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segunda-feira, 29 de abril de 2013 Tênis Masculino | 15:25

Barcelona

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Nos anos setenta, quando fui pela primeira vez ao Torneio de Barcelona, a Espanha era um país triste, sob o peso de uma ditadura, algo não tão estranho para quem vinha do Brasil. O franquismo fizera questão de manter o que havia de mais retrógado na sociedade. Entre outras coisas, como as mulheres sempre me chamaram a atenção, foi com tristeza e assombro que descobri que elas usavam o negro como padrão, e não estou falando do pretinho básico, e sim aqueles vestidos do luto que por uma razão ou outra a maioria das mulheres acima de 35 anos pareciam escolher.

O país era mais pobre que atualmente – apesar de que já se vão alguns anos que não vou à Espanha, mas na época das Olimpíadas estava bombando – em especial após a derrocada econômica que atualmente mantêm 30% da força produtiva sem emprego, o que não sei como não causou maiores transtorno sociais, ainda, fato que Rafael Nadal mencionou en passant na cerimônia de entrega de prêmios ao agradecer aos patrocinadores que se mantêm fiéis. Imagino que Ion Tiriac, dono do Torneio de Madrid, e alguém que não tem o menor senso de “home”, por conta disso já deve estar matutando seu próximo passo, caso os patrocinadores espanhóis comecem a vazar. Tiriac abandonou a Alemanha, para onde tinha ido por conta do boom causado por Becker e Graf, e foi para a Espanha por conta do boom espanhol que começou antes de Nadal, mas atingiu seu ápice com o Animal.

Se a Espanha era pobre então, os sócios do Real Club de Barcelona não demonstravam. Ali era a elite da cidade que frequentava e, lhes asseguro, há poucas coisas mais desagradáveis e presunçosas do que um espanhol metido a besta. O bar e restaurante eram “bem” frequentados por madames e suas joias e senhores com paletó e gravata e qualquer hora do dia. Os tenistas, com seus trajes esportivos, não eram exatamente parte da mobília do local. Tinham seu espaço, mas eram olhados um tanto de cima para baixo pelos Dons locais. Como em tudo, há as generalidades e as exceções.

As moças espanholas viviam entre a clausura e o sentimento que estavam perdendo a tal da revolução sexual que varria boa parte da Europa e das Américas. Eram reprimidas, mais pelas sociedade do que pelos desejos, e com uma boa conversa eram capazes nos presentear com o melhor da fúria espanhola. Eu ignorava os engravatados e concentrava minhas energias naquelas moçoilas que, pelo menos, tinham abandonado o luto do dia a dia. Definitivamente Barcelona tinha seus encantos, mesmo no pedante Real Club.

A quadra central hoje é bem maior, o local bem mais democrático, e na época eles já haviam movido a Central do seu local original de frente à sede do clube, como é quase sempre o padrão nos clubes europeus de tênis, para duas quadras secundárias que abrigavam para o evento uma quadra única com as arquibancadas temporárias de metal, algo que os tempos atuais transformaram também em padrão.

O clima desta época ainda é um tanto difícil, mesmo na costa do Mediterrâneo, e pode ficar um cão por conta da chuva o frio que ainda fustiga a cidade no início da primavera. Mais duas semanas e a cidade ficará uma maravilha.

Este ano, a chuva acabou sendo um protagonista do evento, forçando as semifinais a serem jogadas simultaneamente, o que deve ter esvaziado a vitória do Almagro. Na final, os tenistas foram obrigados a jogar debaixo de garoa brava, algo nem um pouco inédito na Europa – em Munique e Hamburgo pode ficar ainda pior. Aqui no Brasil já vi juvenis saírem correndo da quadra nos primeiros e escassos pingos de garoas passageiras. O publico presente pintava as arquibancadas de cores escuras; muitos azuis escuros, alguns vermelhos e raríssimos amarelos para os casacos de chuva. Todos eles encapuzados e ensopados ao final da partida, o que prova que o público não arreda pé quando Nadal está em quadra e o piso do Real Club de Barcelona é de primeira qualidade.

A partida nada apresentou além do que esperávamos. O início chegou a iludir o narrador da Sport + que confessou imaginar que o freguês Almagro fosse mudar a caderneta ao abrir 3×0. Nadal já saiu de dezenas de situações mais bicudas do que aquela e não contra tenistas que se ele der uma meia encarada entregam a rapadura sem maiores ameaças.

Para a torcida brasileira sobrou mais um título do mineirinho Bruno Soares, que vai construindo sua carreira recebendo somente do lado das vantagens, algo que ele vem aprimorando a cada temporada. Imagino se ele, assim como eu fiz durante anos, manteve o corpo aquecido com os deliciosos chocolates quentes, batidos na máquina e servidos com um croissant quentinho no pires – essa uma das caras lembranças que guardo não só do RCB como da Espanha. 

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