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quarta-feira, 1 de agosto de 2012 O Leitor no Torneio, Olimpíadas, Tênis Masculino | 23:24

Tarde-Noite

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Mais um dia/tarde/noite do leitor João Paulo Couy em Wimbledon olímpico. Aliás, ótimo texto!


E como se decide quais ingressos adquirir para o torneio? Claro, não é essa uma preocupação aristocrática, mas o proletariado aqui, de imposto retido na fonte, não tem tanta margem para os melhores lugares de quadra central quando bem lhe convier. Quando comprei os ingressos há quase dois anos, minha lógica foi de garantir um espaço, mesmo que ruim, na quadra central para presenciar os cachorrões ao menos uma vez, e lançar mão das quadras secundárias para ficar ali, de onde se ouve o menor grunhido de esforço do tenista e o cantar do tênis na grama. A tática pareceu genial no primeiro dia, quando fiquei no nível 300 (intermediário), mas comecei a questioná-la ao entrar na Central para ver o mestre-blazé contra o Benneteau — sentado onde os pombos escolheriam se acomodar não fosse o tal falcão, pensava “valeu a pena economizar essas 30 libras?”. Me consolava pensando que aquele possivelmente seria o único jogo que me interessaria na Central por aquele dia — o que de fato ocorreu. E convenhamos, é de 30 em 30 que a rainha enche o papo na mesma proporção que meu cofre esvazia. Qual o quê, a proporção é na verdade 3,5 — num câmbio muito bem feito. O jogo foi somente interessante pelo histórico recente da quase eliminação em Wimbledon 2012. Hoje as bolas suicidas do francês não entravam, e o seu pezinho dolorido não colaborava com o saque — tampouco na busca dos drops do mestre. Jogo foi rápido, mas a torcida não arreda o pé enquanto o maestro não sai da quadra — fiquei pensando se o encanto que faz o povo esperar o cara terminar a entrevista ,da qual não se escuta um “a”, só para ver seu último tchauzinho vem todo daquele plástico backhand… (no meu caso explica boa parte) Vejam, já não tenho tanta dúvida que fiz um bom negócio com os ingressos ao ver o calendário do dia mostrando que Roger/Stan vão iniciar a defesa do título na quadra 2. Uau, são os assentos de fundo de quadra mais próximos da linha de base em todo complexo! E com trintinha no bolso, mano! O jogo estava agendado para ser o quinto do dia e como a quadra é pequena, sabia que a disputa por assento ia ser grande — ainda mas pelo jogo anterior ser das irmãs Williams. Levando a sério o conselho de aproveitar-enquanto-por-aí-está, demarquei cedo o território — sei lá quando vou ter a chance de ver aquele movimento de saque de tão de perto assim novamente… Do meu lugar de espera, pude ver que os slices do Petzschner não conseguem segurar o rojão por muito tempo — eles foram ficando menos rasantes e mais curtos, e o jogo linear e forte do Janko prevaleceu já com tranquilidade no terceiro set. “Up next” eram as Williams, e a essa altura já não tinha lugar para viv’alma nos assentos. Fiquei imaginando se tudo aquilo era torcida estadunidense, mas o desconforto que os patrióticos e insistentes gritos de U-S-A geravam nas pessoas ao meu redor mostrava que a maioria estava ali era guardando lugar para o que vinha. E enquanto ele não chegava, mais constrangimentos para gente: a visão daqui de trás da Serena na rede esperando a irmã sacar enrubesce muito frequentador de baile funk que balança o popozão por aí. O único atrativo do jogo sonolento — ganhado por quem sacava até 50 km/h a mais que as adversárias — eram as incursões da Cirstea no nosso lado da quadra — e não exatamente pela qualidade do seu tênis. Finalizada a tortura, ainda passaram-se alguns bons minutos até a juíza anunciar que o próximo jogo não era o inicialmente programado: vai jogar a dupla feminina britânica. A chiadeira que se ouviu foi pra deixar claro que nesse lawn súdito reverencia rei antes de rainha. Então corre que a dupla suíça já está na Quadra 1. A essa altura do campeonato, penso, os caras já abriram os portões e é só correr antes da “munchedumbre” e pegar o melhor lugar. Isso só para dar com os burros n’água porque yes, indeed sir: you still need to be a ticket holder to entry. Mas e meu ingresso da Central, não me dá nenhuma vantagem a essa hora da noite?! Não, brasileiro, aqui não tem jeitinho, corre para Henmann Hill no guichê