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terça-feira, 19 de março de 2013 Tênis Brasileiro, Tênis Feminino, Tênis Masculino | 23:32

Coelho maluco

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De vez em quando dá um desanimo! O Blog parece virar uma página perdida do falecido Orkut – pouca coisa que se aproveite, discussões e acusações repetitivas me fazem pensar escrever sobre ballet ou talvez comida tailandesa. Sei lá, será que não conseguem ir adiante de “Nadal é dopado” e “Federer está acabado”?! Impera o raciocínio gangorra – é preciso colocar um pra baixo para levantar o outro. Coelhos malucos que não percebem que o engrandecer de um engrandece o outro.

Nada contra esses dois tenistas, protagonistas da maior rivalidade do esporte branco e atletas que ficariam horrorizados se lessem as bobagens que escrevem por sua conta. São tão importantes para o tênis que o Torneio de Miami já acusou o golpe da ausência de ambos este ano – as vendas de ingressos caíram. É uma das consequências do mundo imperfeito em que vivemos, onde gerentes de carreira são também donos de eventos, para mim um claro conflito de interesses, para a ATP um mero detalhe. Como os donos de Miami arrumaram encrenca com Federer, o suíço fica longe da Flórida. Já Nadal preferiu ir apertar a mão de Larry Ellison e se deu bem.

Na mesma conta dessa ausência de bom senso e ética, leio que o prefeito de São Paulo, que em campanha prometeu acabar com a mamata da “inspeção veicular” mudou o enredo quando chegou ao poder. Quer acabar com mamata de um e criar a mamata de muitos. Ao invés de uma única empresa fazendo a inspeção, quer cerca de 450 oficinas de automóveis as fazendo. Já posso imaginar o cenário: “o seu carro não foi aprovado por conta daquele probleminha ali. Mas aqui mesmo nós arrumamos!” Sei.

Aliás, o calendário do tênis profissional parece trabalho do coelho maluco após tomar uma pílula que makes you big ou talvez a que makes you small. Dois eventos da grandeza de Indian Wells e Miami colados não é um bom cenário. Só não é pior do que Paris e Wimbledon separados por somente duas semanas.

Nenhum brasileiro na chave principal de Miami além de Thomaz Bellucci. Os outros pareceram no qualy, ou mesmo antes dele. Será que algum dos brasileiros que nestas duas semanas jogam os principais torneios juvenis do país – Banana Bowl e Copa Gerdau – mudarão esse cenário? No Banana são mais de 30 anos que um brasileiro não vence a categoria principal – a dos 18 anos. O último foi Eduardo Oncins e adivinhem quem era o técnico dele?

Estive no Clube Paineiras a semana passada acompanhando um jogo do Banana. Quase enlouqueci. A quadra onde acompanhei um jogo de mais de 2h, decidido na bacia das almas do 3º set, foi disputado ao lado de um dos principais caminhos da clube. Ao lado, uma britadeira esmerilhava o chão de cimento e pirava os jogadores. Os caras não pararam um minuto enquanto lá estive. No caminho todos os personagens possíveis trafegavam e conversavam. Eram mães, filhos, babás, pedreiros, carrinhos de obra, porteiros, bombeiros, açougueiros, caras ao telefone berrando com alguém, o diabo. Pior, parte desses desrespeitadores eram tenistas juvenis que lá estavam para competir, mostrando que o mundo está mesmo de cabeça para baixo. Dois tenistas em quadra tentando manter a concentração e um bando deles do lado de fora, conversando, caminhando, indo, voltando, zoando. Algumas dessas meninas foram e voltaram no mínimo umas 15 vezes nessas duas horas sabe Deus pra onde. Arrehh; pelo o que se propõe a ser, são piores do que o coelho maluco!

E, de repente, um adendo enviado pelo leitor Dumont:

“Loucos como uma lebre de Março” – já dizia a velha expressão inglesa que originou o personagem “Lebre de Março” de Lewis Carroll no fantástico “Alice no país das maravilhas”. Interessante, que coincidentemente estamos em Março. Neste período, na Europa, a chegada da primavera celebra o período de acasalamento das lebres. Daí a loucura, no caso, a tara. Estamos no Equinócio. A propósito, li o livro recentemente, diante de uma desafiadora palestra sobre liderança que tive que fazer em minha empresa. Gostei muitíssimo, do livro e do resultado da palestra. Do livro, daquilo que guardei, ficou muito marcada em minha memória o diálogo entre Alice e o Gato de Cheshire – o gato risonho – mais precisamente no capítulo 6. Desde criança, sempre fui levado pelos desenhos, pela fantasia da imagem, e quase nunca ao livro. Só que, quando descobri o livro, passei a preferi-lo antes da imagem, dos filmes. Hoje, o livro vem primeiro na ordem. Me faz viajar muito mais, pois a imaginação não está pronta, como no filme…pois quem faz a imagem sou eu – do meu jeito e de diversas formas. Esse é o barato da leitura.

Quem não lembra do Gato? Creio que todos lembram. O Gato surge só pela metade, só a cabeça, desaparece aos poucos em cima da árvore…estas são as lembranças. Até que some todo e finalmente temos só o sorriso, a imagem clássica! No livro, de repente, Alice se vê em um dilema e encontra-se com o Gato. É iniciado um diálogo. Ela pergunta: “Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para sair daqui?”. Responde o Gato: “Isso depende bastante de onde você quer chegar”. E Alice: “O lugar não importa muito…”. Finaliza o Gato de Cheshire: “Então, não importa que caminho você vai tomar”.

O diálogo conta de forma bem elegante o fosso que existe entre o “deixa a vida me levar” e o “determinar aonde se quer chegar”. E o reflexo disso, está em nossa sociedade, em nossos ambientes, no nosso dia-a-dia. Somos nós no espelho. O que nos dizem, aceitamos. Até porque não sabemos onde queremos chegar. “Vou com a massa, tô nem aí, seja o que deus quiser…”, passam a ser os ditames das nossas consciências. Que triste.

O esporte e os seus círculos, refletem a sociedade em que estão inseridos. O esporte não mudou, quem mudou foram os homens, sobretudo suas concupiscências. Honestidade, respeito, educação, passaram a ser exceção; quando deveriam ser regra. Que absurdo! Mas estamos aqui, e temos que conviver com tudo isso que nos cerca. Para a massa, o lugar onde se quer chegar não importa muito. Quem está do lado, não importa. À massa, importa se travestir de alguma “persona” e mudar de nome, e, se possível, importunar os outros, escondido por detrás de uma máscara, ou de um “nick”.

Quão desafiador é viver nos dias de hoje. E ter um blog, ainda mais. Mas recomendo ao nobre Cleto um chá, lembrando do Chapeleiro Maluco e da Lebre de Março. Finalizo com o resultado do diálogo entre Alice e o Gato. O Gato diz: “Nesta direção, mora um chapeleiro. E nesta outra, uma lebre de Março. Visite quem você quiser, são ambos loucos”. Alice responde: “Mais eu não ando com loucos”. O Gato diz: “Oh, você não tem como evitar, somos todos loucos, inclusive você”. “Como é que você sabe que eu sou louca?, disse Alice. O Gato finaliza: “Você deve ser, senão não teria vindo para cá”.

Esse Gato vive nos dias de hoje, e entre nós.

abraços

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