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segunda-feira, 10 de setembro de 2012 Porque o Tênis., Tênis Feminino | 13:26

Redenção

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Foi a melhor final feminina em muito tempo. As ultimas que foram a três sets foram a vitória de Arantxa Sanches pra cima de Steffi Graf em 1994, mas Arantxa ninguém merece, e a vitória de Steffi no ano seguinte sobre Seles. Equilibradas mesmo, decididas na hora da onça beber água no set final como ontem, só em 1985 com a vitória de Mandlikova sobre Navratilova, uma bela zebra, em mais de um sentido (posso imaginar a cara de incógnita da esmagadora maioria dos leitores) e a vitória de Martina no ano anterior sobre Evert.

A vitória de ontem foi uma espécie de redenção de Serena, uma redenção tardia, a tenista já tem 30 anos, porém bem vinda. Depois de muita conversa em casa, mais com a mãe do que com o pai, que nem sei se estava presente, eu não o vi, Serena decidiu que iria jogar como uma dama e não como uma bagaceira, que é o que mais de uma vez o fez.

Como colocou a D. Oracene, e muito bem, ontem era mais importante a filha não perder a tranquilidade, não enlouquecer, e não ser expulsa de quadra. “É muito mais importante ela ter uma mente estável. Tinha que ser bem claro. Não se pode perder o controle”.

Anos vivendo com o Sr. Richard – o homem que, dizem, espancava a mulher, e por ela se mandou assim que deu, e não conseguiu deixar a ira e o racismo para trás, sempre jogando com o tema racismo nas cercanias das quadras – e o inimaginável sucesso das filhas deram a Sra. Oracene o equilíbrio e a serenidade para lidar com o mundo e tentar passar isso às filhas sem que elas perdessem o diferencial que as destacou no circuito.

Venus já tinha negociado melhor esse ranço, mas Serena, até pela personalidade, adorava jogar seu jeito na cara alheia, o que nunca caiu bem mesmo em New York. Não se sabe se veio primeiro a galinha ou o ovo, e se o público “sentiu” a diferença de postura. O fato é que este foi o primeiro U.S. Open que o público abraçou as tenistas negras americanas.

O clima para a final foi lançado por Serena após a semifinal, quando pegou o microfone e chamou o público ao brio: “Pessoal, sou americana, e a última por aqui. Go USA!”. Não lembro ela deixar evidente que ser americana vinha antes de ser negra.

Serena confessou, nas entrevistas pós final, que sempre sentiu uma frieza vindo das arquibancadas, para ela e sua irmã. Em finais contra outras americanas ou mesmo estrangeiras como Hingis, Jankovic, Stosur ou Clijsters a história era sempre a mesma. “As pessoas não estavam prontas para nos ver vencer ou torciam contra mesmo. Era muito estranho”.

Mais estranho é que ela acha que as coisas começaram a mudar após o incidente no ano passado, quando ela teve um ponto tirado após gritar durante o mesmo. No que a juíza estava certa e ela e o público errado. Mas quem disse que a massa tem sempre razão? Até porque ali a juíza bobeou em não explicar, como se todos soubessem as regras do jogo. Um erro começou a consertar outro – bola pra frente.

Fora isso, o jogo foi emocionante o bastante para me fazer sair correndo de casa quando o sinal caiu e assistir em bar próximo com a leal companhia da minha mulher. Ela que tem poucos anos de tênis – antes era sofasista, mas dedicação o bastante para já ter trazido seu primeiro troféu estadual para casa – até hoje é inconformada com a dificuldade de se fechar um set, em especial uma partida. Sua torcida ontem era pela Azarenka, até porque sangue novo tem prioridade. Por conta disso ficou frustrada com a inoperância a partir do 3×5 no 3º set.

Serena abriu nesse game 40×0, um nãonão por parte da bielorussa, que ainda permitiu que a outra fizesse 0x40 no seu saque. Sete pontos seguidos e perdidos na hora de fechar o jogo não vai dar certo.

Ontem Victoria descobriu, finalmente, que além de 1ª do ranking tem tênis para enfrentar e bater qualquer uma, o que, espero, vai lhe assegurar mais sucesso que outras #1 que tivemos no tênis feminino em anos recentes. Mas, ainda não foi sua hora. Serena trouxe de sua infância em Los Angeles um ou outro componente que falam alto na hora da onça beber água. Especialmente se ela aprendeu que esses componentes a servem melhor se ficarem no inconsciente, enquanto ela coloca seu foco principal no seu enorme arsenal tenistico.

Serena – finalmente feliz.

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