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domingo, 5 de agosto de 2012 O leitor escreve, Olimpíadas, Tênis Masculino | 18:47

O leitor olímpico

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Bati os olhos e vi que esta seria mais um daqueles comentários fisgados para vir para a Home Page. O leitor, que não lembro de ter visto antes, é Inácio de Freitas, a quem agradeço pelo tempo e pela escrita.

ROGER FEDERER, AQUILES E SIEGFRIED.

Homero escreve a Ilíada para mostrar, principalmente , a mudança na alma de Aquiles, ao longo da Guerra de Tróia. É o motivo principal da obra.
A tradição germânica conta a lenda do tesouro dos Nibelungos, onde o principal motivo pode ser a ascendência e posterior decadência de Siegfried.
Os dois heróis são agraciados pelo destino, pelos deuses; o grego é filho de uma destes e o alemão recebe-lhes os vaticínios/conselhos, após apropriar-se do Anel dos Nibelungos e de todo o seu tesouro.
Ambos os personagens conhecem a dor e a morte, após aparentemente haverem conquistado praticamente tudo. Aquiles morre por seu calcanhar, o mesmo que sua mãe segurara, quando o banhou nas águas do Estige . Siegfried morre pelo único ponto de seu corpo que não foi banhado , quando mergulhou na poça formada pelo sangue do dragão que matou…
O herói grego e o herói germânico tinham seus defeitos, suas fraquezas. Lendo-lhes as estórias, quase desejamos que, em algum ponto, percam o que conquistaram, sofram, caiam, falhem. Com Roger Federer, dá-se o oposto. Tudo o que conquistou, foi através de uma ética e virtudes raramente vistas, no tênis, no esporte em geral, na vida pública, no mundo.
Até onde se pode saber, Federer é bom filho, bom pai, bom esposo, excelente amigo (este ano, abriu mão de ser, pela terceira vez em sequência, o porta-bandeira da Suíça, nas Olimpíadas de Londres 2012 e cedeu a vez para seu colega Stanislav Wawrinka , com quem joga em dupla e com quem foi campeão olímpico, em Pequim 2008). É insofismavelmente paciente com a imprensa, nunca rude, nunca destemperado, nunca descortês. Dos colegas de profissão, todos o admiram, alguns o idolatram; de tal modo que, seguidamente, é eleito e reeleito para compor (e, na maioria das vezes, presidir) o Conselho de Jogadores da ATP . Seus maiores rivais (destaque para Rafael Nadal, Novak Djokovic, os “Andys” Murray e Roddick, os argentinos Del Potro e Nalbandian, Nicolay Davydenko, J. Tsonga, Pete Sampras, Leyton Hewit, Marat Safin, Gustavo Kuerten …) costumam apontá-lo como o melhor de todos os tempos e, dos mais antigos, Bjorn Borg, Rod Laver, Martina Navratilova e Maria Ester Bueno (para citar só estes) seguem a mesma linha de pensamento (com pequenas variações ). Mesmo em outros esportes, os ícones o procuram e assistem . É difícil achar defeitos, menos ainda desvios de caráter em Roger Federer…
E é difícil não torcer por ele.
Mas os deuses, ah, os deuses… Têm suas peripécias, suas artimanhas, suas tramas e sua própria visão do mundo e da vida (talvez nada de errado, com isto: vida e mundo vieram deles, afinal…).
E assim, parece que, hoje, Roger Federer foi definitivamente alijado da conquista do ouro olímpico individual. Olímpico… Ouro dos deuses e apenas deles, talvez. Como os nibelungos avisaram a Siegfried: este ouro não te pertence. É nosso por direito. E colocaram, mais uma vez, Juan Martin Del Potro, no caminho de Roger Federer. Na semifinal, o platino lutou com o europeu, por quatro horas e tantos minutos… O suíço terminou por vencer (19-17, no set de desempate), mas os trinta, quase trinta e um anos cobraram sua alta tarifa e hoje, dois dias depois, na final de Olimpíada, quadra central do All England Club, Federer não teve energia física e teve pouca energia mental para enfrentar, mais uma vez, o herói local, Andy Murray, na mesma grama onde este último sofrera em suas mãos uma das mais tristes derrotas da vida.
Murray campeão, em três sets inatacáveis.
Um Federer desolado deixou a quadra, cabisbaixo, de olhos marejados, certamente. O metal dos deuses, nunca será somente seu…
Caso nos possa – aos que torcemos e sofremos por ele e com ele – servir de consolo: Pelé não teve o ouro olímpico; nem Lance Armstrong. E alguns outros semideuses ficaram separados desta singular conquista, até o fim de suas carreiras.
O tempo, contudo, ainda poderá nos surpreender e, quem sabe, gerar o que seria talvez o maior prodígio da história do tênis: o ouro olímpico individual de RF, aos trinta e quatro anos, numa Olimpíada no hemisfério sul, num país sem muita tradição no tênis, numa quadra que não seja de grama…

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