de re-sale tickets e compre o seu. (Parêntesis para dizer que o esquema de revenda de ingressos aqui em Wimbledon deve ser conhecido pelo pessoal que acompanha o blog, então não me alongarei) As garotas que trabalham ali estavam em clima de fechar as portas quando o furacão bateu na porta — em cinco minutos formou-se a fila de dar volta na quadra 18. Os europeus, com espírito contestador mais aguçado, começaram com um burburinho civilizado — se é que isso existe. Um senhor com inglês de quem fala alemão exigia a presença do supervisor, porque era um absurdo a quadra com meia dúzia de testemunhas e um caminhão de gente fazendo fila para comprar um ingresso que nem se sabe se estará disponível. Não adianta, meu senhor, é política do comitê já tivemos esse problema ontem e não há o que fazer – a não ser entrar na fila e tentar comprar o ticket. Nisso uma inglesa atrás de mim na fila — devidamente paramentada com todos os acessórios “RF” disponíveis na Inglaterra — sugere, de forma very unpolite para suas origens, que os primeiros da fila pagassem os cinco pounds em dinheiro, no cartão demora e ela quer chegar na quadra a tempo de ver jogo, oras!! Em meio a toda manifestação, preferi guardar saliva para, na minha vez do guichê, sugerir à moça que me desse um ingresso bem perto da linha de base. Risadinhas da parte dela, satisfação por ter o ingresso na mão de meu lado, corri para o jogo. Não achei que a ela tinha me levado a sério, mas chegando na quadra me arrependi por não ter sido mais enfático no thank you: o assento era na segunda fileira, bem na frente da Dona Mirka & Cia — coisa de aristocracia, sabe?! Mas só me senti verdadeiramente em uma coluna de futilidades, digo, de celebridades quando se acomodaram atrás de mim ninguém menos que Mary Jo Fernandez e suas crianças. Não tive coragem nem de fazer a foto disfarçada que tirei da Ms Federer e meu instinto de que aquilo não era hora para tietagem provou-se certo pela cara de poucos amigos que a campeã fez para as japonesas sem o mesmo tato que pediram autógrafo naquelas bolonas de tênis. E já que é para fofocar, o acompanhante dela parecia fazer parte do “team” suíço e os pimpolhos torciam descaradamente com gritos de incentivo em alemão! Para que esse relato não vire um texto da Caras, voltemos ao jogo, que visto daquela distância é uma experiência totalmente distinta. Deu para ouvir vários resmungos entre as ajeitadas de topete (coisa baixa, porque o rapaz não pode perder a pose) e ver que o Stanislas busca muito apoio visual de seu pessoal no box. E foi um jogaço. Quanto mais forte o Wawrinka sacava, mais rápida a devolução dos japas, que não estavam nem aí com favoritismos e preferências do público. Fecharam a porta com autoridade em todos os breaks contra, e levaram o primeiro no tie break. A essa altura, se eu fizesse parte da comissão organizadora, já estaria com os primeiros cabelos em pé, porque o deus sol já não tinha muito mais a oferecer depois de um dia fantástico de verão. Mesmo com o segundo set sendo definido de forma mais rápida que o primeiro, a negra começou de forma literal — já no breu, mesmo!! Para sorte dos suíços, eles quebraram logo no começo. Sorte porque já antes do terceiro game, o Nishikori foi chiar com o juiz de cadeira — realmente tava ruim de enxergar. Juizão apontou por telefoninho como quem diz quem-manda-não-sou-eu e os suíços só nos ouvidos moucos versão alpina. Ninguém deu muita bola pro japonês, e eu fiquei discutindo lá com meus botões o que aconteceria se fosse o homem de topetes a reclamar… O fato é que o jogo continuou, num ambiente absurdamente escuro. Nos últimos games, quem sacava levava sem maiores problemas pois os adversários só devolviam se fosse no susto. Mas o peso extra na raquete de quem saca para fechar o jogo acontece desde muito antes de Thomas Edison sair inventando moda e naquela escuridão, o maestro foi se enrolando par
a fechar a coisa, é break contra, iguais, madeirada, gaiato gritando “come on guys, I’m freezing here”, rally absurdo para o nível de luz, com vários voleios curtos até que finalmente o homem saiu do buraco e fechou o jogo. Quem aguentou o vento gelado até aquela hora da noite saiu com a certeza de que aquilo foi das melhores tardes-noites dos últimos dias — no meu caso, meses.

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