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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012 O Leitor no Torneio, Tênis Brasileiro, Tênis Masculino | 11:57

Pipocas

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Cheguei mais cedo ontem no Ibirapuera. Aproveitei que o dia foi interrompido por um almoço com o amigo Carlos Kirmayr para enforcar o resto da tarde. Em São Paulo o público diurno ainda é menor do que o noturno. Sempre me questionei em como os franceses enchiam as arquibancadas de Roland Garros às 3h da tarde. Os meus primeiros pensamentos eram que é um povo rico, e pode se dar ao luxo, acrescentado ao fato que sabem colocar suas prioridades em ordem. É incrível como as pessoas permitem que o trabalho atrapalhe o seu tênis.

Aproveitei para dar uma volta nos stands externos, onde vi o pessoal deixando o braço para ver quem saca mais rápido – parece que cada um dos patrocinadores colocou uma dessas gaiolas com um radar para o pessoal se comparar ao Karlovic. A falta de imaginação continua assolando o planeta. Vários deles uniformizados, o que me faz pensar que são tenistas fanáticos, algo que o Ibira está cheio, o que é ótimo para o evento – “more power to tennis players end less to sofasistas!”

Orientado pelo inconfundível cheiro de pipoca entrei no stand do Banco do Brasil, onde, dentro de uma gaiola de vidro, vi uma moça, uma mesa e as pipocas. Enquanto marchava para lá, outra moça, atrás de um balcão, se desesperava me perguntando “posso ajudar, posso ajudar?” Eu sabia o que ela queria e ela não tinha nada do que eu precisava. Perguntei para a de dentro se podia pegar um saquinho, enquanto esticava a mão cheia de dedos e desejo, ao que ela me respondeu que a pipoca era para quem se habilitava para um cartão de crédito. Enquanto saboreava as primeiras, que nem tão quentinhas estavam, instiguei a nissei que me questionava a falar sobre a oferta. Ela começou a me dar aquele malho treinado, enquanto eu fazia comentários interesados e divagava o meu olhar para fora em busca de novos interesses. Com toda a simpatia, perguntei se poderia ir lá fora dar uns saques, enquanto engolia mais alguns milhos explodidos e deixava a claustrofóbica salinha. Já desarmada e provavelmente contemplando a iminente possibilidade de se encontrar mais uma vez a sós na gaiola, ainda tentou me lançar com o pedido de uma doação ao Instituto Kuerten, o que achei generoso da parte dela, para com ele, mas a minha atenção já fora desviada pela curiosidade do preço de um saquinho de pipoca e os esforços necessários por consegui-lo.

Logo depois encontrei o leitor Flávio “Barão”, acompanhando de sua fraunlein, que me avisa que no sábado será o proprietário de um camarote junto com a musa Maysa. Conversamos um pouco enquanto eu aguardava o Pedra, pai de Andre Sá para rápida conversa, que me contou sobre as vantagens e desvantagens de morar em uma fazendo sem internet. Em seguida fiz rápida visita à área reservada da organização e dos tenistas. A conversa mais longa foi com Dani Orsanic, treinador argentino de Thomaz Bellucci. Conversamos sobre o jogo maluco do dia anterior e sobre o que vem pela frente no seu trabalho. Na devida hora falarei mais sobre o assunto.

Ainda eram quase 5 da tarde e David Nalbandian estava sentado, uniformizado, comendo uma manga, conversando com amigos argentinos – mal sabia ele que ainda teria que esperar mais de 6h para entrar em quadra. Não foi à toa que poucas vezes vi o ex-pança – ele me pareceu bem mais magro, inclusive no rosto, o que ressalta a sua riqueza nasal – tão focado em partida. Ele acabou com o francês Simon, cujo técnico, o ex-top 10 Tulasne foi um dos meus interlocutores no local, antes que entrássemos irremediavelmente pela madrugada, que era o que se temia. Mesmo assim, um bom público ficou acordado para ver o talentoso Hermano eliminar o cabeça #2 por 6/2 6/3 fora o baile.

Fui questionado pela ordem dos jogos por algumas pessoas, que assumem que o Diretor do Torneio é algum idiota. Conversei com ele, Luiz Felipe Tavares, e lembramos que 40 anos atrás realizamos os primeiros grandes torneios de tênis no Brasil, o WCT, naquele mesmo ginásio, onde estiveram, entre muitos outros, Laver, Emerson, Borg, Ashe.

O organizador me contou que a feitura da ordem dos jogos é um cabo de guerra diário. Desde sempre, a ATP cede para alguns diretores de torneios que tem força e influencia nas Américas e Europa e desconta para cima dos outros. Para cá a força da lei, para lá o olhar condescendente dos pares geográficos. Só para se ter uma ideia, a realização da ordem de hoje exigiu toda a habilidade de negociação por parte do diretor do torneio, para podermos ter Bellucci no horário nobre, o segundo jogo da noite. Mesmo assim, corre-se o risco de termos o cenário de ontem, quando o horário nobre foi dominado pelo sonolento confronto entre Chardi e Mayer após o Verdasco alongar seu jogo ao extremo. Mas, pelo menos, amanhã é sabadão e o publico não tem que acordar cedo.

Tavares também me contou que para ontem alugou containers para amenizar o problema das bilheterias, algo que os leitores aqui no Blog alertaram e que foi levado a ele. A infraestrutura do Ibirapuera é extremamente carente e precária em vários pontos, a maioria longe dos olhos do público. Mas um deles, o das bilheterias, atinge o publico pagante em cheio. É mesmo desagradável, e desrespeitoso, ficar um tempão para se comprar o direito de se acompanhar um espetáculo. Ele me assegurou que isso já foi amenizado. É algo também que o governo do Estado, dono do complexo e parceiro do evento, deve ser priorizar em eventos que buscam acolher um público numeroso e bem pagante.

Nalba – correndo para não entrar na madrugada.

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