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quarta-feira, 17 de outubro de 2012 O leitor escreve, Tênis Masculino | 17:28

Photoshop

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O Comentário do leitor Marcão encaixa perfeitamente como adendo ao Post anterior, além de escrito de forma interessante – leiam abaixo:

Tenho para mim que 2012 ficará marcado como o ano da consolidação de Andy Murray no circuito. Até então, sofasistas e entendidos eram unânimes em nele reconhecer um tenista talentoso, mas ainda instável emocionalmente. A vitória nos Jogos Olímpicos, ganhando em sets diretos de Roger Federer e, sobretudo, o primeiro Grand Slam sobre Djokovic, num jogo em que poucos apostariam em vitória após o sérvio levar o jogo para o quinto set, serviram para apagar o falso estigma de amarelão que alguns secadores de plantão insistiam em lhe atribuir (como se perder três finais de Slam para o maior tenista de todos os tempos fosse sintoma de frouxidão).

No entanto, é preciso adentrar pelo lirismo para melhor compreender o universo particular de Andy Murray. Não se pode perder de vista (e nesse ponto sou obsessivo) que Andy Murray é um sobrevivente. Para alguns isso pode parecer um singelo detalhe. Enganam-se. Um sobrevivente enxerga a vida com os olhos da efemeridade, da nostalgia, da transitoriedade. Para o sobrevivente cada novo dia é uma bênção, uma glória, uma dádiva. Que importa o resultado de uma partida de tênis? Para qualquer um, ganhar uma medalha de ouro olímpica seria motivo de inaudita euforia. Mas não para Andy Murray. Venceu e foi tuitar. Qualquer um que vencesse o primeiro Slam após quatro tentativas frustradas daria cambalhotas na quadra, cobriria de bitocas adversário, juiz de cadeira e o escambau, mas não Andy Murray. Venceu e as primeiras palavras que lhe vieram foram sobre o sumiço do relógio. Para Andy Murray, o resultado de um jogo de tênis, melhor se grotesco, pior se sublime, é encarado com a mesma naturalidade com que Edward Hopper imortalizava o cotidiano.

Amigos, quando houve o massacre, Andy Murray tinha apenas oito anos de idade, e traz esta idade até os dias de hoje. Tudo o que há de adulto em Andy Murray é photoshop. A definitiva verdade é que um menino de oito anos ficou congelado em suas entranhas desde aquele fatídico 13 de março de 1996.

Por isso, acredito que mesmo com a idade cronológica de vinte e cinco anos, Andy Murray ainda é um tenista em formação. Isso mesmo, Andy Murray ainda está moldando seu tênis. Sinto que há nele tanto a se explorar nos aspectos técnico, tático e mental que uma séria dúvida me sobrevem quanto ao resultado final desta transformação. Pode ser que o recente auxílio com psicólogo, o trabalho com Lendl, as recentes consagrações, acabem por desaguar num exemplar único de tenista, que seja o amálgama das qualidades positivas dos seus atuais adversários, mas pode ser também que se impinjam em Andy Murray a neura da competividade, a ambição desenfreada pela vitória, que findariam por lhe retirar o que ele tem de mais peculiar, a naturalidade com que encara o jogo, pueril brincadeira à semelhança da vida.

O que sinceramente espero é que a consolidação de Andy Murray se dê suavemente, sem que se lhe subtraiam os contornos e a essência do humano, que ele resista à tentação de tornar-se um autômato, que continue xingando e quebrando raquetes, que continue empinando pipas, que permaneça transformando as quadras de tênis em palco de experimentação. Se isso acontecer, não tenho dúvidas que teremos o privilégio de testemunhar algo de grandioso em 2013.

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