe quebrar o jejum de um título de Slam, o que veio no ano passado em Nova York. Era inevitável e Lendl que também teve dificuldade semelhante, veio ajudar no processo. As diferenças táticas são poucas e as mudanças eram gritadas até pelos meus leitores mais sofasistas. Faltava alguem que o convecesse a ser mais agressivo do que era. Mas a maior diferença foi a mental, e aí é uma salada de influencias e confluências.

 

Desde o primeiro Slam veio a final na Austrália onde perdeu para Djoko, pulou fora de Paris (pra mim para se preparar para Wimbledon) e agora o maior título de sua carreira, independente do que faça pelo resto dela. O trem embalou.

 

Com 26 anos de idade, só seis dias o separam de Novak Djokovic, com quem deve fazer a próxima grande rivalidade do tênis, com Nadal, um ano mais velho, correndo por fora nas quadras mais ráidas e no saibro deixando os outros por fora. Federer deve jogar sua ultima cartada no U.S. Open, depois disso ficará cada vez mais difícil, mas não impossível.

 

As características que fazem com que Murray seja um produto não tão agradável mercadologicamente pela falta de sinergia com o público, são as mesmas que fazem com que seja um obstinado com sua carreira e o tênis. O seu intenso foco no trabalho é uma consequência. Como a sua maior conquista afetará a carreira, para o bem e o mal, é algo que começaremos a enxergar já a partir da temporada americana de quadras duras. Ele pode tanto se encher de confiança e auto-estima, algo que sempre lhe faltou um dedinho, e se tornar ainda mais audaz e perigoso, como, mais uma vez se atrapalhar emocionalmente. A minha aposta é pela primeira opção. E a outra consequência é que sai a Roli Isetta e entra, pelo menos, uma van.

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