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sábado, 25 de maio de 2013 Roland Garros, Tênis Masculino | 15:56

Um rapaz de qualidades

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Logo após Gustavo Kuerten vencer a sua primeira semifinal em Roland Garros, em oito de junho de 2007, sentei para escrever uma coluna para o Jornal da Tarde. Como a maioria dos brasileiros, eu estava abismado e sob o encanto de poder acompanhar um brasileiro jogar uma final de Roland Garros. O clima em Paris, entre aqueles poucos que acompanharam a trajetória da quinzena e aqueles que começaram a despencar na cidade com a possibilidade de ver um conterrâneo barbarizar no principal palco da Europa era esfuziante e, de certa maneira, de assombro. Ainda no estádio, sentei em minha mesa e escrevi o artigo abaixo, antes de sair pra o jantar de celebração com amigos.

Um rapaz de qualidades.

Quando o Brasil enfrentou a Bahamas pela Taça Davis, no início de 1995, convoquei três juvenis para treinarem e conviverem com o time. Um deles, Gustavo Kuerten, então com 18 anos, impressionou de maneira favorável a mim e seus companheiros de equipe. A figura do juvenil que vem aprender com os profissionais na Taça Davis é algo tradicional nas equipes que treinei. Como cada um deles lida com a oportunidade é o diferencial.

Os profissionais testam a personalidade, a boa vontade, o tênis e, às vezes, a paciência dos garotos. Guga tinha ali dois “carrascos” nas pessoas de Fernando Roese e Luiz Mattar. Os dois fazem os mais corajosos tremerem com suas brincadeiras. Alguns lidam mal com isso, chegando a se revoltar e perder esportiva. Guga tinha como companheiros o mineiro André Sá e o também catarinense Márcio Carlson, este um pouco mais velho. Gustavo, como sempre, procurava o lado positivo da situação, cumprindo as exigências da dupla de capetas com um sorriso, enquanto os outros dois discutiam ou confrontavam, tornando suas situações piores. Ele parava a um inteligente passo de ser um mero puxa-saco,  mostrando sua habilidade natural de lidar com pessoas e controlar situações.

Apesar de não estar escalado para jogar, estava ali só para treinar e aprender, Gustavo estava sempre disponível. Já tinha um saque fortíssimo e passava horas sacando para Mattar e Meligeni, que precisavam do treino. O braço doía, mas o garoto não reclamava e aproveitava para aprimorar o golpe. Um dia, o chamei de lado, como chamei aos outros, dentro da piscina aquecida do Clube Tijuca nos vestiários, para conversarmos sobre tênis e sua carreira. Sempre atento, Guga pontuava o quase monólogo com perguntas e colocações que mostravam seu interesse e inteligência. Passamos ali uma hora e meia.

Aos poucos eu descobria o prazer de conviver com o sorridente “Catarina”. Grande contador de histórias, Guga era capaz de contar piadas por um jantar inteiro, para surpresa e divertimento de todos. Soube por sua mãe, D. Alice, que Gustavo trazia para a Taça Davis revistas de piadas, que ele lia e estudava à noite e antes das refeições, para poder entreter a todos. Sabia de nossas expectativas e se preparava para melhor cumprir seu papel.

Quando foi para a equipe principal pela primeira vez, em Santiago do Chile, no início de 1995, Guga jogou somente as duplas. Eu já tinha planos para o “surfista dourado”, porém queria ir com calma em sua escalação. Passou a semana treinando duplas e voleios, ao que não estava acostumado. Às vezes eu percebia seu aborrecimento, ouvia seus resmungos, mas ele era incapaz de pedir para o treino parar. Através dos anos ouvi tudo quanto é desculpa de tenista, para interromper ou abreviar treinos. O talento que mostram nesse quesito quase que ultrapassa o talento que têm para jogar. Gustavo, por seu lado, não sofre numa quadra de tênis. Aliás, não sofre em lugar algum. É capaz de passar horas treinando e sempre tem algo mais a dar, não importa quanto o técnico já exigir.

Foi nas inumeras conversas sobre tênis foi quando Kuerten me convenceu de que seria um bom jogador. Como técnico, sempre procuro apresentar soluções para problemas, alternativas para certezas, não só da parte técnica, como nos detalhes da vida e na carreira do jogador. Em qualquer área Guga é um interessado e tem suas posições. Na parte técnica é o melhor tipo de jogador a ser treinado. Não tem problemas em ouvir e obedecer a ordens, conselhos e opiniões. Sabe lidar com a figura do técnico, alguém que está ali para ajudar – não sofrendo, como muitos jogadores, que se sentem menores, quando se tenta fazer deles pessoas-tenistas melhores. Consegue assimilar imediatamente uma colocação e, aí o diferencial – vai além – colocando sua posição sem criar o conflito. Se você lhe der um-dois, ele capta e lhe dá de volta três-quatro. A cada treino seu existe um progresso, pois essa é sua ânsia e objetivo.

Um campeão, e uma história de sucesso, são feitos com uma série de detalhes, sempre difíceis de definir. Mas, determinadas qualidades estão sempre presentes. Aqueles que conviveram comigo nos últimos dois anos sempre souberam que eu acreditava no sucesso do “surfista dourado”. A questão era quando isso aconteceria. É óbvio que os resultados desta quinzena ninguém esperava, mas é com felicidade que assisto a essa incrível aventura em Paris. O melhor é que não poderia acontecer a melhor pessoa. A paixão que carrego pelo tênis só é maior pela paixão que anseio nas pessoas. Gustavo me conquistou desde os primeiros instantes pela pessoa que é.

Extremamente positivo, aprendeu no seu núcleo familiar como lidar com adversidades. Sua mãe, Alice, conseguiu, através de uma série de reveses na vida, unir a família e fazer de Guga uma pessoa positiva e feliz. Seu sucesso vai ser assimilado, como foram as dificuldades, e servir de trampolim para maiores saltos no futuro. Com certeza, não lhe serve ser um grande tenista, rico ou famoso, e ser uma pessoa menor. Guga cativa porque dá mais do que pede. Aliado a isso, possui uma série de talentos que não tem vergonha de exibir. Da mesma maneira que pode jogar uma final de Paris, contar uma estória ou cantar uma música, sem querer Guga nos conquista. Seremos sempre seus fãs, esperando pela próxima maneira em que nos encantará com seus talentos.

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