Publicidade

domingo, 16 de dezembro de 2012 História | 21:29

Corinthians

Compartilhe: Twitter

Não sou corintiano. Mas ontem à noite combinei com minha mulher que iríamos acordar e acompanhar a partida do timão ainda na cama. Na verdade, se for pensar bem, sou torcedor do Chelsea. Ou fui, até quando reformaram o estádio, uma das principais razões da minha torcida, e o time foi vendido ao russo Abramovich. Explico.

Desde os anos 70, nas minhas idas a Londres para as quatro semanas de tênis na grama, ficava em Chelsea, um bairro que tem bastante ver comigo. Lá na ponta da Fulham Road, exatamente onde ele se torna mais residencial, um lugar totalmente improvável, ficava o antigo estádio Stanford Bridge.

O que mais me encantava então era exatamente o que mais desencantava os torcedores londrinos. O estádio andava bem capenga, boa parte das arquibancadas de madeira, com um ar retro remetendo aos bons e velhos tempos. A situação do clube era crítica e boa parte por conta da tentativa de reconstrução do estádio. Não vou contar tudo aqui porque é uma história longa. Basta dizer que o clube quebrou, perdeu o estádio para os “especuladores imobiliários”, um presidente conseguiu fazer uma mágica de pegá-lo de volta, mas no final teve que entregar o clube ao russo, que hoje é dono do clube, mas não do estádio, que é de uma entidade sem lucro e donos.

Eu adorava ir lá uma vez por ano assistir um jogo e passar pela lojinha mais xuxurrenta que tive oportunidade de entrar e comprar uma camiseta azul. A foto abaixo dá ideia da loja – uns 30 metros atrás da fileira das casas geminadas, após um terreno baldio, se erguia o enorme estádio, quase todo de madeira, uma coisa de louco de se imaginar no meio da cidade. Depois do aumento do estádio ainda voltei lá uma vez, achei horrível, o que não era realmente, mas depois que o russo comprou o time nunca mais voltei. Mas se me perguntar para qual time torço na Inglaterra ainda penso duas vezes.

Apesar de não ser corintiano, como anunciei logo de cara, bastou um ataque do Chelsea na direção do herói Cassio, mais uma improbabilidade na história, para meu coração saber que hoje a minha torcida era incontestavelmente corintiana. Mais do que isso, brasileira.

Analisando a vitória alvinegra fiquei feliz em constatar que a vitória foi conseguida na melhor tradição corintiana, de muita luta, garra e disposição, nem tanta firula e sobras de talento, e, principalmente, sob o olhar e a torcida do “bando de loucos” que foi ao outro lado do mundo conferir uma oportunidade única, pelo menos até hoje.

Gosto de pensar que boa parte do sucesso dessa empreitada se deve ao gaúcho Tite, que soube acomodar a sofisticação de seu ensinar ao feitio do time paulistano. Soube prepará-lo para bater um time que custou mais de 20 vezes que o dele. Mas o tamanho do coração do adversário não condizia com o tamanho dos salários – e isso não tem preço. De certa forma, aquilo ainda é um bando de mercenários jogando pelo maior salário, pago por um cara que tem, para dizer por baixo, um passado nebuloso. Tite soube equacionar o necessário; da conhecida pressão corintiana que já acabou com tantos de seus sonhos, passando pelo amarrado desenho tático que o time vem mostrando há tempos, e culminando pela motivação do tamanho sob medida para o Corinthians e sua torcida.

Para mim hoje Tite é o melhor técnico do Brasil – e sou contra esse tipo de categorização. Mas sabe ser elegante, de mais de uma maneira, e de muitas a mais do que o Luxemburgo tenta ser com seus bem cortados ternos. Melhor motivador do que o fanfarrão Felipão, que boa parte do tempo é óbvio e mais grosso do que deveria. E mostrou ao Murici que não pode deixar um time sob sua tutela entrar em campo levantando a asinha para o adversário se acomodar como o Santos fez na ultima final do mundial, contra o Barcelona, um dia que deu raiva de torcer para um time que se curvou antes mesmo da batalha começar. Se o Chelsea não é o Barcelona, o Corinthians é um time que foi ao Japão com um único resultado em seus planos e convenceu mais de 20 mil a compartilharem, in loco, desse sonho. Como é que eu ia torcer pros caras de azul? Never!

A lojinha do Chelsea.

Uma das lojonas do Coringão.


Autor: Tags: