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sexta-feira, 21 de setembro de 2012 Minhas aventuras, Porque o Tênis. | 23:54

Match Point, Woody

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A bola bate na faixa da rede, sobe, começa a descer e então a imagem na tela é congelada, deixando no ar a dúvida em qual lado da quadra a sorte a colocará.

É a primeira, e simbólica, cena de Match Point, o filme de Woody Allen. “Eu prefiro ter sorte a ser bom”. A frase, dita por um tenista logo após a cena acima, é o fio condutor do filme. Durante boa parte de Match Point me senti incomodado. Fica difícil dizer o que exatamente me importunava.

Talvez o mau caráter de Chris, característica na qual o personagem principal é campeão. Mas já vi piores personagens e raramente me incomodei. Talvez tenha sido como o elemento sorte é tratado por Allen.

Na verdade, o filme é a respeito da sorte. O cineasta afirma que as pessoas não gostam de confessar a influência da bendita em suas vidas. A questão divide, sem unanimidade, desde a antiguidade. Virgílio afirmava que “cada um é artífice de seu destino”, enquanto Publílio Siro dizia que “para o homem a sorte tem mais valor do que o discernimento” ou ainda Sófocles com “os dados de Zeus caem sempre do lado certo”.

Sempre vivi, dentro e fora da quadra, mais centrado no conceito de Virgílio do que no dos outros. Deve ter a ver com a educação herdada de meu pai. Se ele, ou eu, esperássemos a sorte determinar nossos futuros, morreríamos de fome. Pelo menos sempre acreditei nisso. Meus objetivos e ações foram baseados no livre arbítrio. O determinismo passou longe de casa.

Mas após sair do cinema comecei a pensar. Será que também tive minha dose de sorte, e azar, e nunca dei o devido crédito? No filme, Chris age como um maquiavélico tenista, arquitetando suas ações e manipulando as pessoas. Fica claro – pelo o que mostra nas cenas filmadas no Queen’s Club, exclusivo clube de Londres onde se joga o evento preparatório para Wimbledon – ser mais um estrategista do dono de apurada técnica.

Confesso que sai do cinema odiando o personagem, mas confesso também que vou querer na minha dose de sorte daqui para frente. Mas, como talvez seja um tanto tarde para mudanças radicais de personalidade, ao invés de “eu prefiro ter sorte a ser bom”, como professa o personagem, eu fico com ser bom e ter sorte.

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