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terça-feira, 11 de dezembro de 2012 História, Tênis Brasileiro, Tênis Feminino, Tênis Masculino | 11:53

Memórias de um privilégio

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Tivemos outros grandes eventos de tênis em São Paulo que, infelizmente, se dispersaram na memória e na história, sempre mal mantida de nosso esporte. Nos anos setenta, o mesmo Ibirapuera foi invadido pelo circuito WCT que arregimentava a nata do tênis clássico de então, bancado por um milionário texano. O evento, oficial, não uma exibição, trouxe a São Paulo nomes como Rod Laver, Roy Emerson, Arthur Ashe, Bjorn Borg e muitos outros.

Já nos anos oitenta, novamente no Ibira, tivemos uma super exibição/competição com nomes como Ivan Lendl, Jan Kodes, Ilie Nastase, Gene Mayer entre outros, e os brasileiros Kock e Kirmayr jogando um evento que reuniu na final Lendl e Nastase, dois megas campeões. Através dos tempos, torneios como o Grand Smash Cup, um outro com a presença de Maria Esther Bueno, exibições com Gustavo Kuerten, apesar de lotar o mesmo inevitável local não tiveram o mesmo impacto.

Nada disso se compara com esta semana de Roger Federer. São outros tempos, o tênis está nas TVs e na internet, e os grandes ídolos atuais não são só de tenistas, mas da enorme legião de sofasistas. O cara conseguiu ofuscar a presença de Maria Sharapova, Serena Williams, Azarenka e Tsonga. É muito brilho. Lógico que as cartas foram dadas para o jogo ser assim. Mas o suíço fez sua parte, e muito bem, atuando como uma verdadeira mega estrela, esbanjando carisma, qualidade primordial para quem quer brilhar nos dias de TV e internet, disponibilizando simpatia para um povo que enxerga nisso uma inquestionável qualidade. Porém, mais importante, na hora da onça beber água matou a cobra e mostrou o pau. Ou seja, o que ele fez na quadra do Ibirapuera nunca mais será esquecido, nem repetido.

O meu massagista, que nunca jogou nem acompanha, assistiu um pouco pela TV, como muitos o fizeram em um domingão que só assiste o Faustão quem não tem mais nada para fazer na vida. Sabe o que mais o impressionou? “O cara faz aquilo parecer muito fácil enquanto o outro se matava em quadra”. Essa a mística de Roger – ele faz esse dificílimo esporte parecer fácil. Tanto na parte técnica, no executar dos golpes, plásticos e virtuosos, como no aspecto físico, fazendo com que oponentes pareçam transformers se movimentando pela quadra, enquanto ele lembra um Nureiev dançando no espaço.

Eu venho batendo há tempos na tecla que temos que aproveitar Federer enquanto está por aí, jogando seu melhor tênis. Felizmente foi o que aconteceu. Imaginou se o cara só aparece por aqui capengando, sem fôlego, errando tudo, total fim de carreira?

Federer apareceu por aqui jogando muito e mais um pouco. E aí mostrou mais uma vez seu enorme talento. Como outros, e outras, está no meio das férias, dias antes postou uma foto sua enterrado nas areias de uma praia, fora de ritmo e, consequenteente, sem a mesma força. Você notou? É só lembrar das dificuldades que Serena e Azarenka mostraram em quadra em um joguinho de dar dó. Federer parecia um cavalo árabe nas pontas dos cascos.

Pior, ou melhor, ainda, se deu ao luxo de mesclar o bom de uma exibição com o bom da competição. Não fez corpo mole, pois sabe que todos perceberiam. Se jogou mal em algum momento foi no início do 3º set com Bellucci – e aí deixo em aberto sobre a magnanimidade do rapaz. Mas jogou com um desprendimento que, infelizmente, as competições não permitem, o que fez com se atrevesse a coisas em situações de jogo que simplesmente não se faz. E um Federer desprendido e ao mesmo tempo com vontade de impressionar é algo que os deuses só permitem em ocasiões raras. Sim fomos privilegiadíssimos nesse sentido – duvido que se viu, ou se virá, Roger nas mesmas circunstâncias e com o mesmo resultado.

Todos que assistiram – in loco muito melhor – terão momentos inesquecíveis para contar a seus netinhos. Alguns serão unanimes. Vários inundam minha memória. A minha já elegeu a sua e para isso terei que descartar uma passada de direita na corrida contra Tsonga que abalou as estruturas do estádio e fez o Mestre flexeonar os músculos como Hulk.

Fico com Tsonga sacando, e não é qualquer sacador, e Roger aproveitando três segundos saques, no lado da vantagem, para fugir para o corredor, se arremessar no ar como se tivesse molas nos pés, indo em duas ocasiões para uma direita na diagonal e outra na paralela, com toda a velocidade permitida para uma bolinha de tênis, utilizando a munheca como se fosse uma catapulta romana, se arremessando sobre o golpe com um desprendimento que liberou em nós os nossos medos de errar, inspirando o mais cru dos pangas, e nos fazendo sonhar que tudo é possível, esta a verdadeira missão do artista. Só espero que Deus seja magnânimo e nunca apague da minha memória todas essas imagens pelas quais esperei uma vida de tenista. E se alguém encontrar as imagens acima na internet que seja generoso e divida conosco.

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